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Publicado em 19/09/2026 às 08:36
Alterado em 19/09/2026 às 08:36
Na terça-feira passada, dia 15 de setembro, duas Brasílias funcionaram ao mesmo tempo, na mesma cidade, com poucos quilômetros de distância entre elas.
Na primeira, o Supremo Tribunal Federal passou o dia inteiro em sessão e terminou sem conseguir decidir sequer como decidir. Placar provisório, pedido de vista, assunto adiado. Não vou entrar no mérito da controvérsia, porque não é meu papel e já há gente demais opinando com informação de menos.
Na segunda, a poucos minutos dali, foi sancionado o Redata, regime tributário especial para data centers, desenhado para atrair centenas de bilhões em infraestrutura de inteligência artificial ao país.
Mesma terça-feira, mesma capital, dois séculos diferentes. Vou falar das duas, porque a distância entre elas é, na minha opinião, o verdadeiro problema brasileiro.Comecemos pela segunda Brasília, que é a mais interessante.
O mundo vive o maior ciclo de investimento em infraestrutura produtiva desde a eletrificação. Cinco empresas americanas, apenas cinco, devem investir pelo mundo algo em torno de US$ 725 bilhões neste ano. Amazon, Microsoft, Alphabet, Meta e Oracle. É alta de aproximadamente 77% sobre o ano anterior, e cerca de três quartos disso vai para infraestrutura de inteligência artificial: chips, data centers, energia, refrigeração, transmissão.
E para onde vai esse dinheiro? Majoritariamente para Estados Unidos, Europa e Ásia. O Brasil, nas projeções mais animadas, deve receber algo em torno de US$ 11 bilhões em data centers neste ano. Apenas essas cinco companhias movimentam, em doze meses, dezenas de vezes tudo o que devemos captar no mesmo período.
Não estamos perdendo por pouco. Ainda estamos praticamente fora do jogo. O que torna isso doloroso é que, desta vez, a carta na mão é excelente!
Esse capital não procura consumidor. Procura energia abundante, limpa e barata, com urgência, porque a limitação física da corrida de inteligência artificial hoje não é dinheiro nem talento. É megawatt. E nós temos a matriz elétrica mais invejável entre as grandes economias, enquanto americanos e europeus disputam cada megawatt disponível.
Os números regionais confirmam. O Brasil concentra 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e 71% de tudo o que está em construção, com mais de R$ 150 bilhões em projetos anunciados nos últimos dois anos. Com o Redata, estimativas de mercado apontam salto de 750 megawatts para 3 gigawatts até 2032.
Sejamos honestos: essa oportunidade não é mérito de competência recente, é herança de decisões de infraestrutura tomadas ao longo de décadas por governos de todas as cores. Recebemos boas cartas. A pergunta é se sabemos jogá-las.
E há uma característica dessa onda que muda tudo: infraestrutura de computação escolhe endereço uma vez só. Data center é concreto, subestação, fibra, gente treinada, fornecedor que se instala ao redor, universidade que se especializa. Formado o polo, ele se reforça sozinho, e quem ficou de fora não entra depois pagando mais caro. Simplesmente não entra.
Agora voltemos à primeira Brasília, porque é ela que decide se a segunda vai existir.Quem investe não compara apenas carga tributária, custo de energia e salário. Compara, sobretudo, a capacidade de fazer contratos valerem e de resolver conflitos em horizonte previsível. E é nessa linha da planilha que somos derrotados antes de a negociação começar.
Existe um custo brasileiro que não aparece em tabela nenhuma e que eu chamaria de spread institucional. Além dos juros, dos tributos e da logística, toda empresa que opera aqui precifica um quarto item: o risco de não saber quando o Estado vai responder. Não é o risco de perder. É o risco de não saber quando. E incerteza de prazo custa mais caro que decisão desfavorável, porque decisão desfavorável se administra e prazo indefinido não se modela.
A incerteza também não vem de uma fonte só, e aqui os três poderes dividem a conta.Do Judiciário, quando uma tese se consolida, o mercado se organiza em torno dela e, anos depois, o entendimento muda, às vezes alcançando situações já constituídas. Do Legislativo, quando se altera um marco setorial no meio do jogo, depois de o investimento feito sob a regra anterior. Do Executivo, quando se modifica por ato infralegal justamente aquilo que fundamentou a decisão de investir, com vigência quase imediata.
Nenhum desses movimentos é ilegítimo isoladamente. Tribunal pode rever entendimento, Congresso existe para legislar, governo precisa regulamentar. O problema está na soma, na frequência e na ausência de aviso. Quem investe não pede que nada mude jamais, o que seria ingênuo. Pede três coisas modestas: aviso prévio, prazo e regra de transição.E processo parado é capital imobilizado. É investimento adiado, empresa que não contrata, patrimônio que não circula, garantia travada, sócio que não entra. O dinheiro continua existindo no papel e deixa de existir na economia.
Há algo que o Direito ensina mal e a economia entende bem: não decidir também é decidir. Uma decisão proferida cinco ou dez anos depois pode ser juridicamente impecável e economicamente inútil, porque o mundo que ela regulava já não existe.O que separa as duas Brasílias, no fundo, cabe em duas palavras: prazo e critério.Toda empresa que atuo trabalha com acordo de nível de serviço, o que o mercado chama de SLA. Prazo combinado, medição e consequência contratual pelo descumprimento. Se meu fornecedor entrega em sessenta dias o que prometeu em trinta, isso tem preço. Se eu atraso com um cliente, tem preço. É assim que o mundo produtivo funciona e ninguém acha isso autoritário.
Por que a decisão pública não segue lógica parecida?
O cidadão perde um prazo e sofre consequência imediata: preclusão, multa, perda de direito. A Administração e o sistema atrasam anos sem consequência equivalente para ninguém. E quando não existe responsável individual pelo prazo, todos são institucionalmente responsáveis e, na prática, ninguém responde.




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