Para quem vê de fora, pode não parecer, mas o Cirque du Soleil é o sonho de muitos artistas circenses ao redor do mundo. Alguns encontram a paixão ainda na infância, enquanto outros descobrem após deixarem carreiras no esporte.A trapezista Pati Kuwai c

Para quem vê de fora, pode não parecer, mas o Cirque du Soleil é o sonho de muitos artistas circenses ao redor do mundo. Alguns encontram a paixão ainda na infância, enquanto outros descobrem após deixarem carreiras no esporte.

A trapezista Pati Kuwai começou cedo na ginástica, mas parou de competir aos 15 anos. Seis anos depois, encontrou o circo. "Eu fui para fazer uma aula de circo bem despretensiosamente, porque eu achei interessante, eu achei diferente", disse, ao UOL.

A adrenalina, a altura e as acrobacias realizadas no trapézio a seduziram. "Eu comecei a aprender muito rápido, e as oportunidades foram surgindo", contou Pati, empolgada com as apresentações do espetáculo no Brasil.

O sonho se tornou em realidade. Hoje, ela e mais sete brasileiros integram o elenco de Alegría - In A New Light, nova versão do clássico espetáculo do Cirque du Soleil, que ficou em cartaz entre 1994 e 2013, sendo relançado em 2019.

O espetáculo está em cartaz até 8 de novembro, no Parque Villa Lobos, em São Paulo (SP). O Cirque também passará por Curitiba, no Paraná, entre 19 de novembro e 13 de dezembro, antes de finalizar a turnê em Santiago, no Chile, no início de 2027.

O caminho feito pela trapezista brasileira é relativamente comum no Cirque du Soleil, que recruta talentos no esporte desde cedo. "Os integrantes do time de recrutamento começam a conhecer as pessoas muitos anos antes de elas encerrarem suas carreiras competitivas", revelou Rachel Lancaster, diretora artística do espetáculo, ao UOL.

O primeiro contato com atletas que tenham potencial de se tornarem artistas é feito de três a quatro anos antes de deixarem as competições. Segundo Lancaster, ex-dançarina e britânica, o objetivo é dar tempo para que estes atletas assistam aos espetáculos e conheçam a companhia circense, que tem sede em Montreal, no Canadá.

A diretora contou que um dos maiores desafios no recrutamento é adaptar a mente dos atletas, e workshops são realizados para tipos específicos de atos do espetáculo. "Eles estão acostumados com sua pequena seção de dois minutos, preparando-se, concentrando-se", disse.

Eles [recrutadores] fazem workshops em Montreal, onde também começariam a oferecer workshops criativos, para ver se conseguem sair desse modo de 'estes são meus dois minutos'. Isso aqui são minhas duas horas para 2.500 pessoas, de oito a dez vezes por semana, não duas vezes por ano. Então, é uma mentalidade muito diferente, mas é uma jornada bastante longa.Rachel Lancaster, diretora artística de Alegría - In a New Light, ao UOL

Para virar a chave, os artistas com bagagem atlética precisam aprender a como se portar no palco. "Eles podem ter que fazer três seções muito curtas, de dez segundos, dentro de um ato, mas ficam visíveis durante todos os quatro a seis minutos. Então, é como entrar no palco, como ficar no palco, como sempre entender que o público pode vê-lo", explicou.

Há atletas no Cirque du Soleil, inclusive, que chegaram ao topo da ginástica artística. Um deles é o ucraniano Maksym Semiankiv, que disputou as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. Um ano depois, ele foi chamado pelo espetáculo e escolheu deixar a carreira de ginasta profissional, mudando-se para Montreal.

Ele começou no Cirque se apresentando nas barras, mas teve que se reinventar após a apresentação tirar o ato em que ele se apresentava do espetáculo. Ele foi dispensado, focou o trapézio voador e voltou ao Cirque du Soleil, onde sua esposa, Roxane, também é trapezista — eles têm dois filhos.

Sobre a troca de dicas com trapezistas mais experientes, Kuwai disse que a ajuda entre a equipe é constante. "Todo mundo vai trocando conhecimento, trocando técnica", afirmou. "Mas a gente tem um responsável dentro da trupe, que é o Head Coach [técnico principal], que é o responsável, que tem esse papel, mas no final todo mundo acaba se ajudando mesmo", completou.

Apesar de ter deixado a carreira de ginasta, a trapezista do Cirque também ressaltou que a preparação física é constante, mesmo com poucos treinos completos devido à intensidade do calendário, com 8 a 10 apresentações por semana.

Os treinos específicos de trapézio são meio que só para manter, fazer a manutenção dos shows. Mas a gente acaba treinando praticamente todos os dias fora. Então, é condicionamento, musculação, pilates, bioterapia. Tudo isso para chegar no objetivo final, que é o trapézio. Mas assim, a gente treina praticamente todos os dias. Nas férias, nas folgas, para poder chegar e garantir que vai sair tudo bem.Pati Kuwai, trapezista brasileira do Cirque du Soleil, ao UOL

Alexandre Atta, outro trapezista brasileiro do Cirque, contou que começou no judô. Segundo ele, mesmo sem ter passado pela ginástica, a experiência no esporte foi importante. "A gente já tinha a força, já tinha a flexibilidade, então a transição para o trapézio e para o circo não foi tão difícil para mim, mesmo eu já começando numa idade avançada. Não como esses meninos aqui que já começaram desde criança", disse, apontando para Julio César e Fabio Farfan, colegas de trapézio.

O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.