Répteis ovíparos, gigantescos, inteligentes e voadores: dragões são biologicamente possíveis? E, se não, por que eles aparecem na mitologia de tantos povos distantes?
Criaturas gigantescas com pele de escamas, grandes asas flexíveis, patas fortes com unhas afiadas e uma boca cheia de dentes que lança fogo contra seus inimigos. Os dragões são figuras onipresentes na mitologia e na cultura pop há gerações.
Mas se os dragões nunca existiram, por que aparecem na arte e literatura de tantas civilizações distintas? Entenda como a antropologia e a paleologia explicam um dos mitos mais famosos da humanidade.
Relatos e representações artísticas de encontros com dragões fazem parte da tradição mitológica de diferentes povos. No Japão, uma serpente de oito cabeças, grande como cordilheiras, exigia sacrifícios para conter sua fome.
Na China, os dragões são sábios e pacíficos, guardiões da água cujas narinas produzem nuvens de chuva. Os dragões hindus Vritra também comandavam a água – mas, egoístas, eles a guardavam para si, causando seca, inanição e morte por toda a Índia.
O povo mesopotâmico (atualmente ocupando o Iraque, Irã, Turquia e Síria) tinha um dragão como protagonista de seu mito original: o mundo teria começado com uma batalha entre dois deuses; um deles, Tiamat, era uma serpente gigante.
Em seu livro 'The Real Story of Dinosaurs and Dragons: Science Sets the Fossil Record Straight' (2024), o paleontólogo Philip J. Senter destaca que os dragões gregos da Antiguidade se aproximavam mais das serpentes, com direito a cuspir veneno. É deste período que tiramos o nome "dragão": sua origem, o termo δράκων, descreve um "peixe ou serpente gigante", e seu radical faz alusão a alguém com "olhar penetrante".
Somente na Idade Média os dragões europeus passaram a ser retratados com asas e patas, emprestando traços de aves e morcegos.
Em 2009, o ecólogo evolutivo Rob Colautti aplicou métodos científicos de cladística a 76 representações históricas de dragões. Sua análise colocou o dragão oriental (lóng) como biologicamente mais próximo dos mamíferos do que dos dragões europeus de seis membros (quatro patas e duas asas). Segundo Colautti, traduzir lóng como "dragão" é um equívoco biológico, já que as duas linhagens evoluíram de forma completamente independente.
A principal explicação paleontológica para a prevalência dos dragões na mitologia é a descoberta de fósseis de dinossauros e outros animais extintos. Tentativas de explicar os enormes esqueletos de criaturas desconhecidas teriam originado contos de grandes serpentes com patas que, às vezes, podiam voar (como os pterodáctilos).
Uma das principais evidências desta teoria é a existência de uma substância chamada "osso de dragão", feita a partir de ossos pré-históricos moídos e vendida como produto medicinal na dinastia Ming (entre 1368 e 1644).
Os dinossauros e dragões têm semelhanças anatômicas importantes:
Mas a comparação não é tão simples. Muitas das características posteriormente descobertas nos dinossauros não são fáceis de identificar apenas com fósseis; somente reconstruções sofisticadas, indisponíveis aos povos antigos, permitiram conhecê-las.
Como, então, os humanos preencheram as lacunas de informações não reveladas pelas ossadas gigantescas?
Biologicamente, os animais que mais se assemelharam a dragões ao longo da história não eram dinossauros. Eram pterossauros – répteis voadores contemporâneos aos dinossauros.
O paleontólogo Mark Witton da Universidade de Portsmouth descreve que pterossauros como o Quetzalcoatlus tinham o porte de uma girafa e usavam uma "decolagem quadrúpede" — impulsionando-se do solo com a força muscular das quatro patas. Segundo Witton, esses gigantes podiam voar até 16.000 quilômetros sem pousar, o equivalente a uma viagem transcontinental de ida e volta sem escalas. A nível biológico, bem parecidos com dragões; em aparência, no entanto, não poderiam ser mais diferentes.
Mas existe outro animal com fisionomia característica dos monstros da mitologia. O Dracorex é um dinossauro herbívoro terrestre de altura pouco superior à do humano, quatro metros de comprimento (com a cauda) e com crânio espinhoso muito parecido com um dragão de 'Game of Thrones' (HBO).
A espécie foi descoberta e nomeada em 2006. Seu nome científico significa "rei dragão" e faz alusão à escola de magia da saga fantástica 'Harry Potter': Dracorex hogwartsia.
Os dragões clássicos parecem ter sido baseados em uma junção de diversos fósseis ou animais contemporâneos ao Homo sapiens. Por exemplo: um animal de grandes proporções, com cauda longa e musculosa, teria muita dificuldade em voar. Dinossauros alados costumavam ser menores e mais esguios do que os gigantes terrestres.
A imaginação humana poderia, então, ter inventado um superpredador que combinava ambos os grupos de forma impossível para a biologia, mas cativante o suficiente para ir parar nos mitos e contos populares.
Além do folclore, a lenda foi alimentada por encontros reais com grandes animais. Em estudo publicado na revista Isis, o pesquisador Richard B. Stothers resgata o famoso incidente do Rio Bagradas (256 a.C.), no qual o exército romano do cônsul Atílio Régulo precisou usar balistas de guerra para derrotar uma serpente gigante de 36 metros na Tunísia (na verdade, uma píton-rochosa-africana). Stothers lembra ainda que pítons possuem escamas iridescentes que brilham sob o sol, o que pode ter levado historiadores antigos a apontarem que dragões tinham corpos cobertos de ouro.




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