A França sempre se antecipou no pensamento político, na ruptura e na instauração de novas fórmulas e formas de regime: pensou e institucionalizou a monarqu...

Politólogo e escritor

CopiedSiga-nosA França sempre se antecipou no pensamento político, na ruptura e na instauração de novas fórmulas e formas de regime: pensou e institucionalizou a monarquia absoluta, entre Bossuet e Luís XIV, e pensou e decapitou o Ancien Régime, entre os Ilustrados e Robespierre. A partir daí, foi sendo sempre pioneira – no bonapartismo, na restauração, na monarquia constitucional, na república radical de 1848, na Comuna de Paris, no nacionalismo popular e identitário pré-fascista, no tradicionalismo autoritário maurrasiano.

De Maio de 68 a sábado 17 de Outubro de 2026, esse vanguardismo manteve-se, com uma radicalidade à esquerda e à direita que também o singulariza. A semana passada, no sábado, 24, o governo do macronismo – um centrão ora mais à esquerda, ora mais à direita – mobilizou preventivamente cerca de 70.000 polícias, guardas republicanos e guardas municipais para enfrentar e controlar a violência da ultra-esquerda (aqui também designada por interessado lapso por “ultra-direita”) e evitar os desmandos do sábado anterior. Desmandos que se repetiram em Marselha e, ao fim do dia, em Paris.

Também em Orleães, onde o Rassemblement National realizava o seu Congresso, a esquerda radical, arrastando a esquerda tout court, uniu-se para protestar contra o fascismo e salvar a democracia, aparentemente ameaçada pelo partido mais votado de França. Entre os cerca de 8500 congressistas e os “democratas” (11.000 para as autoridades, 26.000 segundo os próprios), entrepôs-se um corpo policial de 3000 homens. A distância e a prevenção impediram o choque.

A democraticidade destes democratas que se mobilizam contra a divergência à direita não é nova. A minha geração conheceu e viveu este mesmo espírito democrático nos anos 1960, quando os chamados “associativos” dominavam as faculdades e policiavam as greves, agredindo os alunos que queriam ir às aulas.

Lembro-me de quando, na Cantina da Cidade Universitária, atiraram um estudante direitista da mezanine abaixo, uns quatro ou cinco metros. Ficou em mau estado para o resto da vida. E quando a esquerda teve o poder no PREC português, também avançou com um sistema proibitivo, mandando prender, como suspeitos, os militantes de direita depois do 28 de Setembro ou invadindo o Congresso do CDS, no Porto, em Janeiro de 1975.

Em Orleães, ficou mais uma vez comprovado o histórico amor da esquerda pela tolerância, pela inclusividade e pelas regras da democracia liberal: um amor acrisolado e devoto, constantemente reafirmado, desde o Terror robespierriano, nas várias pátrias do socialismo real - embora o merecido troféu de regime mais assassino da História atribuído ao comunismo pela realidade dos factos nunca se exponha.

Em França, há muito quem, na comunicação social, responsabilize a polícia pela violência a que os “democratas” se veem obrigados: aparentemente, a violência policial é a grande causadora da violência reactiva dos manifestantes (ainda que só a justa cólera dos cidadãos pelo estado a que as coisas chegaram já bastasse para justificar a violência “do povo” e desculpar o saque de lojas e armazéns e a agressão a polícias).

Do mesmo modo, parece que é também o “perigo de uma guerra civil”, ditado por uma eventual vitória de Marine Le Pen nas urnas, que obriga os comissários do povo a promoverem “assembleias populares” contra o Rassemblement. Não podendo combater “a oposição” nas urnas, há que preparar o povo e a rua para a guerra sem quartel - em caso de uma vitória eleitoral indesejada.

E estes mestres franceses vão tendo discípulos por cá.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia