Em 'Despatologiza', autora que é um das destaques da Bienal do Livro critica paradigma baseado em rótulos psiquiátricos e na medicalização da vida

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“De perto ninguém é normal”, provoca Flávia Albuquerque. Em entrevista, a psicóloga fala sobre seu livro “Despatologiza” e critica a crescente patologização da vida. Ela discute como a sociedade rotula o sofrimento humano como transtornos mentais, muitas vezes ignorando as raízes sociais e estruturais. Uma reflexão profunda sobre saúde mental e os limites dos diagnósticos.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

De perto ninguém é normal e de longe todo mundo tem um diagnóstico psiquiátrico.

Esse parecer ser o espírito do nosso tempo, um tempo em que siglas, nomes médicos e códigos de doença pularam os muros dos consultórios e frequentam o boca a boca real e virtual. A ponto de se concluir que vivemos uma epidemia de distúrbios mentais: TDAH, ludopatia, transtorno borderline, TOD… A lista é longa e passível de atualização.

Mas qual é a fronteira entre a norma e o desvio, ou entre a saúde e a doença? Quem define o que é normal e o que é patológico? Quando termina a tristeza e começa a depressão? Onde acaba a agitação infantil e desponta a hiperatividade com déficit de atenção? Será que, na ânsia por laudos objetivos e precisos, a psiquiatria não continua escorregando num terreno sinuoso de subjetividade e diversidade?

Sim, são perguntas complexas que pedem discussões e respostas também complexas. Porque, no fundo, talvez o problema não esteja (só) no indivíduo rotulado com o problema A, B ou C. Talvez esteja na sociedade e no sistema que o rotula assim ou assado.

Esse é um dos diagnósticos do momento que atravessamos esboçado pela psicóloga Flávia Albuquerque. Munida de aparato crítico, literatura multidisciplinar e argumentos afiados, a pesquisadora e mestre em educação que se projetou com um canal nas redes sociais – são quase 250 000 seguidores só no Instagram – cutuca feridas sociais e paradigmas médicos no livro Despatologiza – A Vida que Não Cabe no Diagnóstico Psiquiátrico, que acaba de sair pela Editora Rocco.

A autora, um dos destaques da Bienal do Livro de São Paulo deste ano, problematiza, com conhecimento de causa, fenômenos como a medicalização e a medicamentalização da vida, nunca perdendo a sensibilidade de reconhecer que, por trás de uma definição de manual ou um CID, há alguém em sofrimento ou desconexão com o mundo à sua volta.

Não dá para debater saúde mental no Brasil de hoje sem passar pelas páginas de Despatologiza. Com a palavra, Flávia Albuquerque.

TDAH, TOD, ludopatia… Que transtorno mental melhor simbolizaria esta era de patologização da vida apontada em seu livro? Se olharmos para a história da psiquiatria, percebemos que cada período produz suas próprias respostas patologizantes e que a gramática diagnóstica se reestrutura de tempos em tempos, sobretudo a cada nova edição do DSM [o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais criado e atualizado pela Associação Americana de Psiquiatria]. As condições não surgem nem desaparecem de uma época para outra; o que se altera é quais delas a cultura decide iluminar a cada momento. Na virada do milênio, o vocabulário patologizante organizava-se fortemente em torno da ansiedade e da depressão, foi o período de consolidação da psiquiatria biológica e da ampla difusão dos antidepressivos. Hoje, observo um deslocamento dos holofotes para os transtornos ligados à atenção e ao neurodesenvolvimento, como o TDAH e o autismo. É preciso ser rigorosa aqui: isso não significa que a ansiedade e a depressão tenham deixado de existir – o Brasil segue no topo das estatísticas da OMS para esses quadros -, nem que exista, subitamente, mais TDAH ou mais autismo na população. O que se transformou não foi a incidência, mas a visibilidade e a circulação social desses rótulos.

A que atribui esse fenômeno? Esse deslocamento não é aleatório. Ele acompanha as transformações do nosso modo de vida. A ascensão de um projeto neoliberal, que exige um sujeito cada vez mais individualista, produtivo e autogerido, encontra no vocabulário da atenção e da performance a sua tradução psíquica. Num mundo que cobra foco e otimização constantes, não é fortuito que o mal-estar passe a ser nomeado justamente pela linguagem do déficit atencional e da hiperatividade. Esse fenômeno se articula ao que chamo, no livro, de bioidentidades ou identidades psiquiátricas: a tendência contemporânea de os sujeitos construírem sua identidade a partir de categorias biomédicas. O “eu sou TDAH”, o “eu sou autista”, enunciados como quem declara um traço fundamental de si, revelam como o diagnóstico deixou de ser apenas uma descrição clínica para se tornar um modo de habitar o mundo e de pertencer.

