Obra mistura lembranças pessoais com momentos cruciais da diplomacia global do século 21
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Sylvia Colombo Liberdade: Memórias 1954-2021
Autoria Angela Merkel Editora Planeta Tradução Petê Rissate
Na noite histórica de 9 de novembro de 1989, enquanto multidões marchavam em êxtase rumo às brechas abertas no Muro de Berlim, uma jovem pesquisadora de química quântica de 35 anos manteve rigorosamente inalterada sua rotina semanal: foi à sauna com uma amiga em Prenzlauer Berg, bairro na parte oriental da cidade até então dividida em duas.
Somente após o banho a vapor e uma cerveja despretensiosa, Angela Merkel deixou-se levar pela torrente humana que cruzava a passagem na rua Bornholmer para provar seu primeiro gole de liberdade no Ocidente —e voltou para casa antes da madrugada para não perder a hora no laboratório no dia seguinte.
A passagem, destacada pelo historiador britânico Timothy Garton Ash como uma das mais reveladoras de suas memórias, resume o método que moldaria os 16 anos de Merkel como primeira-ministra da Alemanha: uma combinação singular de cálculo científico, paciência de xadrez e recusa deliberada a qualquer arroubo de melodrama político.
Publicado no Brasil pela editora Planeta, "Liberdade: Memórias 1954–2021" (escrito a quatro mãos com sua assessora de longa data Beate Baumann) é um volume monumental de cerca de 700 páginas. Embora, por vezes, resvale na linguagem monocromática e excessivamente defensiva dos relatórios ministeriais, a obra ganha fôlego extraordinário quando abandona os tecnicismos e mergulha nos bastidores do poder global e nas engrenagens das relações diplomáticas.
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O segmento mais eletrizante e complexo do livro reside na anatomia da convivência de Merkel com Vladimir Putin.
A dinâmica entre Berlim e Moscou apoiava-se em uma rara e perigosa intimidade: Merkel dominava o russo desde a juventude na Alemanha comunista; Putin dominava o alemão desde seus tempos de espião da KGB em Dresden.
Essa ponte linguística direta permitia que ambos trocassem comentários cáusticos e piadas de bastidor sem a mediação de diplomatas ou intérpretes em reuniões de cúpula, ao mesmo tempo que travavam disputas psicológicas brutais.
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Merkel relembra ter superado o "teste da KGB" ao sustentar o olhar do líder russo sem vacilar. Também revisita o episódio de 2007 em Sochi, quando Putin levou seu enorme labrador preto para a sala de reuniões ciente do medo crônico que a primeira-ministra sentia de cães.
O contraste se aprofunda diante de outras figuras centrais do tabuleiro internacional. Enquanto Donald Trump é retratado como um líder puramente transacional, fascinado por métodos autoritários e totalmente avesso às instituições multilaterais, Barack Obama consolidou-se como seu aliado mais refinado, superando a desconfiança inicial que ela nutrira pela retórica inflamada do americano em sua famosa visita a Berlim.
Ao justificar opções altamente controversas de seu legado —como a aposta no gasoduto russo Nord Stream e o veto à entrada acelerada da Ucrânia na Otan em 2008—, Merkel oferece menos um mea-culpa e mais um testamento político sobre a arte da contenção e do compromisso.
"Liberdade" pode frustrar quem busca autocrítica, mas permanece como uma lição incontornável sobre como a racionalidade científica operou no topo do poder ocidental.

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