Votação para o governo do Estado da Saxônia-Anhalt acontece nesse domingo, 6, e pode potencializar o apoio da AfD no país
Um Estado de 2,3 milhões de pessoas protagonizará uma das eleições mais relevantes na Europa neste ano. A Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, pode eleger, neste domingo, 6, o primeiro governante do partido Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), legenda de extrema direita.
Se isso acontecer, será a primeira vez que um governo populista de direita no país assume um cargo do tipo desde a 2ª Guerra Mundial.
Nas últimas pesquisas, a AfD apareceu com mais de 40% das intenções, em uma margem que especialistas indicavam ser de, pelo menos, 10 pontos para os adversários. O segundo colocado, União Democrata-Cristã (CDU, na sigla em alemão), atualmente no poder, tem cerca de 20%.
Com apertos de mão e comícios lotados, o candidato principal para assumir o governo é Ulrich Siegmund, um jovem político de 35 anos que, entre outras medidas, quer aprovar a educação infantil em casa e proibir que filhos de refugiados e crianças deficientes ingressem em escolas tradicionais.
O plano de governo, que também inclui deportações e a diminuição de fontes de energia limpa, se tornou uma opção para o eleitor na região. A líder do partido, Alice Weidel, já elogiou o empresário e afirmou que as eleições na Saxônia-Anhalt serão uma vitrine pro restante do país.
“Seria um marco se a AfD realmente vencesse as eleições e formasse seu primeiro governo. Seria uma vitória esmagadora e isso realmente teria um impacto enorme no cenário político da Alemanha. Talvez eles não tenham sucesso quando estiverem no governo, mas isso vai servir como um farol, um indicativo de que podem ser o partido mais forte e mobilizar outras partes do país também”, afirmou o professor Rolf Frankenberger, da Universidade de Tübingen, na Alemanha.
A sucesso da AfD se deve em parte porque a ultradireita alemã aposta em temas caros ao eleitor europeu atual: imigração, segurança e aumento do custo de vida. A Saxônia-Anhalt está entre um dos Estados que mais receberam imigrantes na crise provocada pela guerra civil síria a partir de 2015 - cerca de 34 mil pessoas pediram asilo ao governo local, cerca de 1,5% da sua população na época. Segundo o Ministério do Trabalho, Assuntos Sociais e Integração do Estado, esse foi o maior número de requisições já registrado na região.
“Tem muito muito a ver com uma questão específica que está impulsionando todos esses partidos populistas, especialmente os de direita, que é a migração e o asilo. Esse tipo de questão, é, de certa forma, o combustível do motor deles. Quando você tem esse tema muito debatido no país e há muita oposição na população contra a imigração e o asilo, esses partidos populistas de direita sempre têm muito sucesso”, apontou Stefan Marschall, professor de Ciência Política na Universidade Heinrich-Heine de Düsseldorf.
Os serviços públicos, assim como o custo de vida, também estão presentes nas conversas dos moradores de cidades como Magdeburg, Halle e Wittenberg. A região, que pertenceu à Alemanha Oriental, era caracterizada pela atividade industrial e mineradora, mas perdeu parte de sua importância após a reunificação, que provocou um enfraquecimento econômico e a saída de muitos alemães para regiões do oeste do país. Agora, o Estado tem uma das médias de idade mais altas da Alemanha.
Depois de 24 anos ininterruptos, a política atual não funciona mais para resolver problemas, na visão de parte dos eleitores. Atualmente, a Saxônia-Anhalt é governada pela CDU, sigla do atual chanceler Friedrich Merz, e conhecida por ser uma centro-direita que costumava ser sólida na Alemanha. Mas, assim como o restante da Europa, na região, os governos centristas perderam a confiança da população.
“A característica típica dos populistas é que eles são anti-establishment. Eles se opõem ao que se supõe ser uma espécie de elite governante além das elites políticas. Neste momento, temos, na maior parte da sociedade, um descontentamento muito forte com a situação econômica ou com a questão do custo de vida. Essas são as pessoas que tendem, de maneira natural, a votar em partidos populistas”, explicou Marschall.
Para os eleitores que afirmam que um governo da AfD seria desastroso, um aspecto maior do que as reformas assombra essa eleição. Nunca um político de extrema direita liderou um governo estadual ou federal desde a Segunda Guerra e, com o aumento do apoio ao partido, muitos votantes temem que o discurso radical seja naturalizado.
“A AfD ficou cada vez mais forte, radical e extremista nesse caminho. E essa é uma evolução bastante semelhante à que tivemos na década de 1920 com o nazismo— que não são as mesmas pessoas, não são o mesmo partido e não têm interesses e temas idênticos. Mas a evolução de um partido de extrema direita em crescimento, que está se tornando cada vez mais atraente, nos lembra o passado que tivemos na Alemanha com os nacional-socialistas, e isso é muito assustador para muitas pessoas”, explicou Frankenberger ao Estadão.
Apesar de estar na frente nas pesquisas - e possivelmente ser o candidato mais votado neste domingo - Siegmund ainda precisa de uma série de fatores para garantir para a AfD seu primeiro governo na história do partido, que foi criado em 2013. Isso porque não é a população quem escolhe o representante diretamente, mas sim os partidos que formarão o governo do Estado. Uma vez escolhidos, são eles quem elegem por maioria o ministerpräsident, uma espécie de governador, mas num sistema parlamentarista.
No cenário atual, a AfD tem a maior delegação no Parlamento estadual, mas pode não ter pessoas suficientes para conseguir a maioria dos votos. O dilema que foi considerado durante todo o tempo de campanha é que os outros partidos também não têm maioria para eleger um representante. E é nesse cenário que coligações improváveis podem acontecer, com o CDU recorrendo a um acordo com Die Linke, o partido de esquerda alemão, ou partidos menores quebrando o chamado cordão sanitário contra a extrema direita e apoiando a AfD no governo.
Um cenário semelhante aconteceu em 2024, quando a AfD teve cerca de 33% dos votos no pleito estadual da Turíngia, a maior porcentagem entre os concorrentes. Na época, porém, a coalizão formada pela CDU e outros partidos mais ligados ao centro impediu que o candidato da extrema direita tivesse maioria de votos, e o partido não chegou ao poder.
Agora, a estimativa é que a AfD tenha mais de 40% nas urnas, um dos motivos pelos quais a Alemanha tem olhado com atenção para a Saxônia-Anhalt. A formação do governo estadual deve ser cheia de impasses e é encarada por especialistas como um laboratório dentro do país e da Europa, mas já se posicionou como uma grande virada no crescimento da ala populista para os próximos anos.
“Há muita insegurança acontecendo e é por isso que as pessoas buscam respostas fáceis. Essas respostas fáceis são oferecidas pelos partidos populistas. E isso é, de certa forma, enganador, mas está funcionando muito bem e atraindo muita gente”, afirmou Marschall.
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