Startupi Depois de passagens por edtechs e inteligência artificial na educação, Caio Paiola assume conselho de ONG voltada à dislexia Executivo direciona experiência em tecnologia e gestão para frentes de identificação precoce de neurodivergências e novos p…

O executivo e empreendedor Caio Paiola assumiu uma posição no conselho administrativo da Domlexia, organização brasileira voltada ao apoio de crianças com dislexia e outras neurodivergências. O anúncio marca uma nova fase profissional do profissional de 34 anos, que atuará na aplicação de soluções de inteligência artificial voltadas a apoiar escolas e professores na identificação precoce de sinais de dificuldades de aprendizagem nos primeiros anos escolares. A movimentação ocorre após o encerramento das atividades do Pinball Space, empreendimento fundado por Paiola em Florianópolis em 2023.

Em 2017, o executivo tornou-se sócio e CTO da Studos Software, edtech de aprendizado adaptativo que implementou recursos de IA e reconhecimento de imagens para correção de avaliações. Conforme dados da empresa, a plataforma atingiu mais de 130 mil alunos em 500 escolas antes de ser adquirida em 2020 pela Arco Educação, grupo listado na Nasdaq. Após a aquisição, Paiola assumiu a liderança da divisão ArcoTech, gerenciando infraestrutura de sistemas para mais de 1,2 milhão de estudantes, e posteriormente participou do desenvolvimento da plataforma de pagamentos ArcoPay.

Com a entrada no conselho da Domlexia, o executivo passa a focar no desenvolvimento de ferramentas tecnológicas voltadas ao diagnóstico e suporte pedagógico. “Eu acho que o que mais aprendi ali foi que não dá para fazer tudo sozinho. Posso fazer tudo, mas, sem pessoas boas o suficiente ao meu lado, não vou a lugar nenhum”, declarou Paiola sobre a evolução de sua gestão. Sobre a filosofia aplicada aos seus empreendimentos e projetos, o executivo acrescenta que “o dinheiro deve ser consequência do valor que você gera para as pessoas. Quando há paixão no que você faz e um impacto real na vida delas, o retorno financeiro surge naturalmente”.

Para saber mais sobre os projetos, a GZM e o Startupi se uniram para entrevistar o executivo, confira abaixo:

GZM/Startupi: Explique como surgiu a ideia de utilizar sua bagagem em edtechs e inteligência artificial na prática para ajudar professores a identificar sinais de dislexia e neurodivergências nos primeiros anos escolares?

Caio Paiola: A escola já produz um volume enorme de informação, padrões de erro, evolução entre avaliações, tempo de resposta e quase nada disso recebe a devida atenção. Vi isso de perto na Studos, onde a plataforma acompanhava mais de 130 mil alunos: o sinal está lá, o que falta é alguém lendo. Nos primeiros anos escolares esse sinal é especialmente valioso, porque é quando uma intervenção pode mudar o resultado de uma vida inteira. A ideia é usar a inteligência artificial nesse momento para coletar e compilar tudo isso de forma simples, entregando ao professor o que ele precisa para agir. Isso pode ser um grande salto na vida de muitas crianças.

GZM/Startupi:: De que forma o conselho da Domlexia pretende estruturar a governança para garantir que o uso de algoritmos de IA no diagnóstico precoce mantenha a ética, a precisão e a sensibilidade humana no ambiente pedagógico?

Caio Paiola: Vale destacar que o sistema não faz o diagnóstico. Diagnóstico é um ato clínico, multidisciplinar, e vai continuar sendo. O que queremos é trazer a tecnologia para a triagem: ajudar o professor a identificar comportamentos que antes passavam despercebidos e sinalizar os casos que merecem um olhar especial. Essa celeridade faz diferença justamente nos primeiros anos do ensino, e é esse o impacto que queremos gerar.

A IA é uma ferramenta para apoiar os profissionais, não para substituí-los. Ela traz clareza para o professor dar encaminhamento a casos que antes não eram percebidos, ativando ao longo do caminho os responsáveis e os especialistas, psicopedagogos e neuropsicólogos que conduzem a avaliação de fato.

GZM/Startupi:: O Pinball Space encerrou as atividades no topo das avaliações e sem problemas financeiros. Como foi o processo de tomada de decisão pessoal para fechar um negócio de sucesso em prol de novos ciclos?

Caio Paiola: O Pinball Space fechou saudável, no topo das avaliações, e isso foi uma escolha, não uma consequência. Foi um dos processos mais difíceis que já vivi, porque fechar um negócio que dá certo contraria todo instinto.

O que pesou foi a natureza do negócio. Operação física de entretenimento é um negócio de presença. O acervo era de máquinas raras, a manutenção era especializada, a experiência do cliente dependia de curadoria diária. Não era um negócio que sobrevivia à ausência do dono, e eu não queria entregar ao mercado uma versão pior daquilo que a gente tinha construído. Preferi encerrar no ponto mais alto.

Depois do nascimento da minha primeira filha, as prioridades mudaram, o futuro abriu novas opções e essa decisão se tornou necessária onde tive que organizar todo meu tempo disponível e priorizar.

GZM/Startupi:: Quais foram os principais aprendizados estratégicos no comando de uma operação física de entretenimento que você pretende carregar para o ecossistema de tecnologia e impacto social?

Caio Paiola: Levo três aprendizados principais.

O primeiro é o feedback imediato. Em software você lê métrica; no bar você vê a cara da pessoa. Não tem dashboard que substitua ver alguém desistindo de uma máquina porque a fila está grande ou a moeda travou. Isso reeducou meu senso de urgência sobre fricção de produto e sobre os problemas do dia a dia.

O segundo é que o produto é a experiência inteira, não a funcionalidade. Ninguém ia ao Pinball Space pelas máquinas. Eles iam pela música, pelo cardápio, pelo atendimento, pela sensação de entrar em outra década. Nenhum desses elementos, sozinho, explicava a nota 5.0. Em tecnologia a gente tende a otimizar a feature e esquecer o contexto em volta dela. A feature não é o centro; é uma parte da experiência completa.

O terceiro é disciplina de unidade econômica. Bar não tem rodada de investimento: ou o caixa fecha no fim do mês ou não existe mês seguinte. Isso me tornou muito mais rigoroso com custo por usuário, margem e sustentabilidade real de um modelo e é justamente o que mais falta em projetos de impacto social, que muitas vezes têm a tese certa e o modelo econômico errado.

GZM/Startupi:: Na Studos, você viveu a jornada completa de tração até a aquisição pela Arco Educação. Quais foram os maiores desafios técnicos e de produto para escalar a plataforma até 130 mil alunos e concretizar o M&A?

Caio Paiola: O maior desafio técnico não era volume médio, era os picos. Educação é sazonal de forma brutal: em dia de simulado, milhares de alunos entram na mesma janela de minutos. É como ter uma Black Friday de carga a cada simulado. A arquitetura precisava aguentar o pior dia do ano, não a média.