Deputados recordistas de votos construíram sua popularidade nas plataformas digitais

Com mais de 3 milhões de votos recebidos no último domingo (04/10), Nikolas Ferreira (PL-MG) se tornou o deputado federal mais votado da história do Brasil. Lucas Pavanato (PL-SP) ficou logo atrás, com votação também acima dos 3 milhões.

Os dois construíram uma base fiel de seguidores — e de eleitores — através das redes sociais. Em vídeos publicados em seus perfis, dialogam com um público conservador falando de pautas como segurança pública e defendendo o que chamam de "família tradicional", além de posicionarem veementemente contra os direitos de pessoas trans e as cotas raciais.

O fenômeno se estende também a deputados alinhados à esquerda. Erika Hilton (PSOL-SP), reeleita para a Câmara com mais de 1,5 milhão de votos, e Ana Elisa (PT-MG), escolhida para o primeiro mandato por mais de 500 mil eleitores, também têm uma presença forte nas redes.

"A rede social foi tratada como demérito várias vezes", disse Ana Elisa em um vídeo publicado em seu perfil no Instagram na segunda-feira (05/10). Com o sucesso nas urnas, a jovem de 21 anos foi chamada para participar da estratégia digital da campanha de Lula para o segundo turno. "Não existe mais separação entre redes e ruas. Quem está nas ruas está nas redes. A discussão está aqui. A vida está sendo pautada na tela do telefone", afirma.

"É uma consolidação de algo que a gente vem observando pelo menos desde 2016, talvez até um pouco antes", afirma a diretora de pesquisa e operações do InternetLab, Heloisa Massaro. "Houve uma mudança significativa na forma de fazer campanhas, na forma como as pessoas consomem informação política, onde vão procurar sobre os candidatos."

A centralidade das redes sociais é predominante especialmente entre o público jovem. Em 2026, a pesquisa Digital News Report, do Instituto Reuters, mostrou que as redes sociais são a principal fonte de notícias de 39% dos jovens de 18 a 24 anos.

"As redes sociais aparecem como esse lugar onde as pessoas sentem que conseguem construir seu próprio ecossistema de informação e conteúdo e encontrar informações plurais e diferentes", diz Massaro.

O fenômeno não é exclusivo do Brasil. Para a pesquisadora Emma Connolly, da Universidade de Ottawa, dinâmicas semelhantes podem ser observadas em diversos países. "Os políticos não são apenas bons políticos. Eles também são usuários habilidosos das redes sociais, ou pelo menos contam com uma equipe de mídia social competente por trás deles."

A tendência vem se construindo há mais de uma década, mas Heloisa Massaro cita a primeira eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, em 2016, como um ponto de virada. A campanha pelo Brexit, no Reino Unido, em 2018, também movimentou as redes. No mesmo ano, Jair Bolsonaro conseguiu se eleger presidente do Brasil mesmo tendo pouco tempo de TV e rádio no horário eleitoral gratuito durante o primeiro turno.

Como exemplos internacionais dos últimos anos, Connolly cita o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o atual primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham.

Ao mesmo tempo, as plataformas digitais também mudaram. Se, em 2012, a campanha de reeleição de Barack Obama se destacou pelo uso do Facebook para mobilizar eleitores, hoje políticos disputam atenção principalmente em plataformas de vídeos curtos, competindo não apenas com adversários, mas também com influenciadores, entretenimento e uma infinidade de outros conteúdos.

"A divisão entre influenciador e político vai ficando cada vez menos clara", explica Massaro.

Nesse ambiente, argumenta Connolly, não basta ter uma mensagem política clara. É preciso adaptá-la ao público-alvo e aos formatos e linguagens de cada plataforma, independente do espectro politico do candidato.

Além disso, a pesquisadora Heloisa Massaro destaca que os atores políticos constroem sua imagem e sua base de seguidores nas redes ao longo de anos, e não apenas nos meses de campanha oficial.

E o sucesso online depende da capacidade de construir relações com o público. "O público quer cada vez mais sentir que existe uma relação direta com os políticos. E acho que é por isso que as redes sociais têm funcionado de forma especialmente eficaz em movimentos populistas, por exemplo", afirma Connolly. Para a pesquisadora, as redes ajudam a reduzir a distância entre representantes e público, criando a percepção de uma relação mais próxima e pessoal.

"Os atores políticos têm um trabalho realmente difícil. Eles precisam aparecer nas redes sociais de uma forma que seja considerada autêntica, o que não é fácil", acrescenta ela.

Massaro cita uma pesquisa realizada pelo InternetLab sobre a relação de jovens com influenciadores: "Tem muito uma camada de olhar para esses influenciadores como 'gente como a gente'. Gente que veio de onde a gente veio". Tradicionalmente, os políticos, assim como as celebridades, estariam num lugar mais distante. A figura do político influenciador consegue explorar essa sensação de proximidade.

Os eleitores, por sua vez, deixaram de ocupar apenas o papel de receptores da mensagem política. Segundo Massaro, eles se transformaram em agentes ativos das campanhas: "A campanha passa a ser uma campanha em rede". Ao comentar, compartilhar ou interagir com o conteúdo, os eleitores ajudam a ampliar sua circulação e alcance, influenciando o debate público.

"Uma das principais mudanças que estamos observando diz respeito ao que os atores políticos esperam do público em termos de engajamento", acrescenta Connolly. "A comunicação não acontece mais apenas em um único sentido, do político para o público. Hoje, ela também ocorre entre os próprios membros do público e partindo do público de volta para os atores políticos. É um ambiente muito mais dinâmico."

Com as novidades na dinâmica da campanha, a Justiça Eleitoral precisou adaptar as regras prevendo a disputa do campo digital. Hoje, a legislação proíbe disparo de mensagens de conteúdo político-eleitoral em massa, e prevê o monitoramento e a remoção de publicações mentirosas.