A lista de desafios da liderança no novo mundo do trabalho vem aumentando ano após ano. Integrar gerações, gerar ambientes inclusivos, cuidar da saúde mental da equipe, construir grupos com segurança psicológica e apoiar o desenvolvimento das pessoas. Todos são necessários e fundamentais para formar times fortes. Mas não podemos transformar isso numa montanha de iniciativas de infantilização no trabalho. Matéria exclusiva para assinantes. Para ter acesso completo, acess

A lista de desafios da liderança no novo mundo do trabalho vem aumentando ano após ano. Integrar gerações, gerar ambientes inclusivos, cuidar da saúde mental da equipe, construir grupos com segurança psicológica e apoiar o desenvolvimento das pessoas. Todos são necessários e fundamentais para formar times fortes. Mas não podemos transformar isso numa montanha de iniciativas de infantilização no trabalho.

A tolerância à falta de compromisso, a desqualificação da importância do trabalho duro e a ideia da democratização de todas as decisões têm limite. Entre uma geração de “workaholics”, que só trabalhava, e uma geração do “quiet quitting”, leia-se “faça o mínimo”, precisamos encontrar o tom certo. Uma zona de equilíbrio entre modelos.

Empresas são projetos empresariais que surgem para dar resultado e crescer. Não são centros educacionais de pessoas descomprometidas, vestidas com um manto de modernidade.

Quando dar um feedback mais claro sobre a não entrega de resultados ou comportamentos é evitado sobre o argumento de desmotivar o time, e quando a meritocracia é vista como preconceito, passamos mensagens confusas sobre o foco de um negócio. Tobogãs, mesas de sinuca, paredes coloridas e coelhos no escritório não são sinônimos de satisfação.

O futuro pertence aos curiososQuando a reputação vira critério de avaliaçãoPare de esperar a liderança perfeita

A verdadeira satisfação vem do protagonismo indelegável de cada um. Ela é construída por quem faz o seu melhor para entregar resultados. A autorresponsabilidade é a qualidade mais poderosa de qualquer carreira vencedora. A curiosidade para explorar, a adaptabilidade para superar desafios e a disposição para aprender são características centrais do profissional contemporâneo. Nesse cenário, não há espaço para uma postura de vitimização em que a liderança e a organização estão sempre devendo. Quando o resultado chega, exige-se o justo reconhecimento. Quando não se entrega o combinado, logo se procura alguém para culpar.

Não podemos defender líderes jurássicos. Tiranos de plantão que sobrevivem amassando seus times. Não é mais possível conviver com excesso de comando e controle, que afasta os mais talentosos. Gestores egocêntricos, que colocam sua agenda pessoal acima do time e da organização, geram um caos que corrói a cultura.

Por outro lado, também não podemos tolerar lideranças “fofas” que postergam conversas difíceis, convivem por longos períodos com a falta de resultados e confundem liberdade com ausência de responsabilidade. O gestor que busca ser o mais querido pela equipe e não toma decisões difíceis é o líder que enfraquece a organização.

Isso não significa defender uma meritocracia ingênua, que ignora desigualdades, vieses ou pontos de partida. Mérito sem critérios claros pode virar preferência do chefe. Mas eliminar o mérito porque sua aplicação é imperfeita também é um erro. O caminho adulto é tornar expectativas transparentes, corrigir distorções e reconhecer de forma coerente quem contribui mais.

Uma empresa madura sustenta duas ideias ao mesmo tempo: cuidar das pessoas e exigir delas. Segurança psicológica não é imunidade à cobrança. É confiança para discordar, admitir erros e pedir ajuda sem medo de humilhação. Ela perde o sentido quando vira proteção contra qualquer desconforto. Aprender, receber feedback e assumir consequências faz parte da vida profissional.

Sem meritocracia, encontramos ineficiência e perda de engajamento dos que mais entregam. Onde só existe cobrança, teremos medo e rotatividade. O equilíbrio está na capacidade de sustentar a tensão entre cuidado e resultado, sem paternalismo e sem brutalidade.

É hora de dar um basta na creche e entrar no mundo dos adultos. É preciso escolher um manifesto claro para o novo mundo do trabalho: mais humanidade, sem infantilização; mais autonomia, com responsabilidade; mais acolhimento, sem abrir mão da entrega. Mesmo que seja polêmico.

Rafael Souto é sócio-fundador e CEO da Produtive Carreira e Conexões com o Mercado