Por Leonardo Sakamoto, no Uol “O Congresso não presta!” Os brasileiros têm boas razões para acreditar nisso, dada a percepção de que muitos parlamentares legislam para seus interesses particulares ou vendem o mandato para lobistas — e o povo que se exploda. M…
Por Leonardo Sakamoto, no Uol
Não estou aqui ignorando o poder econômico dos envolvidos, os bilhões em emendas parlamentares, as propagandas mentirosas, a pressão de patrões que tratam seus empregados como curral eleitoral. Mas isso faz parte da análise do que leva alguém a escolher o voto. Estou aqui abrindo o alçapão que fica no fundo desse poço.
A escolha do parlamentar que representa, em tese, os interesses de uma fatia da população vem sendo tão irrelevante que a pessoa nem se lembra do nome que deveria cobrar. O voto, em vez de discutido e refletido, é escolhido, não raro, horas antes da votação, no zap enviado pelo amigo que sugeriu o primo do compadre, no santinho que é apanhado no chão da zona eleitoral. Não se entende a importância do Congresso, e isso cobra um preço em qualidade de vida.
Pesquisa Datafolha reforça essa percepção, apontando que 67% dos eleitores não se lembram em quem votaram para a Câmara dos Deputados e 66%, para o Senado Federal, em 2022.
Pior: 36% disseram não se lembrar de nenhum nome de deputado federal, e outros 32% afirmaram não saber. Dos 513, apenas seis foram lembrados, sendo os dois primeiros Nikolas Ferreira (PL-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP), exatamente os nomes que estão na linha de frente da disputa ideológica de seus campos nas redes.
A falta de fiscalização dos eleitores facilita a vida do grupo de parlamentares que se elegem com promessas de leite e mel, mas dedicam os seus mandatos a legislar em causa própria ou a ganhar dinheiro. E, dessa forma, lembram da existência do eleitor apenas a cada quatro ou oito anos.
Esse ciclo perverso se retroalimenta com precisão mecânica: o parlamentar medíocre prospera exatamente porque sabe que não será cobrado, e não será cobrado exatamente porque a população, sobrecarregada ou indiferente, já esqueceu o nome que assinou no cheque em branco.
Enquanto a indignação se acumula nas redes sociais a cada escândalo, o mandato segue seu curso sem maiores perturbações, porque fiscalizar dá trabalho, exige tempo e atenção, e é muito mais fácil lamentar o estado do Congresso do que lembrar o número do deputado que se elegeu prometendo mundos e fundos.
O parlamentar ruim é, em parte, produto de um eleitor ausente. E o eleitor ausente, por sua vez, é corresponsável pelo Congresso que diz odiar. A culpa também é nossa.




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