O assassino de Maristela Just, seu ex-marido, só foi preso 23 anos após o crime, após uma longa batalha judicial em que os filhos lutaram publicamente pela prisão do pai. Baleado no rosto, Zaldo Just lançou livro em que relata a tragédia familiar e a superaçã…

Role, Da BBC News Brasil em São PauloPublished 22 setembro 2026Zaldo Just Neto tinha apenas 2 anos e 8 meses quando seis tiros determinariam como seria a sua vida dali pra frente.

Um atingiu o seu rosto enquanto brincava no chão; um segundo, o ombro da sua irmã; mais um, as costas do seu tio; e os outros três a cabeça de sua mãe, Maristela, então com 25 anos.

Era uma noite de outono em Jaboatão dos Guararapes, cidade do Grande Recife, em abril de 1989.

O pai de Zaldo, José Ramos Lopes Neto, sem aceitar o fim do relacionamento, pediu para se reunir com a ex e os filhos. Trancado dentro do quarto da casa dos ex-sogros, cometeu o feminicídio e as três tentativas de homicídio.

Zaldo, hoje com 40 anos, não lembra daquela noite. Mas carregou no corpo e na mente as sequelas daquela bala.

O tiro disparado pelo próprio pai causou uma grave lesão neurológica, que comprometeu o desenvolvimento motor de todo o lado esquerdo de seu corpo. Até hoje, sente tonturas e pequenos esquecimentos temporários.

"Fiquei órfão da minha mãe, consequentemente do meu pai. Tornei-me uma pessoa com deficiência física por conta daquele que era para cuidar de mim, mas tentou me assassinar", relata Zaldo em entrevista à BBC News Brasil.

O assassinato de Maristela Just se tornou um dos casos de feminicídio — quando nem havia esse crime tipificado — mais famosos em Pernambuco.

E é também um caso símbolo de como a Justiça no país pode demorar. Entre o assassinato e a condenação de José, em 2010, passaram-se 21 anos. A prisão demoraria ainda mais dois anos para acontecer, em 2012. Hoje, ele cumpre pena em casa.

Zaldo e sua irmã mais velha, Nathália, lideraram ao longo de sua vida a luta da família pela prisão do próprio pai — a quem ele costuma se referir apenas como "genitor". Enquanto viravam adultos, mobilizavam protestos, blogs e entrevistas nos jornais locais para que o caso de Maristela não caísse em esquecimento.

Formado em direito, profissão que escolheu porque via na Justiça uma possibilidade de acerto de contas, Zaldo acaba de lançar Além das Cicatrizes (publicado com apoio da Cepe Editora), livro em que revisita a tragédia familiar ao mesmo tempo em que reflete sobre os traumas permanentes na sua vida e na daqueles que perderam as mães de forma violenta.

"A sociedade ignora o impacto geracional que esse tipo de crime vai trazer para o país", afirma ele.

"São 37 anos desde o assassinato da minha mãe, no mínimo duas gerações novas cresceram, e os números só aumentam. A gente precisa enraizar na sociedade alguma maneira de conscientizar, porque todo dia morrem mulheres dessa forma."

No último dia 7 de agosto, o Brasil celebrou um avanço no combate à violência doméstica: os 20 anos da Lei Maria da Penha, que marcou avanços legais e na percepção social sobre a violência doméstica no país.

Ela foi batizada em homenagem à cearense Maria da Penha Fernandes, que sobreviveu a duas tentativas de homicídio cometidas pelo próprio marido, Marco Antônio Heredia.

O Ministério da Justiça divulgou que, de janeiro a junho deste ano, o número de medidas protetivas devido a lei foi de 337 mil, o maior da história.

Apesar do avanço na proteção, casos como de Maristela seguem, como Zaldo diz, gerando "órfãos como ele todos os dias".

Segundo o Anuário da Segurança Pública, divulgado em julho, os feminicídios no Brasil bateram recorde em 2025. O crime se refere ao assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino, ou seja, motivado pela desigualdade, pelo gênero, pelo ódio ou pelo menosprezo à mulher.

Foram 1.571 crimes ao longo do ano passado, ou quatro mulheres mortas por dia. A alta foi de 4% em relação a 2024, na contramão da queda das mortes violentas em geral no país.

Naquela tarde de 1989, Maristela Just e seu ex-marido, José Ramos Lopes Neto, se encontraram para levar Zaldo a uma consulta médica no Recife.