No piloto automático, a depressão funcional atropela os dias daqueles que tentam dar conta de tudo, mas que esbarram em um sofrimento silencioso e interno

capa - (crédito: kleber sales) Acordar cedo, ir para o trabalho, depois à academia e ainda manter as redes sociais atualizadas. A rotina que estampa o manual do sucesso contemporâneo muitas vezes esconde uma realidade preocupante: o adoecimento mental mascarado pela eficiência. Mais do que isso, a vida de muitos regida no piloto automático. Não há prazer, tampouco alegria. São os dias passando em um enorme atropelo. Conhecida como depressão funcional, essa condição descreve indivíduos que, mesmo diagnosticados com sofrimento psíquico severo, continuam cumprindo obrigações sociais e profissionais. 

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Esse fenômeno mais recente desafia o estereótipo clássico da depressão, que vira e mexe está sempre associado a um tipo de tristeza que mal permite levantar da cama. Além disso, faz uma pergunta importante sobre o tema: qual o limite de uma cultura que glamouriza o esgotamento? E embora não conste como um diagnóstico formal no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), a expressão ganhou força nos consultórios para categorizar quem opera no chamado modo automático. 

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"Na prática clínica, observamos pacientes que mantêm uma rotina de alta performance enquanto vivem um sofrimento silencioso, muitas vezes marcado por vazio emocional, exaustão e desconexão afetiva", explica Juliana Gebrim, psicóloga clínica e neuropsicóloga pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal (IPAF). Segundo a especialista, a dinâmica se torna um estado de sobrevivência psíquica. "Diferentemente da imagem clássica da depressão, aqui o sofrimento fica mascarado pela funcionalidade", aponta.

O termo "depressão funcional", vem sendo usado para descrever pessoas que continuam funcionando social e profissionalmente, mesmo vivendo sintomas depressivos importantes. E isso quebra, na visão de Juliana, um imaginário muito comum sobre a depressão, já que muitos acreditam que alguém deprimido necessariamente não consegue manter compromissos. "Mas, na prática clínica, existem pacientes que continuam produzindo, entregando resultados, cuidando da família e mantendo uma aparência de normalidade enquanto estão emocionalmente adoecidos."

De certa forma, a funcionalidade não elimina o sofrimento psíquico. Muito pelo contrário, pois apesar de muitos sintomas serem invisíveis, isso não significa que eles não estejam lá. Os sinais costumam ser sutis no início. Irritabilidade constante, perda de prazer nas atividades, sensação de vazio, dificuldade de concentração, lapsos de memória, alterações no sono, cansaço persistente e sensação de estar vivendo por viver, sem nenhum propósito aparente. De acordo com Juliana, o paciente relata que consegue cumprir tarefas, mas perdeu a capacidade de sentir satisfação genuína. É como se o cérebro permanecesse em estado de alerta contínuo, sem conseguir realmente descansar.

Para a psicóloga, existe um perfil mais vulnerável a desenvolver a depressão funcional. São pessoas exigentes consigo mesmas, perfeccionistas, com alto senso de responsabilidade e dificuldade de reconhecer os próprios limites. "Profissionais submetidos à pressão constante, que associam valor pessoal à produtividade e indivíduos acostumados a sustentar emocionalmente outras pessoas tendem a desenvolver esse padrão. Vejo isso com frequência em concurseiros, executivos, profissionais da saúde e mulheres sobrecarregadas. Muitas desses aprenderam ao longo da vida que demonstrar cansaço é sinal de fraqueza", completa a profissional.

E assim, mesmo diante de tanto esgotamento emocional, esses indivíduos continuam "funcionando". A diretora de marketing Helena Silva (nome fictício), 38 anos, é um dos casos que ilustra esse cenário. Por trás do disfarce da alta produtividade, ela lida com um cansaço que o sono não restaura. Mais do que isso, enxerga, agora, que o trabalho virou uma barreira mecânica para evitar o fracasso.

Mesmo sofrendo internamente, mantém as aparência porque acredita que esse 'modus operandi' é quase um escudo. "Acordo todos os dias com uma sensação de vazio profundo. Contudo, ainda assim, sinto que se parar, temo que esse abismo me engula por completo. As pessoas sempre acham que estou focada, mas na verdade estou exausta. E para piorar, quando saio do trabalho, preciso ser mãe e deixar a casa organizada. Não é fácil, mas a gente faz o que pode", ressalta Helena.

Na visão de Juliana, muitas dessas pessoas acreditam que só para pensar em parar quando tudo estiver resolvido. Ou, também, à medida em que alcançam as metas que elas mesmas estabelecem. Profissão, amor, família e atividade física. Não é mais sobre conseguir, mas sobre mostrar que conseguiu." O problema é que esse depois nunca chega", complementa a especialista. 

Dicas para ajudar alguém com depressão funcional 

1) Esteja atento a mudanças, mesmo discretas, no comportamento, ainda que a pessoa continue cumprindo sua rotina normalmente;

2) Pergunte como ela realmente está e demonstre interesse na resposta;

3) Escute sem julgamentos, sem interromper ou tentar minimizar o sofrimento;

4) Evite frases como “isso é falta de força de vontade”, “vai passar” ou “você precisa reagir”;

5) Valide os sentimentos da pessoa, mostrando que o sofrimento dela é real e merece atenção;

6) Ofereça ajuda prática, como acompanhá-lá em consultas, ajudá-la em tarefas ou simplesmente estar presente;

7) Incentive a busca por ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra, respeitando o tempo e a autonomia da pessoa. O apoio de amigos e familiares é importante, mas não substitui o tratamento médico;

8) Mantenha contato com frequência, mesmo que ela se isole ou responda pouco. Convide-a para caminhar, praticar algum esporte ou para um passeio ao ar livre;