Folha acompanha chegada de migrantes que buscam refúgio em uma travessia feita por redes suspeitas de extorsão
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27.jun.2026 às 23h00
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Vinicius Sassine Lalo de Almeida
Oiapoque (AP) e Santana (AP)
Num mesmo espaço —a orla do rio Oiapoque, que funciona como porto e como portal para o centro da cidade de mesmo nome—, diversos grupos se misturam em um movimento cadenciado, ora mais intenso, ora menos agitado.
Na rotina da cidade no extremo norte do Brasil, uma área de amazônia atlântica e de fronteira com a Guiana Francesa (o país está do outro lado do rio), estão imersos garimpeiros ilegais, pescadores que alcançam o alto-mar, franceses que passeiam pelo município, barqueiros (conhecidos como catraieiros), "picapeiros", taxistas e ambulantes.
Tudo e todos passam pelo porto; numa cidade de fronteira, não há silêncios ou tranquilidade.
Um novo fluxo de gente ganhou corpo no porto de Oiapoque (AP) nos últimos três anos, com pico em 2025, embora ainda passe despercebido por atrair redes criminosas de exploração, que operam a logística em zonas cinzentas e em agilidade, de forma a extorquir quem está nesse fluxo.
Migrantes cubanos passaram a buscar o Brasil como rota e como refúgio, e para isso passaram a encarar longas jornadas pela amazônia brasileira, da Guiana Francesa e do Suriname, numa travessia que inclui voos, vans, pequenas embarcações, carros com tração, barcos comerciais e ônibus.
Em 2025, pelo menos 8.400 cubanos entraram em Oiapoque. O número é referente a quem buscou o prédio da Polícia Federal na cidade para pedir refúgio no país. Não abarca jornadas feitas quase inteiramente na clandestinidade. Em 2026, até maio, foram 1.700 ingressos. Uma nova rota surgiu, por Guiana e Roraima, o que pulverizou os ingressos dos cubanos em território brasileiro.
A crise econômica e política de Cuba —a ilha se afunda em apagões, desabastecimento, perda do valor da renda e bloqueios, intensificados desde a nova ascensão de Donald Trump— gerou êxodos impensados para o Brasil, ao ponto de os pedidos de refúgio por cubanos terem superado os pedidos feitos por venezuelanos em 2025.
No ano passado, 41,9 mil cubanos pediram refúgio no Brasil. É quase o dobro das solicitações feitas por venezuelanos, 21,2 mil, conforme dados do Observatório das Migrações Internacionais, parceria entre UnB (Universidade de Brasília) e Ministério da Justiça. Em 2024, os pedidos de migrantes da ilha somaram 22,3 mil, uma quantidade inferior aos 27,1 mil pedidos de refúgio dos venezuelanos.
A Folha acompanhou a chegada de migrantes cubanos ao porto de Oiapoque, conversou com quem se dispôs a contar suas histórias —a despeito da correria da travessia e do monitoramento feito por operadores da logística, investigada pela PF em razão da extorsão praticada contra os cubanos— e acompanhou parte do caminho feito, até o porto de Santana (AP), cidade colada a Macapá.
As redes que exploram os cubanos na travessia são suspeitas de organização criminosa, contrabando de migrantes, extorsão, lavagem de dinheiro e câmbio ilegal, conforme um inquérito da PF no Amapá, que já fez buscas e apreensões autorizadas pela Justiça. Parte dos suspeitos brasileiros passou a ser monitorada por tornozeleira eletrônica.
A atuação desses grupos, formados em suas bases por "picapeiros" e catraieiros, prossegue, com extorsão nos preços cobrados da marmita à passagem de barco. Um relatório da PF já descreveu essas pessoas como "fantasmas", tamanha a discrição com que atuam. E isso é notado nos desembarques dos migrantes no porto.
O fluxo ocorre uma vez por semana, nas tardes de quintas-feiras e manhãs de sextas-feiras, em razão da existência de um voo semanal que conecta Havana a Paramaribo, capital do Suriname. Depois de um longo caminho por estradas do Suriname e da Guiana Francesa, os grupos chegam a Saint Georges de l’Oyapock, a vila visível na margem oposta do rio Oiapoque.
A travessia nas catraias, em poucos minutos, consolida a entrada dos cubanos em território brasileiro. Todos os operadores dessa logística, que envolve extorsão, tentam negar e ocultar a existência dos fluxos. Mas eles prosseguem. Num mesmo dia, cerca de 80 cubanos desembarcam no porto de Oiapoque.




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