Analistas avaliam que a fuga do senador brasileiro para Miami muda pouco o voto americano, mas escancara o desgaste da política hemisférica e o cálculo cauteloso de Rubio e Vance
Os Estados Unidos vão às urnas na terça-feira, 3, em uma eleição de meio de mandato que funcionará como veredito sobre os dois primeiros anos do segundo governo de Donald Trump. Com aprovação em seu pior nível, institutos de pesquisa apontam os democratas como favoritos para retomar a Câmara e com boa chance de recuperar o Senado, o que lhes daria poder para investigar o governo e travar parte de sua agenda.
Para o Brasil, o efeito direto é limitado. A chegada de Flávio Bolsonaro a Miami, após perder o segundo turno e com aval reportado da Casa Branca, dificilmente move eleitores americanos. Contudo, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, o episódio alimenta a imagem de um projeto trumpista para a região que já alcançou seu teto, e deve levar os possíveis herdeiros de Trump, o secretário de Estado Marco Rubio e o vice-presidente JD Vance, a manter distância do tema.
Christopher Sabatini, diretor do Programa para a América Latina da Chatham House, explica que a Casa Branca foi colocada em uma posição difícil com a fuga de Flávio. Ele diz que Trump mantém vínculo estreito com a família Bolsonaro, mas tem pouco a ganhar abraçando o senador do PL.
“Donald Trump gosta de vencedores. Ele não gosta de perdedores. Esse é um dos insultos favoritos dele.”
Christopher Sabatini, diretor do Programa para a América Latina da Chatham House
Sabatini lembra que quase todos os aliados regionais de Trump reconheceram a vitória de Lula nas eleições brasileiras e que o próprio presidente americano já disse gostar do petista.
O presidente do Chile, José Antonio Kast, disse ter telefonado a Lula para parabenizá-lo e falou em ampliar a integração econômica e o combate ao crime organizado. O equatoriano Daniel Noboa afirmou que a região tem inimigos comuns e muito a ganhar quando trabalha unida. O paraguaio Santiago Peña saudou a jornada democrática dos brasileiros, e o boliviano Rodrigo Paz falou em fortalecer a relação entre os dois países.
Já a peruana Keiko Fujimori expressou a vontade de fortalecer a aliança estratégica com o Brasil e a cooperação na Amazônia compartilhada. E o colombiano Abelardo de la Espriella, que havia apoiado Flávio Bolsonaro na disputa, reconheceu o triunfo de Lula e disse que, apesar das diferenças ideológicas, os dois países “se necessitam mutuamente”
Em todos os casos, a reação ganha peso político porque a vitória de Lula interrompe uma sequência de recentes guinadas à direita, apoiadas por Trump, em países como Argentina, Chile, Colômbia e Peru.
“Trump pode simplesmente manter Flávio nos Estados Unidos e partir para o próximo candidato de que gosta no Brasil.”
Christopher Sabatini, diretor do Programa para a América Latina da Chatham House
Sobre o impacto eleitoral nas eleições legislativas americanas, e especialista prevê um efeito pequeno, mas simbólico, para a retórica da Doutrina Donroe, termo usado para a versão atual da Doutrina Monroe.
A doutrina remonta uma estratégia apresentada em 1823 pelo presidente James Monroe, que advertia as potências europeias contra qualquer tentativa de afirmar poder no Hemisfério Ocidental. A versão de Trump foi formalizada na Estratégia de Segurança Nacional de dezembro de 2025, que cita um “Corolário Trump” à doutrina original, e ganhou sua expressão mais explícita em 3 de janeiro, com a captura do ditador Nicolás Maduro na Venezuela.
A estratégia combina diversas frentes: apoio a candidatos alinhados à Casa Branca em eleições locais, cooperação militar com exercícios e tentativas de instalar bases, e acordos para exploração de recursos, sobretudo minerais críticos, somados à pressão tarifária. A principal iniciativa é o Escudo das Américas, um grupo de combate ao narcotráfico. Mas o objetivo central, segundo os especialistas, é afastar a China da região.
O Brasil, porém, fugiu do roteiro. Trump manifestou apreço a Flávio Bolsonaro, mas manteve-se neutro na disputa, ao contrário do que fez na eleição legislativa que fortaleceu Javier Milei, na Argentina, ou com Nasry Asfura, em Honduras.
Sabatini lembra que o americano costuma se gabar de ter ajudado a eleger nove presidentes na região, sete deles em sequência.
Já Cynthia Arnson, pesquisadora da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, lembra que ainda que não tenha se envolvido de maneira direta na campanha brasileira, a decisão de admitir Flávio como coerente com medidas anteriores em favor da família, como a sanção ao ministro do Supremo Alexandre de Moraes, que julgou Jair Bolsonaro por trama golpista.
“Ajuda a alimentar uma narrativa sobre corrupção, que várias pesquisas recentes indicam ser a principal preocupação dos eleitores, acima até da economia.”
Cynthia Arnson, pesquisadora da Universidade Johns Hopkins
No Congresso, ela aponta que uma maioria democrata teria uma longa lista de temas da América Latina para investigar, entre eles os ataques letais a embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental e os acordos de petróleo na Venezuela. Haveria também pressão para explicar o auxilio concedido a alguém que deixa o país sob acusações de corrupção.




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