Entre olivais no Ribatejo e projetos de consultoria agrícola, Vera Bonacho, jovem agricultora, e Matilde Antunes, da CONSULAI, mostram como a agricultura pode ser uma opção de futuro para a nova geração.

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Afinal, o que é a agricultura no século XXI? Ao longo desta temporada de "O Lado B da Terra", desconstruímos estereótipos, falamos de inteligência artificial, gestão sustentável da água, inovação florestal e como a tecnologia está a revolucionar os nossos campos. Mas a tecnologia de nada serve sem as pessoas e por isso mesmo, neste último episódio de "O Lado B da Terra", fazemos uma pergunta decisiva: e se o futuro dos jovens passasse mesmo pela terra? Para responder a isto, vamos receber Vera Bonacho, 26 anos, consultora da área de estudos e estratégia da Consulai, que decidiu também apostar no Ribatejo com um projeto de olival e culturas anuais. Vera, muito bem-vinda à Rádio Observador.

Muito obrigada, João, pelo convite e queria agradecer principalmente à Rádio Observador por dar voz a estas iniciativas, que acho que são fundamentais para o nosso setor.

Em parceria sempre com o Be Rural, por isso também vamos receber a Matilde Antunes, que nos tem acompanhado, ainda que não enquanto uma voz ativa, porque tem estado aqui sempre mais nos bastidores, mas hoje, Matilde, é a tua vez também, uma das responsáveis por esta iniciativa da Be Rural. Bem-vinda.

Vamos fazer aqui um balanço destes 12 episódios. Eu vou começar pela Vera, porque tu és muito jovem, tens 26 anos e muitas pessoas da tua geração fogem da agricultura, procuram outras áreas. Muitas vezes até pode haver essa paixão, mas acabam por fugir, por não considerarem algo seguro. Tu já me vais dizer. O que te fez olhar para a agricultura e dizer: "É isto que eu quero para o meu futuro"?

A agricultura sempre esteve muito presente na minha vida. Eu sou da Golegã, uma vila no Ribatejo. Sou filha de agricultores e tive a sorte de crescer aqui, a ver os meus pais a gerir uma exploração agrícola familiar. Ou seja, não era óbvio que eu iria seguir a parte agrícola.

Aquele gosto que já estava lá.

Exatamente. Digamos que era provável que eu acabasse por seguir alguma coisa ligada ao setor. E a verdade é que durante muito tempo olhei para a minha mãe e pensei: "Eu quero fazer aquilo que a minha mãe faz hoje em dia, que é gerir uma exploração, ter a capacidade para ter um trabalho e ao mesmo tempo estar a gerir algo que é nosso". Eu acho que foi por isso que decidi ir para Engenharia Florestal no ISA. Acabei por depois tirar o mestrado em Engenharia Agronómica, com o objetivo de ter umas bases sólidas para um dia mais tarde poder tomar a decisão e tomar uma decisão acertada, ou seja, saber que estava a fazer algo fundamentado em conhecimento. Decidi tirar Engenharia Agronómica e Engenharia Florestal porque são duas áreas muito complementares e o nosso país é muito floresta e muito agricultura e fazia todo sentido ter as duas vertentes. Mais tarde, tive a oportunidade de fazer dois estágios, um na vertente florestal e outro na vertente mais agronómica, que me deu uma visão mais prática daquilo que é a agricultura. Hoje em dia, trabalho como consultora na Consulai, na área de estudos e estratégia, e a Consulai permitiu-me ter uma visão alargada do que é o setor agrícola. Nós quando pensamos no setor agrícola, pensamos no campo, na produção. E não é só isso. Nós temos por trás uma parte de gestão super complexa.

Cada vez mais tecnológica.

Completamente. Depois, relativamente à questão da tomada de decisão, ou seja, por trás da tomada de decisão do agricultor, está um plano de negócios, uma análise de investimento, está isso tudo. E eu acho que isso faz com que o setor agrícola não seja só a produção e seja muitas outras coisas por trás que muita gente não conhece. E eu acho que foi isso que me motivou a permanecer neste setor. Foi isso que me fez querer conhecer mais, porque a agricultura é muito mais vasta do que aquilo que parece de fora. Tem muitos caminhos possíveis. Por isso, respondendo diretamente à sua pergunta: por que não a agricultura? Por que eu não haveria de ir para a agricultura quando tenho 1001 caminhos que posso seguir?

