País precisará contar com a "diplomacia de desastres" para angariar ajuda financeira para a reconstrução

Priorizar nos meus resultados Google Na noite de quinta-feira, 24, dois terremotos quase simultâneos — de magnitude 7,2 e 7,5 — sacudiram o centro-norte da Venezuela em menos de um minuto de intervalo. O fenômeno, classificado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) como um raro “dupleto sísmico”, foi o mais poderoso registrado no país desde 1900. O epicentro ocorreu no estado de Yaracuy, a cerca de 280 quilômetros de Caracas, mas a capital sentiu o impacto com força devastadora: prédios desabaram, serviços de energia e água foram interrompidos e o aeroporto internacional de Maiquetía, com “graves danos”, foi fechado. A presidente Delcy Rodríguez declarou estado de emergência e confirmou, num primeiro balanço, ao menos 164 mortos e quase mil feridos.

Terremotos e tsunamis, por serem grandes desastres naturais, costumam gerar uma onda de solidariedade global — mesmo entre países rivais. Há algo na escala da catástrofe que suspende, ao menos temporariamente, as disputas políticas e convoca o instinto mais básico de cooperação humana. Acadêmicos chamam esse fenômeno de “diplomacia de desastres”: a ideia, sistematizada pelo pesquisador britânico Ilan Kelman desde 2000, de que desastres naturais podem induzir cooperação internacional entre países que normalmente seriam adversários.

Após o tsunami no Oceano Índico em 2004 — que matou mais de 230 mil pessoas em 14 países —, rivais históricos como Índia e Paquistão colaboraram no envio de ajuda a áreas devastadas na Indonésia e no Sri Lanka. A solidariedade internacional despertada na ocasião foi tema de capa de VEJA. No terremoto da Turquia e da Síria em fevereiro de 2023, países como Grécia e Israel, entre muitos outros, enviaram equipes de resgate.

No caso da Venezuela, quase duas dezenas de países ofereceram ajuda em poucas horas. Brasil, Estados Unidos, França, Suíça, Espanha, El Salvador, Peru, Chile, Colômbia, México, Qatar, Turquia e Jordânia, entre outros, anunciaram o envio de socorristas, suprimentos médicos e ajuda humanitária. O presidente Lula expressou seu pesar e determinou que o Itamaraty elaborasse um plano de envio de ajuda — possivelmente com equipes de resgate — para a Venezuela. A reação americana foi igualmente rápida: o secretário de Estado Marco Rubio anunciou o envio de recursos médicos e equipes de busca e salvamento. Desde a queda do ditador venezuelano Nicolás Maduro, que está preso nos Estados Unidos, o governo americano tem procurado demonstrar que tem influência sobre a nova gestão de Delcy Rodrígues em Caracas.

Além do socorro imediato para encontrar sobreviventes entre as ruínas e de ajuda médica, a Venezuela vai precisar também de ajuda financeira para reconstruir sua infraestrutura danificada. O país tem um histórico de tremores de terra, mas décadas de governos chavistas acabaram com os investimentos em prevenção e proteção. Prédios construídos com normas sísmicas deficientes ou simplesmente obsoletas tornaram o impacto muito mais destrutivo do que seria em um país com infraestrutura adequada.

A preocupação maior é com os hospitais, que já estavam em situação muito precária na Venezuela. O sistema de saúde entrou em colapso ao longo dos anos 2010, e em 2025 estimava-se que cerca de 8 milhões de venezolanos — aproximadamente um terço da população — ainda necessitavam de alguma forma de assistência humanitária. A escassez de medicamentos, equipamentos e pessoal médico qualificado era crônica antes do terremoto. Com a destruição de novas unidades de saúde e a interrupção das cadeias de suprimento, esse quadro tende a se agravar dramaticamente.

O duplo terremoto vem se somar a uma situação econômica já calamitosa. O PIB encolheu cerca de 80% desde 2013, quando Nicolás Maduro assumiu o poder. Décadas de desinvestimento, corrupção sistêmica, má gestão dos recursos petrolíferos e sucessivas rodadas de sanções americanas destruíram o tecido produtivo de um país que já foi um dos mais ricos da América do Sul.

A presidente Delcy Rodríguez segue tendo uma postura autoritária, censurando a imprensa e reprimindo a oposição, ao mesmo tempo em que tenta contar com a conivência do governo de Donald Trump e atrair de volta investidores estrangeiros. Rodríguez é considerada, dentro do chavismo, a arquiteta da tímida abertura ao mercado iniciada em 2019, quando o colapso econômico havia chegado ao seu ápice. Após assumir interinamente a presidência em janeiro de 2026, ela prometeu aumentar em 55% os investimentos no setor de petróleo, com maior participação de empresas privadas, e apresentou dados oficiais mostrando crescimento de 8,5% do PIB em 2025, puxado pela recuperação dos hidrocarbonetos. Mas economistas independentes alertam que esses números precisam ser vistos com ceticismo: a inflação foi de 475% em 2025 (no Brasil, para efeito de comparação, a taxa foi de 4,26%), o déficit fiscal era elevado e o país permanece sem acesso a crédito internacional nem a empréstimos de organismos multilaterais.

A gestão de crises como a do terremoto coloca Rodríguez numa posição contraditória. De um lado, a declaração de estado de emergência e a abertura para ajuda internacional — inclusive dos Estados Unidos, com quem as relações sempre foram turbulentas — podem sinalizar uma pragmática flexibilização do isolamento diplomático. De outro, a estrutura autoritária do Estado venezolano dificulta a transparência na distribuição dos recursos, cria desconfiança nos doadores internacionais e afasta potenciais investidores de longo prazo. O relatório da Human Rights Watch publicado no início de 2026 ainda documentava graves violações de direitos humanos e restrições às liberdades civis no país.

As perdas econômicas desse terremoto podem ir de 1% a 5% do PIB segundo o USGS — ou seja, uma redução de até 5 bilhões de dólares —, algo devastador para uma economia que, com um PIB estimado em torno de 100 bilhões de dólares, mal consegue sustentar as necessidades básicas da população.

A magnitude dos danos é amplificada por um fator estrutural crítico: o estado já catastrófico da infraestrutura venezuelana. Hospitais, redes elétricas, sistemas de abastecimento de água e o parque habitacional acumularam décadas de desinvestimento. Em Caracas, imagens de edifícios desabados em bairros como Chacao e Altamira — onde o governo havia considerado as condições “mais graves” — revelaram a extensão da vulnerabilidade construtiva, apesar de serem áreas mais nobres da capital. O fornecimento de gás canalizado foi suspenso em toda a capital como medida de seguranç