Três especialistas listam ao Estadão os uniformes mais bem trabalhados para o torneio, levando em conta inovação, identificação, cultura e personalidade

Qual é a melhor camisa e a mais controversa da Copa do Mundo?

1:36Estadão conversa com especialistas em moda e colecionador para trazer, em detalhes técnicos, seleções que capricharam e quem ficou devendo nos uniformes. Crédito: Symone Rech e Gabriella Geremias

Além de ser um evento do futebol, a Copa do Mundo é sempre um prato cheio para os amantes de camisas esportivas, já que cada seleção faz um projeto novo para a competição. Com duas semanas em andamento, o Estadão analisou cada uniforme em campo e perguntou para quem entende do assunto: quais são as mais bonitas e quais as mais controversas?

Foram entrevistados o colecionador e recordista do Guinness como maior detentor de peças, Cássio Brandão, a especialista em moda masculina Gabriella Geremias e a consultora de tendência e mercado da moda Symone Rech. Eles avaliaram, tecnicamente, quais os projetos mais consistentes, quem inovou e os que fugiram muito da proposta.

O objetivo não é trazer avaliações opinativas, mas técnicas em aspectos como: inovação, personalidade, conexão com o país, riqueza cultural e função desportiva e de moda. Isso porque os uniformes, hoje, são produtos de moda, tecnologia e branding.

“As grandes marcas esportivas entenderam isso há muito tempo. Elas já não disputam apenas quem faz o uniforme mais bonito. Disputam quem consegue construir a narrativa mais forte”, conta Symone, que usa como um de seus critérios se a camisa segue interessante quando acaba o jogo.

Vale lembrar que modernidade, ou mesmo ousadia, não significa automaticamente beleza. Se ela não for reconhecível e não conversar com o consumidor, perde pontos, para Gabriella. “Quando alguém tenta parecer algo que não é, a mensagem se torna confusa. No futebol, a regra é a mesma, a imagem mais forte não é a que chama mais atenção, mas que comunica com clareza quem você realmente é”, diz.

A África do Sul ainda não utilizou sua segunda camisa na Copa do Mundo, ao menos até o inicio da terceira e última rodada da fase de grupos, mas é uma das mais elogiadas. Para Gabriella, a escolha pelo verde com detalhes em amarelo é coerente e traz uma pitada de nostalgia.

“Optou por por um uniforme baseado em memória, pertencimento e representatividade”, opina a especialista. “Encontra sua maior força ao resgatar a memória da Copa de 2010, primeiro Mundial realizado em solo africano”.

A escolha por tons mais escuros junto ao dourado ainda carregam uma sofisticação, maturidade e ideia de exclusividade. “Eleva a um padrão visual mais premium do que a média da Copa do Mundo”, avalia Gabriella.

A camisa da seleção brasileira foi alvo de muitas polêmicas antes da Copa do Mundo, por conta do uniforme vermelho e do “Vai, Brasa”, inicialmente estampado na gola. A versão final, sem a frase, agradou aos que trabalham com moda e acertou.

Symone acredita que o manto do Brasil carrega um “patrimônio visual” muito forte e que, assim, traz um desafio para ser atualizado, algo que a versão do torneio conseguiu fazer, sem perder a essência. “Consegue fazer isso através da construção gráfica e tecnologia aplicada ao tecido, mantendo intacto um dos maiores ativos de branding do esporte mundial”, diz a consultura em moda.

Gabriella segue a mesma linha e reforça a identidade com o País aliada à cultura jovem. “Preserva o amarelo canarinho clássico e o verde, com referências à criatividade e energia da cultura brasileira. O conceito é uma tentativa de aproximar a seleção de uma linguagem mais jovem, urbana e ligada à cultura streetwear“, explica.

Olhar para uma camisa e reconhecer sua bandeira favorece muito a identificação, segundo Gabriella. E o uniforme da Espanha não abre mão de mostrar o vermelho com amarelo tão tradicional da campeã de 2010 e que remete ao ‘tiki-taka’ só de olhar.

Além de reforçar a tradição da ‘La Roja’, como é conhecida, a seleção europeia ainda trouxe o fator “elegância” para o torneio na América do Norte. “Descreve como celebração da elegância do futebol espanhol e aposta na sofisticação discreta em vez de elementos criativos”, explica a especialista.

“Uma camisa refinada, que transmite autoridade no futebol. As listras verticais finas remetem à alfaiataria masculina, tornando-a mais elegante tecnicamente; e as douradas ajudam a criar um visual mais refinado. O azul-marinho cria contraste com o vermelho, trazendo profundidade visual e aparência mais clássica”, completa Gabriella.

A França veio com um azul diferente nesta Copa, intercalando detalhes escuros e claros. A aposta foi certeira e, para Cássio, elevou o patamar da atual vice-campeã. “Talvez, a combinação de camisa, shorts e meias mais perfeita entre as seleções”, determina o colecionador. “E com o galo gigante e dourado no peito, minimalista e imponente”.

Symone classifica essa presença como elegante e concorda que os europeus acertaram na ideia do ‘quanto menos, melhor’. “A elegância continua sendo uma vantagem competitiva. Em um cenário em que muitas seleções buscam chamar atenção pelo excesso de informação, a camisa aposta na precisão”, continua.

A consultora em moda conclui com o recado de que é possível um uniforme ser simples sem perder detalhes e nuances técnicas. “É um projeto que transmite refinamento e mostra que simplicidade e sofisticação não são conceitos opostos”, conclui Symone.

Jogando em casa e cumprindo as expectativas sendo o primeiro classificado ao mata-mata, o México incorporou seu folclore e referências históricas no uniforme, tanto no titular quanto no reserva. O projeto agradou, principalmente, pela dose certa entre decoração temática e narrativa.