E vamos conhecer esses caminhos também ao longo deste episódio, é esse o objetivo. Matilde, a história da Vera reflete muito desta premissa do Be Rural. Na vossa experiência, este desejo de encontrar propósito e impacto na carreira é hoje o principal motor para atrair estes jovens para este ecossistema?

Eu diria que o propósito é realmente cada vez mais importante, sobretudo numa geração que já não quer simplesmente ter mais um trabalho. Mas quer realmente perceber que impacto é que esse trabalho tem na sociedade e no dia a dia. Eu acho que a agricultura e a floresta têm aqui um potencial enorme, porque estão também ligados a uma série de temas que dizem muito respeito às preocupações dos jovens atualmente. Falamos da alimentação, do clima, da gestão do território e da paisagem, também a forma como gerimos os recursos naturais e, simultaneamente, a inovação, que cada vez tem ganho mais terreno nestas atividades. Mas também, o que eu acho que temos vindo a constatar com o Be Rural, e não só, é que o propósito sozinho não chega. É preciso mostrar que este espaço também é um espaço para se construir uma carreira qualificada, com propósito, com futuro e valorizada cada vez mais. Eu acho que para isto, e o Be Rural tem tentado fazer isso mesmo, há aqui uma mudança de narrativa que é importante, onde queremos deixar de apresentar ou de ver a agricultura e a floresta apenas como algo rústico, muito associado àquilo que é o tradicional, e começar a mostrá-la também como um espaço de inovação, com boa gestão, consciência, com sustentabilidade, seja ela econômica, social, ambiental, e também um espaço para empreendedorismo. Aliás, a Vera é um exemplo desses também.

E ao longo destes episódios temos desconstruído muita coisa, muitas dúvidas e mitos que temos à volta destes temas. Vera, há bocadinho falavas que os teus pais já tinham esta ligação à agricultura, mas como é que os teus amigos e os mais próximos reagiram quando perceberam ou deram conta desta tua aposta profissional?

Não houve grande surpresa, porque quem me conhece sabe que a agricultura, como esteve presente sempre ao longo da minha vida, inevitavelmente eu iria parar à agricultura. O que eu acho é, não havendo surpresa, existe aqui outro ponto, que é a curiosidade. Os meus amigos hoje em dia perguntam: "O que tu fazes? O que faz um engenheiro agrónomo hoje em dia?"

É motivo de conversa nos cafés, por exemplo?

Sim, porque infelizmente não se sabe o que um engenheiro agrónomo faz, ou seja, associa-se, tal como eu estava a dizer, muito ao campo, muito à questão da produção.

Acredita que ainda há uma ideia muito antiga daquilo que é a agricultura?

Para as pessoas que não estão tão por dentro.

Acho que sim. Acho que acaba por haver aqui a associação da agricultura ainda muito aos tempos remotos da enxada. E hoje em dia, a nossa enxada é muito mais evoluída. Ou seja, a minha enxada hoje em dia é uma máquina superevoluída, com tecnologia de ponta. Nós temos hoje em dia tratores que conduzem sozinhos. Nós utilizamos drones para monitorizar culturas, ou seja, estamos no terreno 100%, porque é necessário estar no terreno, obviamente, mas temos a outra parte de monitorização fora do campo, que é essencial e que nos ajuda a tomar decisões, porque o setor agrícola necessita de uma tomada de decisão acertada e estas ferramentas permitem-nos a ter uma tomada de decisão mais assertiva daquilo que é necessário fazer. Obviamente que os meus colegas e os meus amigos perguntam: "O que é que fazes?" Eu, obviamente que tenho a vertente de campo e tenho a vertente da consultoria. Na consultoria, fazemos planos de negócio, fazemos estudos de opções agrícolas, que basicamente, se um agricultor não sabe o que deve instalar na sua exploração agrícola, nós prestamos esse aconselhamento. E eu acho que é muito giro, porque nós acabamos por ter uma noção de que a agricultura não é apenas e só a cultura, a produção da cultura.

É muito mais do que isso. Matilde, daquilo que tens contacto todos os dias, também através do Be Rural, o que um jovem de hoje traz de novo para o setor agrícola? É difícil responder esta pergunta.