O risco climático deixou de ser apenas rural: tornou-se urbano, logístico, sanitário, alimentar e econômico

Priorizar nos meus resultados Google Entre 1877 e 1880, o Nordeste brasileiro foi atingido por um evento climático extremo nomeado apenas como seca. Quatro letras capazes de atravessar a vida social, política e econômica de uma região inteira. A seca, diferente de outros fenômenos climáticos, nomeia a ausência de itens essenciais à vida: falta de chuva, de água, de alimento, de pasto, de horizonte. Naquele período, o Brasil tentava remediar consequências sem compreender a engrenagem climática que as produzia. Não havia ciência do clima, nem, claro, satélites, modelos oceânicos, sistemas de alerta, infraestrutura hídrica adequada ou política social capaz de responder à escala da catástrofe.

Estima-se que entre 400 mil e 500 mil pessoas tenham morrido no Nordeste durante a Grande Seca. No Ceará, graças ao trabalho de Rodolfo Teófilo, farmacêutico, sanitarista e escritor, a seca ganhou registro histórico, estatístico, literário e moral. Provavelmente representou a maior tragédia climática da história do Brasil.

Hoje sabemos que aquela seca não foi apenas uma fatalidade regional. Estudos climáticos contemporâneos, como Climate and the Global Famine, of 1876–78, de Deepti Singh e outros pesquisadores, mostram que a seca brasileira esteve inserida em um evento global, associado a um El Niño excepcional em 1877-1878. Rodolfo Teófilo transformou essa experiência em A Fome, publicado em 1890. Abriu um caminho depois percorrido por Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos.

O El Niño ocorre quando há aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial. Sua alteração térmica reorganiza fluxos de energia, umidade, vento e pressão atmosférica. Em alguns lugares, chuvas extremas; em outros, seca.

É isso que pode voltar a nos desafiar entre 2026 e 2027. A National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) indicou alta probabilidade de formação de El Niño nesse período, embora ainda recomende cautela sobre sua intensidade final. É correto falar em risco de El Niño forte ou muito forte. Ainda não é correto tratar o “Super El Niño” como certeza.

Do século XIX ao XXI, quase tudo mudou. Temos satélites, modelos climáticos, centros de pesquisa, sistemas de alerta, defesa civil e conhecimento acumulado. Sabemos mais. Antecipamos melhor.

No entanto, permanece uma pergunta incômoda: se sabemos mais, por que ainda somos tão vulneráveis? Porque o alerta não basta. A previsão informa; a adaptação protege. Entre uma coisa e outra há orçamento, planejamento, infraestrutura, governança e decisão política.

Em 1877, a seca expulsou populações dispersas do sertão e sitiou cidades incapazes de acolher a fome. Hoje, o movimento é outro. O Brasil é urbano, metropolitano e interdependente. A escassez de água, a quebra de safras, o aumento do preço dos alimentos, as chuvas extremas, as ondas de calor e a sobrecarga de energia chegam diretamente às cidades. O risco climático deixou de ser apenas rural: tornou-se urbano, logístico, sanitário, alimentar e econômico.

Evidentemente, o El Niño de 2026-2027 encontrará um Brasil diferente daquele de 1877. Todavia, encontrará também cidades impermeabilizadas, drenagens insuficientes, populações em áreas de risco, insegurança alimentar, pressão sobre recursos hídricos, desigualdade territorial e baixa capacidade de planejamento preventivo.

O El Niño sempre fez parte da variabilidade natural do planeta. Agora, porém, ocorre em um mundo aquecido. A mudança do clima não inventou o fenômeno. Ela altera o pano de fundo sobre o qual ele acontece. Um evento natural, quando encontra atmosfera mais quente, oceanos aquecidos e cidades vulneráveis, pode produzir impactos mais intensos e assimétricos.

A Grande Seca de 1877-1880 foi uma tragédia de um tempo em que quase nada se sabia. O eventual El Niño forte de 2026-2027 será o teste de um tempo em que já sabemos o suficiente para não poder alegar surpresa — sobretudo nas cidades, onde hoje se concentra a vida brasileira e onde o clima extremo deixa de ser miragem para se tornar colapso cotidiano.