'O Dono e o Mal' usa sobrenatural como instrumento para entender o Brasil

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André Araujo Jornalista, professor e pesquisador

Preço R$ 79,90 (336 págs.); R$ 34,90 (ebook) Autoria Bruno Ribeiro Editora Alfaguara

Poucas coisas assombram mais o Brasil do que o espectro da propriedade. A terra, o sobrenome, a riqueza acumulada: aquilo que garante continuidade para alguns costuma produzir violência e exclusão para outros.

Em "O Dono e o Mal", Bruno Ribeiro transforma esse discernimento em um romance de fôlego raro na literatura brasileira contemporânea.

Ao acompanhar a trajetória da família Santos Assumpção ao longo de décadas, o autor constrói uma saga familiar, um romance histórico e uma narrativa de horror que têm como objeto comum a formação do Brasil.

A trama parte de um gesto simples de transmissão patrimonial. Após a gravidez acidental da adolescente Valéria, filha mais nova da família, de um garoto rico, os poderosos Lucena Neumann oferecem um antigo boteco como forma de resolver o escândalo. A propriedade se transforma no restaurante Recanto Feliz.

Mas o que parece uma negociação privada logo revela algo maior: em "O Dono e o Mal", quase toda herança carrega uma história de violência.

Batista, o patriarca dos Santos Assumpção, participa da construção da Transamazônica durante a ditadura, passa pelo presídio de Ilha Grande e é recrutado para atuar como matador a serviço do regime militar. Soledade, sua companheira, é entregue para trabalhar na casa de uma família rica e engravida do herdeiro. O filho dessa relação, Genival, cresce marcado pela exclusão.

Já Graciliano, filho de Batista, reproduz a violência do pai ao se tornar um poderoso traficante no Rio de Janeiro. Em todos os casos, o que está em jogo não é apenas o destino individual dos personagens, mas aquilo que recebem e transmitem, as forças históricas que muito os superam.

Ribeiro parece interessado em investigar como a violência atravessa gerações, muda de aparência e encontra novos hospedeiros, numa lógica de posse, mas também de possessão demoníaca.

O mal não aparece só como resultado de escolhas individuais, mas circula, é transmitido por cadeias muitas vezes imperceptíveis. Os ricos convertem violência em patrimônio; os pobres herdam apenas seus destroços.

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Talvez por isso o romance abandone os limites do realismo convencional. Fantasmas, demônios, maldições e possessões povoam a narrativa. É nessa chave que ganha força a figura do Inglês, presença demoníaca que assombra gerações da família.

Como o diabo de "O Mestre e a Margarida", de Mikhail Bulgakov, o Inglês percorre o romance como uma força persistente, capaz de reorganizar destinos individuais e coletivos muito depois de sua origem histórica.

O sobrenatural, assim, não funciona como ornamento fantástico, mas como instrumento de leitura da história brasileira para torná-la inteligível. A violência retratada por Ribeiro é tão profunda que o horror surge como uma linguagem capaz de representar aquilo que o realismo sozinho talvez não consiga explicar, desnaturalizando aquilo que tomamos como cotidiano.