Startupi Cultura não é entretenimento. É infraestrutura econômica Inovação não existe sem cultura. E os territórios que aprenderem a transformar identidade, criatividade e conhecimento em valor terão uma vantagem que tecnologia nenhuma consegue copiar. O pos…

Durante muito tempo tratamos cultura como aquilo que vinha depois dos assuntos considerados “sérios”. Primeiro economia, indústria, infraestrutura, tecnologia e emprego. Depois, se sobrasse orçamento, falávamos de música, audiovisual, patrimônio, gastronomia, moda, festas e artes.

Esse raciocínio envelheceu mal.

A indústria criativa brasileira movimentou R$ 393,3 bilhões em 2023, equivalentes a 3,59% do PIB nacional, segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025 da Firjan. Em escala mundial, as indústrias culturais e criativas representam cerca de 3,39% do PIB global e 3,55% dos empregos, segundo a UNESCO. E 93% dos países que reportaram informações à organização já reconhecem a cultura em seus planos nacionais de desenvolvimento sustentável.

Então talvez seja hora de inverter a pergunta: em vez de discutir quanto custa investir em cultura, deveríamos calcular quanto um território perde quando não consegue transformar sua cultura em desenvolvimento econômico.

E há uma questão ainda mais importante: inovação não existe sem cultura.

O Vale do Silício não se tornou referência mundial apenas porque concentrou universidades, investidores e empresas de tecnologia. Existe uma cultura de risco, experimentação, circulação de talentos e empreendedorismo sustentando aquele ecossistema. A tecnologia é visível; a cultura é a infraestrutura invisível que determina como aqueles atores se comportam.

Por isso, dentro do conceito de Omni Innovation que venho desenvolvendo, cultura não pode aparecer como um eixo periférico da inovação. Ela influencia como criamos, consumimos, colaboramos, empreendemos e nos relacionamos com um território.

Quando cultura vira indústria — e estratégia de país

A Coreia do Sul talvez seja um dos melhores exemplos contemporâneos dessa compreensão.

A chamada Hallyu, ou Onda Coreana, não nasceu simplesmente de uma decisão governamental. Empresas, artistas e transformações sociais tiveram papel decisivo. Mas o país soube reconhecer aquela potência e estruturar políticas de internacionalização, financiamento, propriedade intelectual e apoio à exportação de conteúdos.

O resultado nós conhecemos.

K-pop, cinema, séries, games, gastronomia, moda e cosméticos passaram a funcionar conjuntamente como produtos econômicos e instrumentos de soft power. BTS, Blackpink, Parasita ou Round 6 não venderam apenas música ou audiovisual.

A Coreia exportou desejo pela Coreia.

E existe uma lição enorme para o Brasil nesse movimento.

Não precisamos copiar a estratégia coreana. Precisamos entender o princípio por trás dela: cultura pode ser política industrial, estratégia de exportação, propriedade intelectual, marca territorial e instrumento de soberania.

Talvez estejamos vivendo uma das melhores janelas para isso.

Anitta consolidou uma presença internacional rara para uma artista pop brasileira. O funk atravessou fronteiras. Nossa música continua sendo uma das grandes assinaturas culturais do país. O audiovisual brasileiro voltou a ocupar posições relevantes no circuito internacional. Gastronomia, moda, design e estética brasileira também circulam cada vez mais pelas plataformas globais.

O Brasil não precisa fabricar uma narrativa artificial. A narrativa já existe.

O desafio é construir a arquitetura econômica para que ela gere valor aqui.

Quando uma artista brasileira conquista mercado internacional, deveria existir atrás dela uma cadeia preparada para avançar junto: produtores, compositores, bailarinos, designers, estilistas, audiovisual, tecnologia, turismo, marcas e pequenos negócios.