Onda de violência na França leva líderes de direita da Europa a cobrar medidas mais rígidas contra a imigração ilegal.
Debate sobre as fronteirasDistúrbios na França ampliam pressão da direita por restrições à imigração na EuropaPor John Lucas
Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleOnda de protestos violentos na França provoca reação de partidos de direita europeus, que cobram maior controle das fronteiras e restrições à imigração. (Foto: MOHAMMED BADRA/EFE/EPA)Ouça este conteúdo
A violência observada nos protestos na França no último fim de semana está fazendo com que diversos partidos de direita de diferentes países europeus intensifiquem as cobranças por políticas mais duras contra a imigração ilegal e maior controle das fronteiras.
Lideranças do Reino Unido, Alemanha, Espanha e Itália passaram a citar os distúrbios franceses como um alerta sobre os riscos que, segundo elas, as políticas migratórias atuais representam para a segurança do continente.
As manifestações na França, que começaram em setembro com reivindicações de estudantes por melhorias na educação, culminaram em cenas catastróficas no sábado (17), quando grupos violentos aproveitaram os protestos para promover saques, incendiar veículos e atacar policiais e prédios públicos em cidades como Paris, Lyon e Marselha. Até esta quinta-feira (22), cerca de 2,7 mil pessoas foram detidas desde o fim de semana, segundo o ministro da Justiça francês, Gérald Darmanin. Mais de mil suspeitos foram apresentados perante a Justiça e 217 foram presos após serem condenados em julgamentos que estão sendo acelerados.
Parte da direita europeia passou a associar os distúrbios à imigração porque alguns dos primeiros episódios de violência ocorreram em áreas da periferia de Paris com elevada proporção de habitantes de origem imigrante, como Saint-Denis. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos da França (Insee), 31,6% dos habitantes do departamento de Seine-Saint-Denis eram imigrantes em 2020 e 2021. Outros 31,6% eram filhos de imigrantes nascidos na França. Juntos, esses dois grupos representavam quase dois terços da população local.
A associação também ocorre em meio ao crescimento da imigração no país: em 2025, a França tinha aproximadamente 8 milhões de imigrantes, o equivalente a 11,6% da população, ante 7,3% em 1999.
O presidente francês, Emmanuel Macron, porém, rejeita a associação entre os distúrbios e a imigração e classificou como "estúpidas" as declarações de líderes estrangeiros nesse sentido, em resposta a comentários do presidente americano Donald Trump, que responsabilizou as políticas migratórias francesas pelos atos violentos do final de semana e pediu que o país fechasse suas fronteiras.
O governo Macron atribui a violência principalmente à atuação de grupos de extrema esquerda e de criminosos que se aproveitaram das manifestações.
França anuncia restrições a protestos e reforço de segurança para sábadoEnquanto extrema esquerda incendeia a França, direita aparece como favorita para liderar o paísEuropa terá nova onda de greves em meio à escalada dos protestosDireita europeia cobra mudanças nas políticas migratóriasAlém das preocupações com a segurança pública, partidos de direita europeus associam a imigração em massa às dificuldades de integração cultural e a possíveis conflitos com os valores e as normas dos europeus. Algumas dessas lideranças também apontam o que consideram uma aproximação entre setores da esquerda radical e grupos islamistas como um fator de tensão no continente.
Diante disso, os distúrbios na França passaram a ser utilizados por esses políticos como um alerta sobre os riscos que, segundo eles, as atuais políticas migratórias representam para a segurança e a coesão social na Europa.
No Reino Unido, Nigel Farage, líder do partido de direita nacionalista Reform UK, que defende políticas mais duras contra a imigração, compartilhou nas redes sociais imagens dos confrontos na França e afirmou que a situação do país vizinho poderia se repetir em outras nações europeias, caso nenhuma medida mais dura seja tomada. Farage tem pressionado para que o governo britânico, atualmente comandado pelos Trabalhistas, adote medidas para impedir a entrada irregular de estrangeiros pelo Canal da Mancha e facilitar a deportação de pessoas sem autorização para permanecer no Reino Unido.
Na Alemanha, Alice Weidel, copresidente do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), afirmou que os episódios graves de violência são um "sinal de alerta" para a Alemanha. "Aqui também, a perigosa mistura de imigração em massa e extremismo de esquerda ameaça provocar situações semelhantes às de uma guerra civil", escreveu ela no X, na segunda-feira (19).
Weidel vem defendendo a ampliação das deportações, controles mais rígidos nas fronteiras e uma redução da entrada de estrangeiros na Alemanha. Seu partido está liderando as pesquisas nacionais de intenção de voto para uma eventual eleição geral na Alemanha. Em levantamento do instituto INSA, divulgado nesta terça-feira (20), o partido apareceu com 30% das intenções de voto, contra 18% da aliança conservadora CDU/CSU, do chanceler Friedrich Merz. A próxima eleição federal está prevista para 2029.
Na Espanha, Santiago Abascal, presidente da legenda da direita nacionalista Vox, está utilizando as cenas de violência na França em sua campanha para as eleições gerais espanholas de 29 de novembro. Nas redes sociais, ele acusou o que chamou de "islamoesquerdismo" de ameaçar a Europa e afirmou que a Espanha poderia enfrentar problemas semelhantes aos dos franceses, caso não tome medidas para endurecer a política migratória.
Na Itália, o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, líder da legenda de direita nacionalista Liga, também associou os protestos violentos franceses à imigração e ao radicalismo político. Em publicação no X, ele afirmou que uma aliança entre extremistas de esquerda e fanáticos islâmicos representa o principal perigo a ser enfrentado pelos europeus neste momento.
A Itália registrou confrontos durante manifestações no final de semana, com episódios de violência em Milão e Bolonha. A primeira-ministra o país, Giorgia Meloni, anunciou, posteriormente, medidas para punir com maior rigor participantes de atos violentos, além de responsabilizar organizadores de grupos envolvidos nos tumultos.
A pressão também cresce no Parlamento Europeu. O eurodeputado italiano Nicola Procaccini, copresidente dos Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), cobrou mudanças na política migratória da União Europeia. "Depois de anos em que aqueles que pediam a defesa das nossas fronteiras eram acusados de violar os valores europeus, quase todos reconhecem agora a necessidade de novos instrumentos", declarou Procaccini em sessão do Parlamento europeu nesta quarta-feira (21), associando também os episódios de violência na França, na Itália e na Bélgica a "erros" nas políticas migratórias adotadas ao longo das últimas décadas.
Na França, a líder de direita Marine Le Pen passou a utilizar a crise de segurança exposta nos atos violentos como argumento contra o governo de Emmanuel Macron, a seis meses da eleição presidencial de 2027. Le Pen lidera neste momento as pesquisas para comandar o país.
Em entrevista à rádio Franceinfo, nesta quarta, a candidata do Reagrupamento Nacional afirmou que o governo Macron perdeu a capacidade de administrar o país e citou o “caos migratório” como um dos problemas enfrentados pela França.




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