Policial e psicopedagoga ouvidas pelo iG explicam o avanço dos crimes, a vulnerabilidade de crianças e adolescentes e os sinais de alerta

Os crimes virtuais envolvendo crianças e adolescentes aumentaram 78% durante as últimas férias escolares, segundo dados do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD), da Polícia Civil de São Paulo. O número de vítimas passou de 89 para 158 na comparação com o mesmo período do ano anterior. O levantamento também aponta uma escalada na violência praticada nesses ambientes.

O alerta ganha força em meio à sequência de casos extremos que colocaram a segurança de crianças e adolescentes na internet no centro do debate no Brasil. Um dos episódios mais recentes envolveu uma adolescente de 13 anos que morreu durante uma transmissão ao vivo no Discord . O caso levou a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) a suspender preventivamente as transmissões ao vivo da plataforma no país.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e a Advocacia-Geral da União (AGU) apresentaram, em coletiva de imprensa nesta quarta-feira (26), medidas em relação ao Discord no Brasil, entre elas uma Ação Civil Pública (ACP) e uma cautelar indenizatória no valor de  R$ 500 milhões.

Também ganharam repercussão casos envolvendo violência contra animais e desafios que estimulam crianças e adolescentes a praticar atos perigosos diante de espectadores. Um caso exibido pelo Fantástico, por exemplo, mostrou uma adolescente de 13 anos que colocou fogo em um gato durante uma transmissão no Discord, em uma situação que também provocou um incêndio na residência.

Por trás de episódios aparentemente diferentes, especialistas e investigadores ouvidos pelo iG identificam um padrão preocupante, com a violência que pode começar de maneira aparentemente banal, ganhar espaço em comunidades virtuais e, gradualmente, chegar a situações de ameaça, extorsão, automutilação e outros crimes.

Para entender por que crianças e adolescentes podem ser mais vulneráveis a esse ambiente e quais sinais devem chamar a atenção das famílias, o iG conversou com a psicóloga infantojuvenil Fernanda Fusco. Segundo ela, a exposição repetida a conteúdos violentos pode levar a um processo de dessensibilização.

A especialista compara o fenômeno à criação de um "calo emocional". Quando uma criança é exposta repetidamente a cenas de violência, a reação inicial de medo ou choque pode diminuir. Com o tempo, aquilo que antes provocava indignação pode passar a ser entendido como algo banal.

"Ela acaba sendo anestesiado com aquela sensação, primeiro de susto, depois de medo, mas aquilo que vai fazer que faria ela chorar ou ficar indignada passa a ser é entendido como alguma coisa banal, comum na internet.É como se a violência fosse ficando banalizada", explicou.

Segundo Fernanda, o cérebro tem capacidade de se adaptar ao ambiente em que está inserido. Quando uma criança ou adolescente é constantemente bombardeado por conteúdos de hostilidade, pode começar a compreender aquele cenário como uma representação normal do mundo.

"A régua do que é aceitável baixa", afirmou.

A psicóloga ressalta que crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo a capacidade cerebral de avaliar situações complexas, consequências e limites sociais. A construção da empatia também faz parte desse processo.

Por isso, determinados comportamentos que seriam imediatamente reconhecidos como graves por um adulto podem ser interpretados de outra maneira por um jovem inserido em um grupo que trata a violência como brincadeira ou entretenimento.

A busca por pertencimento pode ser um dos elementos explorados por essas comunidades on-line.

Na adolescência, fazer parte de um grupo e ser aceito pelos pares é uma necessidade importante. Segundo Fernanda, comunidades virtuais podem transformar essa busca em uma ferramenta de manipulação.

Em determinados grupos, a crueldade pode ser apresentada como uma forma de conquistar respeito. O jovem passa a reproduzir comportamentos cada vez mais extremos para ser aceito pelos demais.

A diretora do NOAD, Lisandrea Colabuono, afirma que esse processo também aparece nas investigações da Polícia Civil.

Segundo ela, tudo pode começar com discurso de ódio e consumo de violência extrema. Crianças e adolescentes, por sua vulnerabilidade, encontram nesses grupos uma sensação de pertencimento e podem se submeter a desafios para fazer parte daquela comunidade.

A policial afirma que a escalada costuma ser gradual. "Eles começam com conteúdos com violência disfarçada, tudo sutil, e depois escalam", explicou.

Para Lisandrea, a exposição reiterada a conteúdos extremistas pode dessensibilizar os jovens e normalizar a violência.

O crescimento apontado pelo NOAD não se resume à quantidade de casos. Segundo Lisandrea, os crimes virtuais envolvendo crianças e adolescentes também apresentam um nível maior de violência.