Uma Copa do Mundo difícil para os fãs, como já se imaginava, e de pouca interação. O Mundial dos EUA, México e Canadá tem como marca principal o culto aos grandes craques e pouca margem para improviso por parte dos fãs.Até agora, passei por cinco sedes
Uma Copa do Mundo difícil para os fãs, como já se imaginava, e de pouca interação. O Mundial dos EUA, México e Canadá tem como marca principal o culto aos grandes craques e pouca margem para improviso por parte dos fãs.
Até agora, passei por cinco sedes do Mundial, o que é bastante, mas não é nem um terço - são inéditas 16 sedes, sem contar dezenas de bases de treinamento de seleções. Nunca houve um Mundial tão espalhado, o que dificulta o "cruzamento de caminhos" dos fãs com os times, com locais de treinos ou mesmo entre torcidas diferentes.
Os Estados Unidos não são um país construído e com cultura de as pessoas fazerem coisas a pé, muito pelo contrário. Em cidades como Dallas, Houston ou Miami, não há um centro óbvio onde organicamente as pessoas se juntem, sentem numa praça e assistam a jogos juntas. Não há bares com mesas nas calçadas. O que torcidas de países como Brasil ou Argentina têm feito é marcar pontos de encontro, hora marcada, para celebrar a própria seleção. As polícias locais se organizam e permitem algum nível de bagunça.
A reclamação mais recorrente é sobre preços de ingressos. "Eu vivo aqui em Dallas e paguei 2.700 dólares por um ingresso", me contou Christian, um argentino que cresceu e vive nos EUA há 25 anos. "Queria ver o jogo em pé, 'hinchar' com meus compatriotas, mas não tinha ambiente nenhum, em volta de mim só tinha gente de outros lugares com a camisa do Messi".
Este padrão eu pude presenciar de forma ainda mais flagrante nos dois jogos de Portugal que acompanhei em Houston, mas ele ficou claro também nos jogos da Argentina, em Dallas. A maioria das pessoas nos estádios estava lá para ver Messi ou Cristiano Ronaldo, não estava muito preocupada com Argentina, Portugal ou o resultado. É um público de estrelas e de entretenimento, que pagou caro por isso.
Na partida entre Argentina e Jordânia, a volta dos times para o segundo tempo foi marcada por gritos de "Meeeeessi, Meeeeessi". O astro começou o jogo no banco de reservas, já que os argentinos já tinham a primeira posição do grupo garantida. Um olhar atento foi revelador: os argentinos, em sua maioria, não estavam gritando o nome de Messi, talvez por não quererem melindrar os que estavam em campo, talvez por estarem mais preocupados com sua seleção do que com Messi. Era nítido que o movimento de "pedido" por Messi era feito por não argentinos, por pessoas que estavam no estádio para ver... Messi.
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Scaloni foi esperto, colocou Messi com 15 minutos do segundo tempo em campo, o cara fez um gol de falta e deixou todo mundo feliz, argentinos e não argentinos.
São públicos heterogêneos, o que é também uma marca da sociedade americana, muito compartimentada. Tem gente rica, que pega um avião, vem de Michigan, como o Eduardo, outro argentino que conheci, assiste ao jogo e volta. Tem gente no motorhome para economizar com hotel - sendo que há tantos hotéis em torno das cidades grandes americanas que tenho dúvidas sobre a economia. Aliás, os centros das grandes cidades são marcados por enormes prédios que, supõe-se, são de escritórios, depois há enormes pistas com hotéis, comércios e lanchonetes e mais lanchonetes. É até difícil entender onde, de fato, moram as pessoas.
Dentro dos estádios, o que mais chama a atenção, sem dúvida, é a barulheira. Os speakers não param um segundo sequer, antes dos jogos, nos intervalos e no fim do jogo. Sempre uma distração.
Nota-se que há menos bandeiras penduradas nos anéis que separam os lances de arquibancadas, principalmente os inferiores, que aparecem na transmissão de TV. O que mostra que ou a segurança está barrando bandeiras ou há menos pessoas vindo de outras partes e querendo exibir seu localismo. As pessoas que trabalham nos estádios são quase todas mal-humoradas, não se vê um sorriso no rosto, é sempre uma relação de conflito. Torcedores que tentam se meter em outras áreas do estádio, para se juntar com os seus ou estarem perto das batucadas, não conseguem passar nem perto de fazer o que sempre foi feito em Copas do Mundo. E há vídeos na internet de gente mostrando que há a proibição de ver o jogo em pé.
Há uma coisa, no entanto, que está unindo cada vez mais o público. As vaias no momento em que os árbitros param os jogos para a tal pausa de hidratação - aquela que a Fifa diz que não rende um tostão para ela. As vaias são cada vez maiores e mais ostensivas. Pela TV, noto que têm acontecido em todos os estádios, especialmente no México. As decisões inexplicáveis de impedimentos do VAR também têm sido vaiadas.
É como se fosse a única chance de dar um grito: "Devolvam o meu futebol!". Não vi uma pessoa contente com a possibilidade que se ventilou ao longo da semana, de a Copa do Mundo voltar aos Estados Unidos já em 2038. É a mesma forçação de barra que ouvimos durante a Copa de 1994. Este país e o futebol não foram feitos um para o outro. É um casamento de conveniência, nada mais.
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