Os principais candidatos, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e Gadi Eisenkot, não apresentam diferenças substanciais em sua abordagem à segurança de Israel nem em sua oposição a um Estado palestino
Para os israelenses, os dois principais concorrentes após a eleição — o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior — apresentam personalidades, estilos e até mesmo visões de futuro bastante distintos.
Contudo, para o restante do mundo, eles não parecem ser substancialmente diferentes em sua abordagem à segurança de Israel ou em sua oposição a um Estado palestino.
Caso nenhum dos dois consiga formar um governo, Netanyahu poderá permanecer como primeiro-ministro interino por semanas ou meses. Analistas expressam preocupação de que, nesse período de instabilidade, a violência dos colonos na Cisjordânia — território ocupado por Israel — aumente, e que Netanyahu pressione o presidente Trump a retomar os bombardeios contra o Irã.
Se Eisenkot conseguir assumir o cargo de primeiro-ministro, não se espera uma mudança significativa na política externa de Israel. O tom pode se tornar um pouco mais conciliador em certos aspectos, mas poucos acreditam que Israel adotará uma solução de dois Estados para estabelecer uma Palestina independente, ou que abandonará seus conflitos ativos contra o Hamas (em Gaza), o Hezbollah (no Líbano) e a República Islâmica do Irã.
Tudo isso indica que Israel continuará cada vez mais isolado no cenário internacional.
O resultado da votação envia uma mensagem ao mundo de que a postura do atual governo em relação à região — que provocou reações negativas internacionalmente — “não é um problema exclusivo de ‘Bibi’”, afirmou Gina Abercrombie-Winstanley, ex-diplomata americana que hoje integra o Atlantic Council, referindo-se a Netanyahu. “Isso reflete o Israel atual em sua essência.”
A reputação de Israel no mundo tem se deteriorado nos últimos anos. A simpatia e o apoio recebidos após o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 foram gradualmente minados pela extensa campanha de bombardeios israelenses no sul do Líbano e, especialmente, em Gaza, além do aumento da violência por parte de colonos na Cisjordânia. A guerra contra o Irã — na qual Israel incentivou o presidente americano Donald Trump a se envolver — tem se mostrado profundamente impopular em grande parte do mundo, inclusive nos Estados Unidos, contribuindo para a alta dos preços da energia e da inflação.
Natan Sachs, especialista em política israelense no Middle East Institute — um grupo de pesquisa sediado em Washington —, afirmou que Israel “entrou, agora, em uma fase muito perigosa em suas relações oficiais com outros países”. Ele mencionou um aumento geral no sentimento anti-Israel, antissionista e antissemita no Ocidente, bem como iniciativas europeias recentes para impor sanções a produtos e empresas israelenses na Cisjordânia — medidas que também poderiam prejudicar a economia.
Nos Estados Unidos, Israel enfrenta uma erosão de confiança. O apoio a Israel tem diminuído entre os democratas, que parecem estar em uma posição sólida para, no mínimo, conquistar a Câmara dos Representantes nas eleições da próxima semana. Mudar essa relação “será ainda mais difícil se Bibi Netanyahu continuar no comando de Israel e não houver absolutamente nenhuma esperança de mudança na política ou nas diretrizes israelenses”, afirmou Rachel Brandenburg, diretora em Washington do Israel Policy Forum, uma instituição de pesquisa que defende a solução de dois Estados.
Várias nações europeias, incluindo o Reino Unido e a França, adotaram uma postura de cautela e observação em relação às eleições, adiando a implementação das sanções anunciadas no mês passado. A expectativa — ainda que limitada — era a de que um governo liderado por Eisenkot reprimisse a violência dos colonos, interrompesse a apropriação de mais territórios na Cisjordânia e cooperasse com governos que buscam promover uma solução pacífica com os palestinos.
“Existe uma profunda animosidade entre a maioria dos líderes europeus e Netanyahu, acumulada ao longo de pelo menos uma década”, observou Robin Niblett, ex-diretor do grupo de pesquisa Chatham House e atual diretor (warden) do New College, em Oxford. “Isso torna a possibilidade de a Europa contribuir para a paz na região algo muito mais arriscado, até mesmo do ponto de vista político.”
Eisenkot também adota uma postura rígida em questões de segurança, acrescentou Niblett, mas provavelmente “tentaria encontrar uma forma de cooperar em prol da estabilidade e da paz, em vez de tratar os europeus como inimigos”. Segundo Niblett, esse esforço “abriria mais espaço para que a Europa apoiasse Israel”.
Oficialmente, a União Europeia manteve um tom cordial após a votação, elogiando, em um comunicado, a “democracia vibrante” de Israel e a alta taxa de participação eleitoral. O bloco afirmou que espera dialogar com o próximo governo “com base em nossa relação de longa data e no compromisso com princípios democráticos e valores compartilhados”, fundamentando-se em “um diálogo franco e aberto”.
Contudo, as eleições apenas ampliaram a incerteza. Os israelenses podem enfrentar um impasse político por meses e, caso ninguém consiga formar um governo estável, é possível que precisem voltar às urnas.
Poucos esperam qualquer flexibilidade por parte de Netanyahu nesse período. Isso significa que é improvável que ele aceite concessões em relação a Gaza ou contenha a atividade de colonos ilegais na Cisjordânia — medidas que, muito provavelmente, irritariam os aliados de extrema-direita em sua coalizão. Enfraquecido pelo resultado eleitoral, Netanyahu também pode querer provar que ele, sozinho — ao lado de Trump —, é capaz de “concluir a tarefa” no Irã.
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“Ele provavelmente se sentirá mais confiante e fortalecido para se apresentar como o ‘Sr. Segurança’, e o impacto ultrapassará as fronteiras de Israel”, afirmou Sanam Vakil, diretora do programa para o Oriente Médio no Chatham House.
“A contagem regressiva para uma guerra com o Irã está se acelerando e parece praticamente inevitável”, acrescentou ela. “Não levará a nada, mas pode convencer todas as partes de que é hora de chegar a um acordo.”
“Os europeus devem se preparar para semanas instáveis sob o governo interino de extrema-direita de Netanyahu”, disse Beth Oppenheim, que estuda o Oriente Médio e o Norte da África no Conselho Europeu de Relações Exteriores. “Ele terá um incentivo maior para escalar tensões, seja com o Irã — após as eleições de meio de mandato nos EUA, em 3 de novembro — ou na Cisjordânia e em Gaza.”




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