A chuva acima da média em São Paulo neste início de inverno, contrariando a expectativa de uma estação mais seca e quente, é só uma amostra da diversidade climática que a metrópole deverá encarar com a chegada do El Niño. Leia mais (06/28/2026 - 10h00)

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28.jun.2026 às 10h00

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A chuva acima da média em São Paulo neste início de inverno, contrariando a expectativa de uma estação mais seca e quente, é só uma amostra da diversidade climática que a metrópole deverá encarar com a chegada do El Niño.

Se no contexto nacional as principais características do fenômeno são chuvas mais intensas no Sul e estiagem prolongada no Norte e Nordeste, a posição da capital paulista em uma zona de transição a coloca diante da possibilidade de experimentar os dois cenários.

Os quase cem milímetros de precipitação registrados em 24 horas entre a tarde da última terça (23) e a manhã de quarta (24) –mais da metade do esperado para junho– podem ser observados como uma amostra do que o fenômeno pode fazer ao intensificar os chamados jatos de alto nível.

Essa corrente de vento muito forte em elevadíssimas alturas, ao ganhar ainda mais força, carrega mais chuvas para o Sul e também para o Sudeste, segundo o meteorologista Enver Ramirez, chefe da Divisão de Previsão de Tempo e Clima do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Isso não significa que vai chover mais, pois o El Niño não costuma alterar exageradamente o volume anual médio de precipitações na cidade, que é de aproximadamente 1.400 milímetros. Mas há uma mudança no padrão.

Chuvas mais suaves que se estendem por vários dias tendem a se tornar mais raras, dando lugar a pancadas concentradas em pontos específicos.

Esse padrão de temporais é o que mais contribui para ocorrências de alagamentos e transbordamentos em áreas urbanas densamente ocupadas, diz Michael Pantera, meteorologista do CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas) da Prefeitura de São Paulo.

O período mais crítico é esperado para o final da primavera, quando a infraestrutura urbana será testada por ondas de calor e por temporais que tendem a chegar acompanhados de vendavais.

Diante dessa perspectiva, 13 áreas da prefeitura que atuam em um plano de prevenção de chuvas foram incumbidas de apresentar ainda em agosto –antes do ápice do fenômeno, a partir de setembro– suas estratégias para lidar com o El Niño, segundo a coordenadora do grupo, Isabel Silveira Camargo, que é engenheira florestal da Secretaria de Mudanças Climáticas do município.

A coordenadora do plano contra os efeitos dos temporais destaca que a limpeza de cursos d'água e poda de árvores são consideradas primordiais para mitigar riscos de inundações e acidentes.

Antes de chegar à temporada de vento e chuva, porém, moradores de capital e de outras regiões do estado ainda podem enfrentar dias de calor intenso, baixa umidade e qualidade do ar comprometida pela fumaça de incêndios em florestas e plantações, a exemplo dos ocorridos em 2024 em quase todo o interior paulista também por influência da última ocorrência do El Niño.

Os efeitos da degradação do ar têm consequências diretas para a saúde pública, afirma a médica Evangelina Araújo, diretora do Instituto Ar. Ela diz que as queimadas, mesmo em áreas distantes, Amazônia e Pantanal, produzem poluentes com partículas extremamente pequenas.

O material é capaz de atravessar a barreira respiratória e atingir a corrente sanguínea, aumentando a incidência de infartos e acidentes vasculares cerebrais em idosos.

Gestantes, crianças e idosos são os grupos mais vulneráveis à poluição extrema, segundo a médica.