Diversos candidatos escolhem concorrer as eleições proporcionais com nomes "alternativos" - Marcelo Camargo/Agência Brasil Após o registro de candidaturas para concorrerem às eleições a deputado estadual e deputado federal, alguns nomes postos ao eleitorado pernambucano chamam a atenção por fugirem do tradicional “nome e sobrenome”. As opções variam e vão desde apelidos e trocadilhos até a utilização de ocupações profissionais, títulos religiosos e lugares acompanhados dos nomes.

Entre alguns candidatos que concorrem por vagas na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) e seguem por uma linha “alternativa” de nome estão Adriana Vigilante (Novo), Bhio de Dois leões (Psol/Rede), Caio Marx (PSTU), Dayse Enfermeira (Mobiliza), Flávio Iapoi (Federação União Progressista), Galo Cego (PSD), Irmão Moisés Popeye (PL), Já Morreu (PSB) e Taxista Samuray (PDT).

Já na disputa para chegar à Câmara Federal, em Brasília, conta com nomes como Ana da Ótica (PL), Becinha (PSB), Bel de Nen de Coque (Federação União Progressista), Carneirinho Defensor dos Motor (DC), Gera do Posto (Avante), Patrícia Viúva (PSDB/Cidadania), Saulo Sem Filtro (Novo) e Titio (PRD/Solidariedade). 

Aproximação O fenômeno de apostar em nomes “alternativos” por parte de alguns candidatos é bastante comum nos sistemas proporcionais - usados para eleger deputados federais, estaduais, distritais e vereadores. Para a cientista política Priscila Lapa, a estratégia funciona como uma tentativa de aproximação com o eleitorado.

“Em todos os ciclos eleitorais a gente observa esse fenômeno de trazer nomes engraçados para as campanhas proporcionais. Acho que funciona como uma forma de trazer um pouco de proximidade, de fazer com que as pessoas despertem a curiosidade para entender o nome, o apelido e, de certa forma, se diferenciar dentro de tantas opções que o eleitor tem para fazer a sua escolha”, explicou.

Priscila ainda acrescenta que o fenômeno já se tornou parte da cultura política do Brasil e que pode ser relacionado com a forma “menos séria” que os brasileiros costumam tratar muitos temas no país.

“Isso já faz parte da nossa cultura política de, em alguma medida, tratar o tema da política também como parte desse jeito do Brasil de tornar as coisas mais festivas, mais alegres, mais emotivas e talvez menos racionais”, pontua.

Segmento Algo que chama atenção na disputa proporcional é o alto número de candidatos que optam por adotar a profissão no nome da candidatura. Os doutores encabeçam a lista com 35 postulantes, seguidos pelos professores, que aparecem com 25 aspirantes. Também constam nos registros profissionais das áreas da segurança pública, como delegados ou seguranças. 

“Quando você coloca o cargo, você gera um elemento de identificação, mas por uma outra linha. A gente tem que lembrar que as eleições proporcionais têm como pilar a representação política. Quem trabalha com saúde, segurança pública, por exemplo, também leva essa questão de pautas dos profissionais dessas áreas”, explica Priscila.

Termos religiosos, especialmente ligados à religião protestante, como “pastores”, “irmãos” e “missionários” também foram estratégias adotadas por muitos candidatos. Para Priscila, a escolha reflete em uma tendência de muitos eleitores votarem por identificação religiosa nas últimas eleições. 

“Cada vez mais a gente tem visto vários ‘cases’ importantes de como é essa relação entre o voto e a identificação religiosa e a fé. Então, quando você traz isso para o nome do candidato, você confere a ele uma autoridade sobre aquele conjunto de eleitores, de ser uma liderança ou ser alguém que é fortemente identificado com o segmento”, afirma.

Alerta Apesar da estratégia ser comum no Brasil, Priscila Lapa alerta que o lado “cômico” das escolha de nomes pode reforçar a descredibilidade da política para a população. 

“Por mais que haja essa quebra de barreiras, essa identificação, também faz parte da nossa cultura política a falta de credibilidade da classe política perante a população. Quando você traz para esse tom de brincadeira, de alguma forma, confirma, dentro do imaginário popular, que política no Brasil não é levada a sério”, comenta. 

A especialista ainda explica que a escolha de eleitores de votarem em candidatos somente pela “piada” ou como forma de protesto pode aumentar o afastamento da população com o Poder Legislativo.

“A partir do momento que há um descomprometimento com esse voto para o legislativo, esse voto proporcional, você gera um distanciamento ainda maior das pessoas sobre a condução da agenda política no país, porque a eleição vai muito além do voto”, inicia.

“Então, quando eu dou meu voto no sentido de protesto, jocoso, de brincadeira, eu estou tirando o peso dessa responsabilidade que é fazer esse acompanhamento pós-votação. O voto é um direito, mas também é um dever. Esse dever cidadão de construir a representação política que seja boa para o país, para a cidade ou para o estado”, finaliza.