Especialista explica como o chocolate se transformou em um dos alimentos mais populares - DIVULGAÇÃO   Presente em sobremesas, bebidas, receitas culinárias e datas comemorativas, o chocolate é muito mais do que um doce. Sua trajetória atravessa milênios e revela transformações culturais, econômicas e sociais que ajudam a compreender diferentes períodos da história.

No Brasil, o setor vive um momento de estabilidade. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas, a Abicab, a produção nacional passou de 806 mil toneladas em 2024 para 814 mil toneladas em 2025, crescimento de cerca de 1% em relação ao ano anterior. A origem do chocolate remonta a mais de cinco mil anos, quando o cacaueiro começou a ser domesticado na região do atual Equador. Depois, o cultivo se espalhou pela Mesoamérica e passou a ocupar um papel importante em civilizações como maias e astecas. “Para esses povos, o cacau era muito mais do que alimento. Ele estava presente em rituais religiosos, cerimônias políticas e chegou a ser utilizado como moeda em determinadas sociedades”, explica Ana Paula Aguiar, autora de História do Sistema de Ensino pH. Naquele período, o chocolate era consumido de forma bastante diferente da atual. A bebida conhecida como xocolatl era preparada com água e especiarias, tinha sabor amargo e intenso, bem distante da versão doce que se popularizaria séculos depois. A transformação do cacau em um produto amplamente consumido começou após a chegada dos europeus às Américas, no século XVI. Incorporado às rotas comerciais coloniais, o ingrediente recebeu novos componentes, como açúcar e leite, adaptando-se ao paladar europeu. “A trajetória do cacau revela como os alimentos também contam histórias. Eles mostram encontros entre culturas, relações de poder, transformações econômicas e mudanças nos hábitos de consumo ao longo do tempo”, afirma a especialista. Da elite ao consumo popular Foi durante o século XIX que o chocolate passou por uma de suas maiores transformações. Com o avanço tecnológico e a industrialização, os custos de produção diminuíram, surgiram as barras de chocolate e o produto passou a chegar a diferentes camadas da população. Ao longo dos séculos XX e XXI, a expansão das grandes indústrias alimentícias e das estratégias de marketing consolidou a associação do chocolate a momentos de prazer, celebração e afeto. O que antes era restrito a determinados grupos tornou-se um dos alimentos mais consumidos no mundo. O Brasil e a tradição do cacau O Brasil também tem uma longa relação com o cacau. A produção em larga escala teve início ainda no período colonial, quando mudas da planta foram introduzidas na Bahia. A partir do século XIX, o sul do estado se tornou um dos principais polos produtores do mundo, impulsionando o chamado ciclo do cacau. Durante parte do século XX, o país esteve entre os maiores produtores globais. Mesmo após os impactos da vassoura-de-bruxa, praga causada por fungo que atingiu as lavouras baianas a partir da década de 1980, o Brasil manteve relevância no mercado internacional. Hoje, a produção nacional se concentra principalmente na Bahia e no Pará. Nos últimos anos, o país também tem ampliado sua participação no mercado de cacaus especiais e chocolates de origem, acompanhando a demanda por produtos sustentáveis e de maior valor agregado.