O número de anúncios de campanha que atacam a China caiu drasticamente às vésperas das eleições de meio de mandato de novembro, à medida que republicanos e democratas concentram suas atenções no custo de vida e na economia.
Candidatos e grupos políticos que disputam vagas no Congresso produziram, neste ciclo, 44 anúncios televisivos distintos criticando a China — um número bem inferior aos 190 registrados antes das eleições de meio de mandato de 2022 e aos 216 observados no ciclo presidencial de 2024.
Os democratas produziram seis anúncios relacionados à China neste ciclo, todos provenientes de candidatos à Câmara dos Representantes; nenhum foi veiculado em disputas para o Senado. Em 2024, os democratas haviam veiculado 81 anúncios desse tipo. Segundo análise do “Nikkei Asia”, os republicanos foram responsáveis por 86% dos anúncios que criticam a China este ano, com a maior parte focada na posse de terras agrícolas nos Estados Unidos por parte de entidades chinesas.
Apenas um anúncio — veiculado por um comitê de ação política (PAC) republicano que apoia o senador do Alasca, Dan Sullivan — culpou a China pelo comércio de fentanil. Em contraste, a corrida presidencial de 2024 contou com mais de 40 anúncios relacionados à crise dos opioides.
Adotar uma postura rígida em relação à China tornou-se comum em ambos os partidos após o primeiro mandato do presidente Donald Trump, e a opinião pública americana sobre Pequim tornou-se fortemente negativa durante a pandemia de coronavírus. Antes das eleições de meio de mandato de 2022, candidatos de ambos os partidos veiculavam anúncios que atribuíam à China a culpa por problemas que iam desde a crise do fentanil até a perda de empregos no setor industrial.
Esse cenário mudou desde que Trump retornou ao cargo em janeiro de 2025 e descreveu ter uma "grande amizade" com o líder chinês, Xi Jinping. Segundo o Pew Research, a percepção dos americanos em relação à China também se tornou um pouco mais amena. "O sinal claro que ele dá de que deseja uma relação estável, e até cordial, com Xi, cria um verdadeiro dilema para alguns representantes republicanos em nível nacional", afirmou Kyle Jaros, professor associado da Universidade de Notre Dame que estuda as relações entre os Estados Unidos e a China.
"Imagino que isso tenha diminuído o ímpeto — entre muitos republicanos de destaque — de adotar uma postura agressiva contra a China."
Trump e Xi reuniram-se duas vezes desde que concordaram, em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025, em interromper a troca de retaliações por meio de restrições comerciais; a expectativa é que se encontrem mais duas vezes ainda este ano. No auge das tensões comerciais, Washington impôs à China tarifas que chegaram a três dígitos, enquanto Pequim respondeu com suas próprias taxas comerciais e controles sobre a exportação de terras raras.
Questões internas também acabaram por eclipsar a política externa. Michael Traugott, professor de estudos políticos na Universidade de Michigan, observou que, embora os republicanos tenham dado grande ênfase à China e ao desequilíbrio comercial em 2024, as campanhas deste ano concentraram-se no histórico da administração Trump e nos impactos sobre as economias locais.
"Estamos vivendo uma situação um tanto peculiar, já que a economia se deteriorou por diversos motivos — o conflito no Irã, as pressões inflacionárias, entre outros. Por isso, grande parte da campanha, até o momento, tem girado em torno de questões domésticas", disse ele.
Pesquisas indicam que a alta nos preços dos combustíveis e o custo de vida estão cada vez mais presentes nas preocupações dos eleitores.
Neste ciclo eleitoral, a narrativa mais frequente envolvendo a China acusa entidades chinesas de se apossarem da agricultura americana por meio da compra de terras agrícolas.
"Cresci em uma fazenda, mas a Marinha me enviou para o Mar do Sul da China. Agora, comunistas chineses estão comprando propriedades agrícolas familiares, como esta aqui", declarou o republicano Taylor Burks, candidato à Câmara dos Representantes pelo Missouri, em um anúncio veiculado em junho. "Portanto, se os políticos fracos e corruptos não impedirem isso, eu impedirei."
Essa retórica surge apesar de um número recorde de restrições estaduais à compra de terras por parte de chineses, bem como de uma iniciativa em nível federal para proibir, em todo o país, a venda de terras agrícolas para a China. Os agricultores norte-americanos continuam sendo uma base eleitoral fundamental para o Partido Republicano, embora sua lealdade venha sendo testada pelo aumento dos custos de produção e outras pressões econômicas. No ano passado, a China interrompeu a compra de soja dos Estados Unidos, o que gerou tensão no setor agrícola; desde então, Pequim retomou as aquisições.
Embora evitem mencionar Pequim durante a campanha eleitoral, os legisladores apresentaram, na atual sessão, mais de 320 projetos de lei voltados contra a China — uma queda de 11% em relação às 366 propostas legislativas sobre o país apresentadas pelo Congresso anterior, segundo dados do Comitê Nacional sobre as Relações Estados Unidos-China.
Nas disputas para governos estaduais, o número de anúncios que criticam duramente a China passou de 16, em 2024, para 15 este ano, de acordo com dados da AdImpact. A grande maioria desses anúncios foi veiculada por republicanos.
Marsha Blackburn, senadora republicana que concorre ao cargo de governadora do Tennessee, apareceu em um anúncio esmagando biscoitos da sorte — um item clássico em restaurantes sino-americanos —, prometendo ser "rígida com a China".
Críticos do anúncio classificaram a peça como racista e xenofóbica. A equipe de campanha de Blackburn não respondeu a um pedido de comentário.
Karthick Ramakrishnan, fundador da organização de pesquisa AAPI Data, afirmou que a retórica tem sido muito mais comedida neste ciclo eleitoral, mas anos de propagandas antichinesas tiveram um efeito cumulativo que alimentou o preconceito. Segundo um relatório publicado em outubro pela organização Stop AAPI Hate, manifestações de hostilidade contra imigrantes — inseridas em um total de 1.825 incidentes de ódio relatados contra a comunidade asiática — aumentaram nos últimos três anos.
Jaros, da Universidade de Notre Dame, observou que a propaganda demonstra como alguns republicanos buscam equilibrar a lealdade a Trump com o apelo de uma postura rígida em relação à China. "Isso não desapareceu totalmente em nível subnacional", disse ele.



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