A decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), de negar o pedido de buscas da Polícia Federal (PF) contra ACM Neto (União Brasil), candidato a governador da Bahia, irritou membros do Partido dos Trabalhadores (PT). As cúpulas r…

A decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), de negar o pedido de buscas da Polícia Federal (PF) contra ACM Neto (União Brasil), candidato a governador da Bahia, irritou membros do Partido dos Trabalhadores (PT). As cúpulas regional e nacional viram na medida uma "proteção" ao ex-prefeito de Salvador, em meio à 10ª fase da Operação Overclean, deflagrada nesta quinta-feira (17).

ACM é o principal adversário do governador Jerônimo Rodrigues (PT), candidato à reeleição. Para petistas, a decisão de Marques aparece como uma vantagem ao adversário, a menos de 20 dias da eleição, dado que a possível ligação do ex-prefeito com o escândalo é uma das principais armas eleitorais da situação, que busca o sexto mandato consecutivo no Palácio de Ondina.

A Operação Overclean, da qual Nunes Marques é relator no STF, começou apurando esquemas de fraudes em contratos de coleta de lixo e outros serviços e desvios de emendas parlamentares na Bahia, e avançou para outras áreas em diferentes Estados do país. "Parece que Marques protegeu ACM Neto. Óbvio que quem tem condições de avaliar os indícios é a PF", afirma ao Valor o deputado Afonso Florence (PT-BA).

"Marques, indicado por [ex-presidente Jair] Bolsonaro, não deveria obstruir investigação de um suspeito pela PF", continua Florence. "Ainda mais sendo o suspeito um aliado de Bolsonaro. A investigação tem que prosseguir, as evidências são muito robustas."

Na frente deflagrada hoje, a PF investiga direcionamento de procedimentos licitatórios para compras de materiais didáticos em Belo Horizonte (MG) na época em que a secretaria municipal era comandada por um nome que teve o aval de ACM Neto. A PF suspeita que o grupo que atuava com Marcos Moura na Bahia teria replicado esquemas de fraudes em diferentes prefeituras pelo país.

Partidários de Jerônimo reclamam ainda que há uma seletividade por parte dos ministros do STF nos casos envolvendo escândalos da Bahia. Eles lembram que, em junho deste ano, foram vazadas e liberadas diversas informações sobre a investigação contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), então líder do governo no Senado, que está em segundo lugar nas pesquisas pela Casa, atrás apenas do também petista Rui Costa. No caso do senador, ligado ao Banco Master, o processo tem a relatoria de André Mendonça.

Eles fazem crítica semelhante à feita publicamente por partidários em relação à eleição nacional. Na disputa ao Planalto, petistas e o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, têm acusado Mendonça de "vazamento seletivo", em prol de privilegiar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Como o processo corre em sigilo, o Valor não teve acesso à justifica de Marques para negar o pedido da PF. A reportagem procurou o ministro por meio da assessoria do STF, mas não teve retorno até o fechamento. Em caso de resposta, a matéria será atualizada.

Ao Valor, ACM Neto negou irregularidades de sua parte e citou tentativa de "interferência no processo eleitoral" através de vazamentos seletivos e a divulgação do que chamou de "factoides e insinuações mentirosas".