Em entrevista exclusiva à VEJA, o organizador Denis Perucci antecipa novidades para o futebol feminino nordestino
Priorize VEJA no Google A Copa Maria Bonita prepara sua segunda edição com a missão de ampliar a visibilidade e fortalecer o futebol feminino no Nordeste. Em entrevista exclusiva à Veja, o idealizador Denis Perucci revelou que já está em planejamento para uma nova competição que contará com equipes internacionais. Enquanto se prepara para sua segunda edição, a Maria Bonita também busca atrair mais patrocinadores, inclusive aquelas que já investem na modalidade, mas ainda concentram suas ações no sudeste do país.
Realizada em 2025, a edição inaugural reuniu mais de 250 atletas e profissionais em 12 partidas na Arena de Pernambuco. O Fortaleza conquistou o título ao vencer o Sport por 1 a 0 na final, com gol de Tainá, atacante que atualmente defende a Ferroviária e integra a Seleção Brasileira Sub-20 na Copa do Mundo da categoria, disputada na Polônia. A ascensão da jogadora evidencia o potencial da Copa Maria Bonita como espaço de observação e desenvolvimento de novos talentos, além de reforçar a importância de criar competições de alto nível fora de São Paulo.
A segunda edição está prevista para ocorrer entre os dias 12 e 21 de novembro e já confirmou a participação de clubes como Sport, Ceará, Vitória, Atlético Piauiense e Sampaio Corrêa. Confira a entrevista completa com Denis Perucci sobre a criação e os bastidores da Copa Maria Bonita, os desafios estruturais da modalidade no Nordeste, as parcerias e estratégias de divulgação, o impacto social do torneio, os planos de expansão para outros estados e a organização de uma segunda competição inédita, com equipes internacionais.
Como surgiu a ideia da Copa Maria Bonita e qual foi o processo até transformar o projeto em realidade?
Denis Perucci – Entrei no futebol há cerca de cinco anos, quando um amigo, diretor de competições da Federação Pernambucana de Futebol, me convidou para assistir a um jogo do Corinthians em Recife. Depois da partida, ele me chamou para conversar e explicou que a Federação não tinha um departamento comercial, lembrando da minha experiência de 17 anos como diretor comercial da Multirrevistas, empresa que representava a Editora Abril na região. Como eu já havia sido atleta e gostava de futebol, aceitei o convite para assumir a diretoria comercial da Federação. Ao entrar, comecei a estudar e me atualizar sobre o setor, pois, embora já tivesse atuado como atleta, nunca havia trabalhado com futebol fora de campo.
Identifiquei uma situação muito triste no futebol feminino, especialmente aqui no Nordeste. Comecei a pesquisar quais eram as competições, quais eram os times e como funcionava o cenário. Naquela época, não havia nenhum time nordestino na Série A do Campeonato Brasileiro. O que existia era um campeonato estadual com, aproximadamente, cinco equipes. Em uma partida, não havia ambulância; em outra, as meninas não foram porque não tinham ônibus para transportá-las.
Comecei a me deparar com essa realidade e fiquei revoltado. Pensei: “Caramba, preciso fazer alguma coisa”. Era também uma oportunidade de negócio, mas eu precisava contribuir de alguma forma para mudar um pouco aquela realidade. Claro que não vou salvar o mundo, mas acredito que posso contribuir.
Nesse momento, começaram a surgir algumas ideias. Eu ainda não tinha noção do que a Maria Bonita se tornaria, mas sabia que precisava fazer alguma coisa pelo futebol feminino. Não sabia se seria em Pernambuco ou em algum estado vizinho, mas começamos a construir essa história.
Passamos por uma longa etapa de planejamento, pensando em como seria a competição e qual formato adotaríamos. Buscamos inspiração na Ladies Cup e na Copa do Nordeste. A ideia inicial da Maria Bonita era contar também com a participação de equipes internacionais, seguindo o modelo da Ladies Cup.
Depois de estudar e pesquisar, chegamos ao formato de uma competição com equipes do Nordeste. Levamos a ideia à Federação Pernambucana, que gostou e aceitou imediatamente a proposta. Naquela época, o futebol feminino já estava crescendo, mas não no Nordeste. O desenvolvimento era mais forte no eixo Sudeste, com o Corinthians se destacando, participando de competições e registrando públicos expressivos nos estádios.
É importante explicar que a Copa Maria Bonita não é um projeto da Federação Pernambucana, como muitas pessoas pensam. É um projeto particular. Eu também tenho uma agência de marketing esportivo. Com a ideia da Maria Bonita, transformei a empresa em uma agência voltada ao marketing esportivo para estruturar a realização da competição.
Apresentamos o projeto à Federação, que adorou a ideia. Depois, levamos à CBF, que também gostou muito. A Aline Pellegrino, que consideramos nossa madrinha, sempre foi uma grande apoiadora do projeto e de tudo o que envolve o futebol feminino. Ela também gostou muito da proposta. Inclusive, agradeceu porque queria expandir o futebol feminino, mas estava concentrada em outras frentes e não conseguiria fazer o que nós poderíamos, como organizar uma competição com times nordestinos.
Depois, levamos a ideia à Globo, e isso foi essencial. Quando você tem um parceiro como o Grupo Globo, que se interessa imediatamente pelo assunto, ganha uma força muito grande e um importante canal de visibilidade para as meninas.
Fomos juntando essas peças e construindo a Maria Bonita aos poucos. No primeiro momento, tentamos lançar o projeto rapidamente, achando que seria fácil viabilizá-lo e vender as cotas de patrocínio. Foi aí que percebemos a dificuldade. Tínhamos o apoio da CBF, da Federação e da Globo, fizemos um lançamento muito impactante, mas não conseguimos o dinheiro necessário para viabilizar a competição. Então, recuamos e entendemos que precisávamos ter calma. A ideia era muito boa e todos gostavam do projeto, mas precisávamos de recursos para colocá-lo em prática.
Em uma competição com a realidade dos times do Nordeste, com raras exceções, se você não paga tudo para todos, a coisa não acontece. Levar nove equipes para um estado envolve um custo elevado e um investimento que não é fácil de conseguir. Decidimos que só relançaríamos o projeto quando tivéssemos segurança de que ele estaria viabilizado.
Depois de um tempo, uma pessoa que havia sido parceira da Maria Bonita desde o início assumiu o cargo de secretário executivo de Educação em Pernambuco. Esperamos que ele se adaptasse à função e, então, sentamos para apresentar a planilha do projeto.
Ele disse que conseguiria custear algumas despesas, o que representava 70% do valor total. Pensamos: “Agora é o momento. Falta muito pouco para viabilizar. Vai dar certo”.
Relançamos o projeto e o apresentamos novamente à Globo. Isso aconteceu por volta de setembro ou outubro. Quando o ano virou, a Secretaria de Esportes, que era vinculada à Secretaria de Educação, se desvinculou e passou a ser uma secretaria própria.
O secretário saiu do cargo, entrou outra pessoa e tivemos que começar do zero novamente. As verbas também mudaram. Houve um período de reorganização da nova secretaria e de aprovação das verbas. O apoio que inicialmente representava 70% do projeto caiu para 30%.
O projeto já havia sido lançado, os times estavam treinando e a Globo já tinha divulgado a competição. No fim das contas, conseguimos apenas o apoio para a confecção do troféu por parte do Governo de Pernambuco. Nem os 30% foram garantidos, o que gerou uma grande insegurança.



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