Pesquisador da classe C brasileira, Meirelles explica que campanha de Flávio pode ganhar ânimo agora. Para ele, transformar essa crise em uma cruzada é a 'forma mais eficiente para que o eleitorado bolsonarista consiga recuperar a força que a Michelle Bolsona…

Role, Da BBC News Brasil em São PauloPublished 10 setembro 2026Tempo de leitura: 12 minA crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF) escalou nos últimos dias com um vai e vem de determinações encerrado pelo presidente da Corte, Edson Fachin. Ele cancelou duas sessões do plenário — algo considerado muito raro — suspendeu as decisões dos ministros André Mendonça e Flávio Dino e retirou das mãos de Alexandre de Moraes o inquérito das fake news.

Quem está acompanhando as reviravoltas agora espera pela sessão da próxima terça-feira (15/9), quando os ministros começarão a discutir em plenário a grave crise que a Corte atravessa.

Entre as idas e vindas, ainda é cedo para saber qual o efeito dessa crise no rumo das eleições que se encaminham para a reta final. Mas, para Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva e do Data Favela, que estuda a classe média brasileira há mais de duas décadas, o Judiciário nas cordas traz um elemento importante que pode se refletir nas urnas.

"Lula não vai perder votos por causa disso. Mas isso dá um ânimo gigantesco ao eleitor bolsonarista que estava dando meio como certa a eleição do Lula", diz.

Outro ponto que ele destaca é o discurso religioso vinculado à crise. Na semana passada, depois que Moraes pediu que Mendonça fosse investigado por abuso de autoridade, Mendonça, que é pastor evangélico, publicou um vídeo em suas redes sociais. Na ocasião, o ministro agradecia as mensagens de "oração e carinho".

"Suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar", dizia.

Em seguida, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também foi às redes prestar solidariedade ao ministro, afirmando que Mendonça é "escolhido e ungido do Senhor".

"Saiba que a amada Igreja o ama! Saiba que existem homens, mulheres, jovens e até crianças que oram, choram e se alegram por você!", escreveu ela.

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Para Meirelles, as publicações apontam para um caminho.

"A crise do Supremo traz para a mesa um outro elemento, que pouca gente está prestando atenção, que é o Flávio Bolsonaro (PL) voltar a ter como cabo eleitoral a massa evangélica", diz.

Para ele, "transformar essa jornada do Supremo em uma cruzada é a forma mais eficiente para que o eleitorado bolsonarista consiga recuperar a força que a Michelle Bolsonaro tinha deixado em cima da mesa."

Nesta entrevista, realizada na quarta-feira (9/9), horas antes de Fachin tomar suas decisões e horas depois de Flávio Dino reverter o afastamento de Andrei Rodrigues da Polícia Federal, Meirelles analisou o cenário sob o ponto de vista do eleitor — especialmente da classe média.

Leia os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil - Como essa crise do Supremo está chegando ao eleitorado?

Renato Meirelles - Por mais que tenha tido uma grande repercussão na televisão e nos jornais, as pessoas estão sabendo de forma picada, primeiro por cortes nas redes sociais, tentando mostrar qual é a versão mais adequada a cada um dos lados.

Essa questão da crise do Judiciário, vai ganhar a narrativa quem chegar primeiro. E por isso está havendo um esforço tão grande das redes sociais para mostrar o lado da história.

Por que as pessoas associam Moraes ao Lula? Por oposição. Como Alexandre de Moraes foi a figura do Judiciário que liderou o processo de julgamento do 8 de janeiro de 2023, [o pensamento é] "se ele botou o Bolsonaro na cadeia, então é porque ele é amigo do Lula".

É uma associação. A gente sabe que não é necessariamente verdadeira, mas essa associação de oposição coloca o Moraes no colo do Lula.