Documentos liberados pelo STF apontam conexões entre recursos investigados, o Banco Master, a família Vorcaro, o PCC e o filme “Dark Horse”.
Originalmente publicado em O Cafezinho
O senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, justificava o “Dark Horse” sempre com o mesmo argumento. Dinheiro 100% privado, para um filme privado.
Nunca foi bem assim. Primeiro, porque Flávio Bolsonaro, embora finja se esquecer, é homem público.
É senador da República, líder do maior partido da direita brasileira, filho de ex-presidente e candidato a presidente. Uma relação dele com o banqueiro Daniel Vorcaro não é exatamente privada. Tem um componente público evidente.
Segundo, porque boa parte do dinheiro que irrigou o Banco Master, o banco de Daniel Vorcaro, veio de fundos de previdência de estados e municípios, na maioria governados pela direita. É dinheiro de servidor, guardado para aposentadoria.
Agora se sabe onde deitava a ponta que se dizia privada. Os documentos cujo sigilo foi levantado pelo Supremo Tribunal Federal na noite de quinta-feira (10) mostram que uma parcela importante dos recursos, ainda sob investigação, vinha do crime organizado. Da maior facção do país, o PCC, que alguns já querem tratar como organização terrorista.
A conta do “Dark Horse” fecha dos dois lados. De um, dinheiro público desviado. Do outro, recursos do crime organizado. No meio, a família Bolsonaro.
O Cafezinho fez uma investigação nos autos liberados. Depois da pressão pública do presidente Lula, o sigilo da Petição 15.556, a investigação-mãe da Operação Compliance Zero, foi levantado a pedido do presidente do Tribunal, Edson Fachin. Junto com ela vieram a público vários outros documentos relacionados, todos sob a relatoria do ministro André Mendonça.
Em entrevista ao SBT na noite de quinta-feira (10), Lula voltou a abordar a crise no Supremo e defendeu a saída do sigilo. “Eu não gosto de investigação sigilosa”, disse o presidente. “Tem que fazer a abertura do sigilo de todo mundo, colocar todo mundo nu diante da sociedade brasileira. Apure tudo, divulgue tudo, doa quem doer.”
Sem citar o nome, Lula apontou André Mendonça ao criticar o “vazamento seletivo” de informações com “viés político”, depois de o relator levantar o sigilo apenas do trecho em que o ministro Alexandre de Moraes aparecia. “O que não pode é o juiz sentar em cima de um processo e ficar vazando, sabe, coisa que interessa para ele”, completou.
A Polícia Federal batizou de Operação Carbono Oculto a apuração que descobriu o PCC usando a compra de créditos de carbono como fachada para pôr bilhões em circulação. O mesmo mecanismo aparece no patrimônio da família Vorcaro.
Em decisão de 2 de março no Inquérito 5.026, Mendonça registra que o Master movimentou cerca de R$ 2,8 bilhões em operações de câmbio para uma empresa suspeita de lavar dinheiro para a facção. A fraude apurada pela Compliance Zero pode alcançar R$ 17 bilhões, informa o mesmo documento.
É na REAG, a gestora onde a família guardava o patrimônio, que as duas pontas se encontram. Em janeiro, na Petição 15.198, o relator conta que o Banco Central comunicou ao Ministério Público indícios de crimes envolvendo a gestora e o Master, com um fluxograma dos fundos usados na operação. O bloqueio pedido naquele processo chega a R$ 5,77 bilhões.
Foi uma conta mantida ali que Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, tentou destravar no Supremo. A defesa sustentou, registrado na decisão de 29 de maio, que os valores não tinham liquidez por estarem “vinculados a ativos de créditos de carbono pendentes de realização”.
A Procuradoria-Geral da República respondeu que seria “prematura qualquer conclusão sobre o tema”, pois definir a origem dos valores é a matéria da própria investigação. Mendonça negou o pedido e manteve o bloqueio.
O despacho assinado por Mendonça em 12 de julho dá os números da negociação. Com base na apuração do Intercept Brasil, o ministro registra que Flávio “negociou diretamente” com Vorcaro o repasse de US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões, para a produção da cinebiografia.
Nas mensagens do celular do banqueiro, segundo o despacho, há “cobranças incisivas por parte do Senador para a liberação dos recursos”.
O documento registra ainda o encontro. No final de 2025, com Vorcaro em prisão domiciliar, o senador esteve na residência do banqueiro em São Paulo. A visita, revelada pela coluna de Igor Gadelha no Metrópoles, foi confirmada pelo próprio Flávio ao jornal O Globo.
Mendonça mandou as notícias-crimes contra o senador para petições autônomas, como a Pet 16.292, que seguem trancadas em sigilo mesmo depois de quinta-feira. O filme aparece em mais um front. Em decisão de 9 de setembro, o presidente Fachin cita um procedimento do ministro Flávio Dino que apura o “suposto direcionamento de emendas parlamentares” para o “Dark Horse”.
A crise que atravessa o Supremo nasceu desses mesmos autos. Em 1º de setembro de 2026, Mendonça levantou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que descrevia mensagens de Vorcaro dirigidas ao ministro Alexandre de Moraes, e Moraes reagiu incluindo acusações contra o colega no inquérito das fake news.




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