E isso é positivo ou negativo? É um fenômeno ambivalente: parece democratizar o diagnóstico, dando ao sujeito o poder de se autonomear, mas, ao fazê-lo, interioriza a lógica patologizante e a faz operar por adesão voluntária. Compreendo esse movimento à luz daquilo que proponho como as três dimensões políticas do sofrimento. A primeira é a da formulação e manifestação do mal-estar, moldada pelos determinantes sociais concretos (exploração no trabalho, violência de gênero, racismo, precariedade). A segunda é a da interpretação hegemônica, na qual saberes institucionalizados, como a psiquiatria biologicista e o DSM, convertem essa angústia em categorias diagnósticas que obscurecem suas raízes sociais. E a terceira é a do acolhimento e tratamento, em que essa leitura dominante define quais formas de cuidado são legítimas – formas que tendem a individualizar o sofrimento e a suprimi-lo, em vez de escutá-lo. As três se retroalimentam.

Então o TDAH seria um candidato a representar nossa era? Se eu tivesse de eleger o que melhor simboliza esta era, não apontaria um transtorno isolado, mas o próprio campo da atenção e do neurodesenvolvimento. Não porque seja mais real que os demais, mas porque é nele que a nossa época deposita, hoje, suas angústias em torno de produtividade, adequação e desempenho. O rótulo que se destaca em cada tempo é menos um espelho da biologia e mais um retrato das exigências que aquele tempo faz aos seus sujeitos.

Nesse sentido, ouvimos relatos de adultos que passam a se sentir melhor a partir do momento em que recebem um diagnóstico para uma questão de saúde mental. Esse rótulo ajuda a entender sua forma de estar e lidar com o mundo e confere uma espécie de pertencimento a um grupo. Como analisa essa reação? Eu começaria reconhecendo que esse alívio é real, e não tenho nenhum interesse em minimizá-lo. Numa sociedade que ainda trata o sofrimento psíquico e a diferença com muito preconceito, receber um diagnóstico pode ser a primeira vez que a dor de alguém é levada a sério. Aquilo que a pessoa ouviu a vida inteira como preguiça, frescura ou falta de esforço ganha, enfim, um nome e deixa de ser uma falha moral. Há um alívio genuíno nesse deslocamento, e há também um pertencimento importante que é o encontro com outras pessoas que vivem algo parecido, a sensação de não estar sozinha. No livro, eu analiso esse movimento como uma espécie de absolvição patologizante. Explico: no modo de vida contemporâneo, os indivíduos são moralmente responsabilizados por seus supostos fracassos, sendo acusados de fracos, preguiçosos, de pouca força de vontade. O diagnóstico surge, então, como uma aparente absolvição, que se resume numa frase: “Não é sua culpa, é seu cérebro”. O que antes era defeito de caráter converte-se em condição médica, e isso, num primeiro momento, alivia. O problema é que essa absolvição cobra um preço, e ele aparece só depois.

Como assim? Ao transferir a explicação do sofrimento do campo moral para o campo estritamente biológico, a solução também se desloca inteiramente para dentro do corpo do indivíduo. A pessoa é inocentada da acusação de não se esforçar, mas apenas para ser condenada a uma vida de autogerenciamento permanente. Ou seja: você não é mais culpado por sofrer, mas passa a ser o único responsável por “corrigir” aquilo que agora foi definido como uma anomalia interna sua. Trocamos os grilhões morais por grilhões biomédicos. E há um apagamento nesse processo que me parece central. No momento em que o esgotamento de um trabalhador submetido a jornadas exaustivas é lido apenas como um burnout a ser medicado, ou quando a dispersão de um estudante pressionado é lida apenas como um traço do seu cérebro, obscurece-se o fato de que aquele sofrimento é, em boa parte, produzido por relações sociais concretas. O ônus de se adaptar recai todo sobre o indivíduo – por meio de remédios, de técnicas de respiração, de “resiliência” -, enquanto o mundo que produziu o mal-estar permanece intocado. A mensagem subliminar é a de que o problema não está no que me esmaga, mas na minha incapacidade de suportar o esmagamento.

Então esse tipo de solução seria um remédio, mas também um veneno? Eu diria que o diagnóstico, nesses casos, funciona como um alívio que se volta contra o próprio sujeito. Ele acolhe num primeiro instante, mas, ao localizar a origem de tudo dentro da pessoa, acaba por isolá-la, inclusive da possibilidade de perceber que boa parte da sua dor é compartilhada com outros e tem raízes que estão fora dela. O cuidado verdadeiro, a meu ver, não recusa o alívio, mas se recusa a parar nele: ele devolve à pessoa a pergunta sobre o que, nas condições concretas da sua vida, está produzindo aquele sofrimento.

