Especialistas ouvidos pelo iG analisam efeitos sobre confiança institucional, polarização, campanhas e comportamento do eleitorado.

“Estou triste. Não apenas por causa do tema que nos traz aqui, mas porque este Supremo Tribunal Federal, guarda da nossa Constituição, provocou, acho, um mal-estar cívico em todos os cidadãos brasileiros nos últimos dias.”

A declaração da ministra Cármen Lúcia durante a sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) , na terça-feira (15), sintetizou o ambiente de tensão que tomou conta da Corte. Em outro momento, ela também afirmou estar “envergonhada” com a situação e disse que o Judiciário deveria tranquilizar a população, e não provocar intranquilidade.

O episódio ocorre a poucas semanas das eleições de 2026, quando o  embate entre ministros do STF passou a ocupar também o debate político. A crise envolve, entre outros pontos, as investigações relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mensagens encontradas no celular dele, o ministro Alexandre de Moraes e o relator do caso Banco Master , André Mendonça.

Para dois cientistas políticos ouvidos pelo iG, o episódio ultrapassou a disputa jurídica e passou a representar um problema de confiança nas instituições. Contudo, as avaliações divergem sobre a intensidade do impacto eleitoral e sobre a forma como partidos e candidatos podem explorar o desgaste.

A sessão de terça-feira analisou um relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas a Vorcaro e Moraes . O material inclui conversas que, segundo os investigadores, indicariam uma relação próxima entre o ex-banqueiro e o ministro.

Moraes nega irregularidades e questiona a forma como as informações foram utilizadas. A Procuradoria-Geral da República (PGR), por sua vez, pediu a anulação do relatório por considerar que houve irregularidades na sua produção.

A análise sobre a abertura de uma investigação contra Moraes foi interrompida depois que o ministro Flávio Dino pediu vista. Com isso, o julgamento não foi concluído. Ao mesmo tempo, existe uma discussão sobre a possibilidade de os casos envolvendo Moraes e Mendonça serem analisados conjuntamente.

Mendonça também está no centro da crise. O ministro determinou a retirada do sigilo de documentos relacionados às investigações do Banco Master e passou a ser alvo de questionamentos de outros integrantes da Corte. Moraes pediu a abertura de investigação contra Mendonça, enquanto Fachin marcou para 23 de setembro a análise do pedido.

A crise ganhou uma dimensão ainda mais eleitoral porque o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, também é investigado em um dos desdobramentos do caso.

Mendonça determinou a abertura de inquérito para investigar a participação de Flávio no financiamento do filme "Dark Horse", produção sobre Jair Bolsonaro. A investigação apura o repasse de R$ 61 milhões por Vorcaro e possíveis crimes relacionados à origem, circulação e destinação dos recursos. A PGR deu aval à abertura do inquérito.

Documentos divulgados pela PF também apontaram que Flávio negociou recursos com Vorcaro para o filme. O senador afirma que não há irregularidade na captação de recursos privados e já declarou que o dinheiro foi destinado à produção. A própria PF informou que ainda precisava esclarecer a origem, o trânsito, a destinação e os beneficiários finais dos valores.

Há ainda outro elemento político, já que André Mendonça chegou ao STF por indicação do então presidente Jair Bolsonaro, em 2021. A indicação foi submetida ao Senado e aprovada antes da nomeação.

Essa combinação do ministro Moraes associado ao embate com o bolsonarismo e Mendonça indicado por Bolsonaro e responsável por decisões no caso Master contribuiu para que a crise da Corte passasse a ser interpretada também pela lógica da polarização política.

A atuação de Alexandre de Moraes nos processos relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023 é um dos elementos que alimentam a disputa política em torno do ministro.

Entre apoiadores do bolsonarismo, Moraes, indicado por Michel Temer, há anos é alvo de críticas e acusações de abuso de poder. O ministro, por outro lado, tornou-se uma das principais autoridades responsáveis pelos processos relacionados à tentativa de ruptura institucional após a derrota de Jair Bolsonaro na eleição de 2022.

Agora, com as investigações envolvendo Vorcaro, críticas ao ministro passaram a aparecer novamente com força nas redes sociais. Levantamento feito pelo iG sobre as repercussões digitais após a sessão de terça-feira apontou que Moraes foi inicialmente o ministro mais criticado, embora o desgaste tenha se distribuído posteriormente para a própria Corte. 

É nesse ambiente que circulam publicações de eleitores dizendo que não votariam em Lula por causa da atuação de Moraes e que escolheriam Flávio Bolsonaro. Essas manifestações existem, mas não podem ser tratadas, isoladamente, como evidência de uma mudança ampla do eleitorado.

O candidato do PL, por sua vez, passou a utilizar a crise do STF em sua comunicação eleitoral. Em propaganda exibida na terça-feira, Flávio criticou Moraes e falou em “desequilíbrio institucional”, associando a situação do Supremo ao governo Lula.

Na avaliação de Lucas Zandona, mestre em ciência política e professor do Centro Universitário Estácio de Belo Horizonte, o problema é maior do que o STF.

Para ele, o episódio representa uma crise de confiança nas instituições brasileiras. Zandona afirma que parte da população passou a enxergar o Supremo de maneira diferente da função institucional prevista para a Corte.