Das manifestações de 2013 à eleição de Bolsonaro em 2018, o impeachment de Dilma marcou uma virada que ainda influencia os rumos da política
Dez anos atrás, o Brasil não apenas assistia à queda de uma presidente. O país atravessava uma transformação política que ajudaria a moldar a década seguinte: a ascensão da direita, o fortalecimento dos movimentos de rua e uma polarização que continua presente nas eleições e no debate público.
O impeachment de Dilma Rousseff, concluído em 31 de agosto de 2016, foi resultado de uma crise política e econômica que se agravou ao longo dos anos. Mas também se tornou um marco para entender acontecimentos que viriam depois: a ascensão de Jair Bolsonaro, o fortalecimento do bolsonarismo e o aumento do protagonismo do Congresso Nacional.
Para entender aquele agosto de 2016, é preciso voltar alguns anos.
Em junho de 2013, milhões de brasileiros foram às ruas inicialmente contra o aumento das tarifas do transporte público. As manifestações rapidamente incorporaram outras pautas, como críticas à corrupção, aos partidos políticos e aos governos.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Receba no seu email as notícias de Boletim MetrópolesFrequência de envio: Diário
“Você tem uma janela de oportunidade para tirar o partido do governo, pelo menos para fazer perder as eleições. E o partido ganha as eleições. Então, se instaura uma espécie de pânico”, afirma.
A tensão aumentou ainda mais durante as eleições de 2014.
Dilma Rousseff foi reeleita com 51,64% dos votos, em uma das disputas mais acirradas desde a redemocratização. O resultado foi questionado pelo PSDB no Tribunal Superior Eleitoral, mas o TSE concluiu, cerca de um ano depois, que não havia indícios de fraude.
Ao mesmo tempo, o país enfrentava uma grave crise econômica. As investigações da Operação Lava Jato atingiam políticos de diferentes partidos, mas provocavam forte desgaste para o PT e para o governo Dilma.
A combinação entre crise econômica, crise política e avanço das investigações fez o apoio à presidente despencar.
E a crise deixou de estar restrita ao Congresso. A rua passou a ter papel central na pressão pelo afastamento.
Em 2015, a chamada Marcha pela Liberdade saiu de São Paulo com destino a Brasília para defender o impeachment. Idealizada por Renan Santos e Kim Kataguiri, do MBL, a manifestação percorreu mais de mil quilômetros em 33 dias.
A marcha se tornou um dos símbolos da mobilização anti-petista daquele período.
“À época do impeachment, tinha um sentimento de esperança e um sentimento de que eu, um cidadão comum, se eu fizer alguma coisa, as coisas podem mudar”, afirma Kim.
A pressão das ruas se somou à pressão dentro do Congresso. E é nesse momento que surge um dos personagens centrais daquela história: Eduardo Cunha.
Em dezembro de 2015, o então presidente da Câmara dos Deputados aceitou um dos pedidos de impeachment contra Dilma Rousseff.
Cunha era investigado por suspeitas de corrupção e mantinha relação conflituosa com o governo. A acusação apresentada pela jurista Janaína Paschoal sustentava que Dilma havia cometido crimes de responsabilidade fiscal ao descumprir normas da Lei Orçamentária e de finanças públicas. O caso ficou conhecido como “pedaladas fiscais”.
Para Janaína, o impeachment tinha natureza jurídica e política e apresentava fundamentos legais para ser aberto.
“Você pode dizer: havia ali uma peculiaridade entre o presidente da Câmara e a presidente da República e essa peculiaridade ajudou, por exemplo, o pedido ser admitido. Pode ser que sim, pode ser que não. Isso não diminui a importância da medida”, alega.
A defesa de Dilma tinha uma interpretação diferente.

0 Comentário(s)
Deixe seu comentário