Às vésperas da missa de meio-dia na Ermita de La Caridad, santuário católico em Miami , na Flórida, que homenageia a padroeira de Cuba , a irmã Elvira García comenta que os desabafos dos fiéis têm mudado. Cada vez mais eles relatam desespero com a situação de seus parentes na ilha e com a sua própria situação nos Estados Unidos . Leia mais (08/01/2026 - 23h00)

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1º.ago.2026 às 23h00

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Às vésperas da missa de meio-dia na Ermita de La Caridad, santuário católico em Miami, na Flórida, que homenageia a padroeira de Cuba, a irmã Elvira García comenta que os desabafos dos fiéis têm mudado. Cada vez mais eles relatam desespero com a situação de seus parentes na ilha e com a sua própria situação nos Estados Unidos.

Miami é o lugar com maior concentração de cubanos fora da ilha em todo o mundo. Quase 800 mil vivem na área metropolitana, o que representa 12,8% da população local, de acordo com dados oficiais. Esta é a terra da diáspora —e do lobby— cubanos.

É, também, a terra que recém deixou de ser um bastião democrata para se tornar um polo propulsor republicano, em um realinhamento expressivo do eleitorado latino que, no mais, ocorreu em todo o país. Neste momento de pressão econômica recorde em Cuba, com novas rodadas semanais de sanções determinadas pela Casa Branca e uma crise humanitária sem precedentes, o perfil político fica evidente.

Ainda que não sejam monolíticos, assim como qualquer outro grupo imigrante, os cubanos de Miami demostram majoritariamente apoiar as ações de Donald Trump. Alguns manifestam a latente contradição de verem seus compatriotas sofrerem as consequências da asfixia econômica na ilha.

O cenário, calamitoso, afinal, muda a dinâmica da própria diáspora, em especial de cidadãos comuns, não o empresariado endinheirado ou as lideranças politicas que já estão bem estabelecidas. Imigrantes cubanos de classe baixa e média, muitos dos quais ainda estão esperando uma resposta para seus pedidos de asilo, têm de trabalhar cada vez mais.

A irmã Elvira relata escutar relatos de cubanos que têm de dobrar, ou mesmo triplicar, seus turnos de trabalho para enviar remessas de dinheiro a seus familiares que não deixaram a ilha para trás.

É o caso do engenheiro Norges (que tem seu nome alterado, a pedido, por temer perseguição política contra suas filhas que ainda vivem em Havana). Professor universitário, ele emigrou para Miami há quatro anos, após ser expulso da universidade e receber de policiais a ordem de que era melhor abandonar o país, segundo relata.

Norges, 63, diz que "não permitem uma vida livre àqueles que não são partidários do Partido Comunista de Cuba". Ele critica a repressão contra seus alunos que participaram dos protestos de julho de 2021 na ilha. Para abandonar o país, tomou um voo para a Nicarágua e, de lá, chegou por terra à fronteira dos EUA.

Ele trabalha pela manhã em uma empresa de engenharia e, durante a tarde e anoite, como motorista de aplicativo. Foi uma tarefa que começou no início do ano para ter dinheiro para enviar mais remessas às filhas e às duas netas em Havana.

"Envio principalmente alimentos: muita carne enlatada, queijo e farinha. Há um ano consegui enviar painéis solares para que elas tenham eletricidade, possam dormir com ventiladores. Assim humanizo um pouco suas vidas", diz. "E tento enviar alguns doces para as crianças. Minha filha diz que não é preciso, mas não consigo."

Os envios hoje são dominados pela empresa CubaMax, com base justamente em Miami. Os produtos são comprados no site da própria empresa, que organiza a distribuição na ilha.

Todos se veem afetados. O padre Angél Andrés González Guillén, número 2 na Ermita de la Caridad, chegou há quatro anos a Miami, o mesmo tempo de Norges. De seus 22 anos como sacerdote, passou a maior parte servindo em Cuba, em sua cidade natal, Holguín.

"De repente, tudo lá estava tão, tão grave economicamente, além da perseguição religiosa com a vigilância dos órgãos de segurança estatais dentro da Igreja, que as possibilidades se esgotaram. Tudo isso cansa", diz ele. "E precisava pensar na família também. Tenho meus pais idosos, tive que emigrar para garantir que eles sobrevivam. É a única maneira para que não morram de fome."

Fundada nos anos 1960 pelos primeiros exilados de Cuba, a Ermita recebe imigrantes de todas as partes da América Latina, em especial os cubanos, ainda que as gerações mais novas tenham se distanciado do catolicismo. É apelidada de "o coração espiritual do exílio".