Mesmo aposentado e sem precisar provar mais nada, gigante da música oferece performance de alto nível com chuva de hits

Mesmo aposentado e sem precisar provar mais nada, gigante da música oferece performance de alto nível com chuva de hits

Igor Miranda (@igormirandasite)

“Você não sabia que eu ainda estou de pé e melhor do que nunca? Como um verdadeiro sobrevivente, me sentindo como um garotinho”. Esses versos, escritos por Bernie Taupin, embalam o refrão de “I’m Still Standing”, um dos grandes hits de Elton John. Lançada em 1983, a música não é sobre Elton, mas Bernie. Ainda assim, encaixa-se perfeitamente à trajetória do cantor e pianista que deixou a aposentadoria de lado para fechar a segunda-feira, 7, de Rock in Rio.

John, aliás, nunca se retirou por completo. A turnê de despedida Farewell Yellow Brick Road, concluída em 2023 sem passagem pelo Brasil, serviu como um adeus apenas às grandes excursões. Pudera: hoje com 79 anos, o artista britânico acumula problemas nos quadris, na visão e mais. Isso não o impossibilita de continuar gravando e até realizando performances ocasionais, geralmente em eventos de caridade. Nada com o tamanho do festival carioca, deve-se dizer.

Ninguém que foi ao Rock in Rio esperava — ou deveria esperar — uma performance enérgica de um músico já em idade avançada, com dilemas de saúde e afastado da estrada há anos. A ideia é celebrar um artista que ofereceu à sociedade moderna não apenas uma infinidade de hits, mas iniciativas filantrópicas — sua fundação de pesquisa sobre a Aids, por exemplo, já investiu uma fortuna em ações e estudos sobre o tema — e ideias de inclusão por um mundo melhor.

Mas até o mais otimista deve ter se surpreendido positivamente. John não parecia estar longe de seu ofício. Cantou bem, dentro das limitações naturais da idade, e tocou como ninguém — ou melhor, como Elton John. O solo executado nos minutos finais de “Rocket Man” mostram a plenitude de sua habilidade no piano. Levantou-se pouco no palco, é verdade, mas quem liga? Sempre que se virava à plateia, era ovacionado.

Sua banda é um espetáculo à parte. Nigel Olsson, 77 anos, é membro original da Elton John Band e não vacila em uma batida sequer. Davey Johnstone, seu guitarrista desde 1971, é um dos mais subestimados no instrumento em toda a história do rock — e faz valer este título no solo espetacular de “Have Mercy on the Criminal”. Ray Cooper, presente a partir de 1973, é monstruoso na percussão.

Em relação ao setlist, houve algumas escolhas curiosas. A primeira delas veio logo no começo, com a decisão de abrir com a progressiva e encantadora “Funeral for a Friend / Love Lies Bleeding”. “Bennie and the Jets”, na sequência, evidenciou como Elton é um senhor músico: ao adaptar a canção para seu vocal mais grave, tornou-a ainda melhor. “The One”, quinta da noite, não aparecia em shows de turnê desde 2017. E, claro, “Skyline Pigeon” surgiu próxima do fim. “Essa música só é popular no Brasil”, observou o artista, destacando que nunca a toca em outro país. É o nosso presentinho.

De resto, uma chuva de hits. A catártica “Tiny Dancer”, a bela “Sacrifice”, a poderosa “Rocket Man”, a linda “Candle in the Wind” (com imagens de Marilyn Monroe, inspiradora da composição, no telão), a agitada sequência com “Crocodile Rock”, “Saturday Night’s Alright for Fighting”, “I’m Still Standing” e “Cold Heart”, esta última com vídeo — mas não áudio — de Dua Lipa, o encerramento maravilhoso com “Your Song”. São tantos sucessos que, mesmo em um set de 23 músicas e 2h15 de duração (30 minutos a mais que o previsto), alguém pode reclamar das ausências de, por exemplo, “The Bitch is Back”, “Daniel” ou “Nikita”.

SETLIST: Elton John — Rock in Rio 2026

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