Área fica entre as comunidades da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio
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27.out.2026 às 23h01
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No alto da serra da Misericórdia, entre os complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, fica o local conhecido como Vacaria —oficialmente, a comunidade se chama Vila Marinha.
Ao lado de uma pedreira em atividade, que deixa o ar carregado de pó, a área de mata, currais e campo de futebol concentrou os confrontos da Operação Contenção, a ação policial mais letal da história do país: foram 122 mortos, sendo 117 civis e 5 policiais. Um ano depois, o lugar segue ocupado por homens armados. Ainda não há autoria e investigação concluída sobre as mortes.
A reportagem da Folha esteve na Vacaria acompanhando a retirada dos corpos da mata pelos moradores em outubro de 2025 e retornou neste mês.
Em poucos metros, o cenário muda. Junto à pedreira em atividade, o pó no ar e o sol forte sobre o chão pedregoso deixam a boca seca. Na mata, a vegetação densa guarda ar frio, névoa e muitos mosquitos.
"Aqui foi denominado como Vacaria porque existia muito bicho. Como vocês estão vendo aqui, o chiqueiro. Aqui existia muita vaca, muito porco", diz Erivelton Vidal, 49, nascido e criado na Penha.
Galinhas e cavalos andam soltos, em meio a motos que passam com jovens segurando fuzis. O sinal de celular é escasso. Segundo a investigação, o crime organizado usa o local de difícil acesso para os chamados tribunais do tráfico.
Casas pequenas, geminadas, ficam próximas. Quando a reportagem estava lá, presenciou moradores circulando com bebês, e crianças que brincavam descalças em um campo de futebol, que conta com uma área de churrasqueira e cobertura contra sol e chuva.
Moradores afirmam que a área foi feita por Edgar Alves, o Doca, apontado como chefe do tráfico local e liderança do Comando Vermelho. Lá são realizados churrascos de aniversários para a comunidade e distribuição de brinquedos em épocas festivas.
Presidente da associação de moradores, Erivelton conta que, na infância, o campo de futebol ficava mais acima, era o "campo do pó", de pó de pedra. Uma brincadeira comum era pular nos montes de areia acumulados pela pedreira e sair tingido o espaço de branco. Naquela época, diz, não havia casas, e o pessoal plantava na área.
O motorista Joy Batista de Mancio, 70, guarda a lembrança dessa Vacaria totalmente rural. "Eu lembro da gente pegando manga, aí atrás. Bebendo leite de vaca, não tinha quase casa por aqui". Ele é filho de dona Tereza, personagem que já morreu e que é lembrada como a "síndica da Vacaria", já que dava água para as crianças e cuidava do campo. Seu rosto foi eternizado em um grafite no local.
Com o tempo, o tráfico ocupou o lugar, e a favela cresceu em direção à mata. Segundo dados da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara Municipal do Rio, a área da Vila Marinha passou de 62.475 para 74.271 metros quadrados entre 1999 e 2022.
Em 2012, a prefeitura e a Caixa Econômica Federal anunciaram o parque da Leopoldina, com equipamentos de lazer e educação ambiental em trecho da serra, mas o projeto não saiu do papel, e os recursos foram devolvidos.
O advogado Gilberto Santiago jogava bola ali na infância, nos anos 1990 e meados dos anos 2000. Com o tráfico já presente no local, a mãe proibia, mas ele ia escondido.
"O local em que eu jogava futebol sempre foi um ponto de venda de drogas. E ocorria de o nosso futebol, o nosso lazer, ser interrompido com o tiro de fuzil. Era comum também ver um homem morrendo, agonizando. Era algum morto pelo tráfico", disse.




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