Como podemos acolher e tratar o sofrimento mental fora do paradigma médico oficial, que acaba exigindo um CID para um distúrbio? Essa é a pergunta central, e eu gostaria de começar desfazendo um risco de mal-entendido: despatologizar o cuidado não significa abolir toda linguagem diagnóstica e deixar um vazio no lugar. Aliás, seria até nocivo fazer isso, porque hoje, em um Estado que condiciona o acesso a direitos à existência de um laudo, tirar o diagnóstico das pessoas sem mudar as estruturas apenas as deixaria desamparadas. O problema não está apenas no CID [sigla para Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde] ou no DSM enquanto livros. Está no dispositivo que os transformou na única porta de entrada para o cuidado e para a cidadania. Isso fica claro num paradoxo perverso que descrevo no livro: hoje, sem o CID, o sofrimento é invisibilizado; e com o CID, ele é patologizado. Quem não tem um rótulo válido corre o risco de ser tratado como fraco, indisciplinado ou mal-ajustado; quem tem, vê a complexidade da própria experiência reduzida a uma categoria. O que a despatologização propõe é romper esse falso dilema, construindo um paradigma de cuidado que não dependa de um diagnóstico para operar.

Como viabilizar essa proposta na prática? Na prática, isso não é uma utopia abstrata; em boa parte, já existe. O Brasil construiu, a partir da luta antimanicomial e da reforma psiquiátrica, a Rede de Atenção Psicossocial, a RAPS. É uma rede pública, feita de serviços como os CAPS, que trabalham com uma lógica radicalmente diferente da manicomial: cuidado no território, em liberdade, com foco no vínculo e na reinserção social, e não no isolamento e na tutela. Fortalecer e financiar adequadamente essa rede, em vez de esvaziá-la, como se tem feito, já seria um passo enorme. Um exemplo do desvio atual: enquanto a RAPS carece de verba, recursos públicos massivos são destinados à criação de serviços segregados e a um mercado privado, como as Comunidades Terapêuticas, que faturam com o diagnóstico e o sofrimento. Cuidar de forma despatologizante é reverter essa prioridade.

E as mudanças não ficariam restritas aos ambientes médicos ou de saúde, correto? O cuidado que eu defendo não se esgota na esfera da saúde, e esse é o ponto que considero mais importante. Se boa parte do sofrimento que hoje nomeamos como transtorno nasce das condições concretas da vida (da exploração no trabalho, da falta de moradia digna, do racismo, da ausência de descanso e de laços comunitários), então uma política de saúde mental de verdade passa, necessariamente, por políticas públicas que garantam essas condições. Não há escuta clínica, por melhor que seja, que resolva sozinha um sofrimento que é produzido por um mundo adoecedor. Cuidar, aqui, é também transformar as circunstâncias que fazem adoecer. Então, respondendo diretamente, acolher fora do paradigma médico oficial é multiplicar as linguagens e os caminhos do cuidado, para que ninguém precise escolher entre a invisibilidade da sua dor e a redução da sua experiência a um diagnóstico. É afirmar que o sofrimento é uma experiência humana válida em si, que merece acolhimento e não apenas tratamento. É construir redes de cuidado psicossocial, práticas comunitárias, espaços de escuta que devolvam ao sofrimento a sua dimensão coletiva. O cuidado verdadeiro, no fim, se constrói no encontro e no vínculo, e esses não cabem, nem nunca couberam, dentro de um código.

Conseguimos esboçar qual seria a linha de fronteira entre uma condição ou característica psicossocial que faz parte da diversidade humana e algo que possui uma dimensão realmente patológica? A partir de que momento se cruza a linha? Esta é, para mim, a pergunta mais basilar de todas e a minha resposta pode parecer provocativa, mas vou justificá-la: essa linha de fronteira não existe de forma objetiva. Ela não é dada pela natureza. É traçada, e traçada por alguém, a partir de um parâmetro de normalidade que é histórico, cultural e, muitas vezes, atravessado por classe, raça e gênero. Digo isso porque, ao contrário do restante da medicina, a psiquiatria não dispõe de marcadores biológicos para validar suas categorias. Não existe exame de sangue, exame de imagem ou biomarcador capaz de dizer, com objetividade, onde termina a tristeza e começa a depressão, ou onde termina uma personalidade intensa e começa um transtorno. E isso não é um detalhe. Quem afirma é o próprio Allen Frances, o psiquiatra que chefiou a força-tarefa do DSM-IV e depois se tornou um dos maiores críticos do manual. Na ausência de um parâmetro biológico, o diagnóstico se apoia necessariamente em julgamento, no julgamento de quem avalia.