Em novo disco, grupo de rock experimental abriu mão dos computadores em empreitada 100% analógica. Processo registrado em local que abrigava a Stasi é um manifesto pela humanidade em tempos de digitalização excessiva.

https://p.dw.com/p/5I31YAnúncioO que fica na memória são as imperfeições, já dizia o compositor britânico Brian Eno. O granulado dos filmes fotográficos, os chuviscos do VHS, o chiado do vinil: na arte, os limites do suporte também moldam a mensagem. Por isso, uma era dominada pela inteligência artificial (IA) e manipulação digital extrema talvez possa soar, para alguns, como o fim dos tempos.

Foi em Lichtenberg, no leste da capital alemã, num edifício que servia antigamente à Stasi, o serviço secreto da extinta Alemanha Oriental, que a banda paraibana produziu o terceiro disco – Celestial, a ser lançado nesta sexta-feira (07/08). A gravação totalmente artesanal durou nove dias, com registros em fita magnética e sem nenhum software nas dez faixas que compõem o trabalho.

"Mais do que uma nostalgia estética, foi uma tentativa de manter total controle humano sobre o processo", conta o baixista Marco Mayer à DW. "O analógico não permite que você tome atalhos eletrônicos, que modifique a performance humana de uma maneira totalmente livre, como dá pra fazer com o computador", explica o músico, que hoje vive em Berlim e se prepara para a segunda turnê europeia da Papangu, grupo que recentemente foi tema de uma reportagem elogiosa no jornal britânico The Guardian.

Celestial vem sendo tratado pela banda como um "manifesto contra a dita inteligência artificial", contra um cenário artístico que delega cada vez mais a capacidade criativa do ser humano ao algoritmo, que "pasteuriza a interpretação no mínimo denominador comum", diz Mayer. "Tudo que está lá é um reflexo do que uma banda, do que um grupo social, um grupo de amigos consegue fazer na mesma sala juntos. É uma fotografia fiel do que a gente consegue compor sozinho, sem ajuda de máquinas. Uma autoafirmação da nossa humanidade", resume ele.

A história da Papangu começou em 2012, quando amigos que estavam no primeiro ano das faculdades de direito e engenharia na Paraíba se juntaram para tocar metal extremo e progressivo, estilo que pautou o primeiro álbum da banda, Holoceno, de 2021. O trabalho foi bem-recebido pela crítica especializada internacional e alavancou o grupo também para o resto do Brasil. O nome é inspirado nas figuras mascaradas do Carnaval de Bezerros, em Pernambuco.

Na sequência veio Lampião Rei (2024), no qual a banda, já como quinteto, incorporou, de forma mais explícita, abordagens de fora do heavy metal, como o jazz, o progressivo, o krautrock alemão, além, é claro, de elementos brasileiros como a psicodelia nordestina, o Clube da Esquina, o som dos Mutantes, o forró e a música livre de Hermeto Pascoal – o que fez o som da Papangu ganhar as divertidas alcunhas "rock troncho" ou até mesmo "hermetocore".

O disco em homenagem ao cangaceiro mais famoso do mundo foi mixado em Berlim, onde Mayer vive e trabalha desde 2021 – afinal, a banda mantém basicamente o status independente, com apenas um dos integrantes como músico em tempo integral. O trabalho anterior a Celestial foi gravado "ao vivo" e contou ainda com algumas edições feitas digitalmente. A mixagem de Lampião Rei havia ficado a cargo de Richard Behrens, um dos sócios do Big Snuff Studios, a quem a banda recorreu para a empreitada 100% analógica do álbum atual. Celestial foi gravado em setembro de 2025, logo após o fim da primeira turnê europeia dos paraibanos.

Nesse meio-tempo, o estúdio de Behrens havia se mudado da região de Weißensee para Lichtenberg, em um edifício repleto de simbolismo histórico. O local havia abrigado, durante a Guerra Fria, o Fahrbereitschaft, serviço de transportes ligado à cúpula da República Democrática Alemã (RDA) e associado às operações da Stasi.

Oficialmente uma central de veículos do Partido Socialista Unificado (SED), o terreno era utilizado pelos agentes do serviço secreto da Alemanha Oriental, durante a existência do Muro de Berlim, para dar apoio logístico e financeiro – e oculto – a organizações de esquerda na Alemanha Ocidental. Hoje celeiro de iniciativas culturais, o prédio preserva algumas instalações da época, como pista de boliche e bar com cassino e sauna, conta o baixista da Papangu.

E, na capital alemã, a Papangu pôde sentir na pele a importância das limitações e permanência dos "ruídos", exatamente como disse o músico britânico. "O meio analógico da fita impõe uma certa saturação e compressão, o que deixa o som um pouco acolchoado, remetendo aos discos da era de ouro do rock brasileiro dos anos 1960 e 1970. Aquela coisa dos Mutantes, Som Imaginário, Milton Nascimento. É uma sensação sonora bem parecida", conta Marco Mayer à DW.

A Papangu é formado atualmente por Marco Mayer no baixo, Hector Ruslan na guitarra, Rodolfo Salgueiro nos teclados, George Alexandria na bateria e Pedro Francisco como "coringa", entre guitarra, flauta, teclado, percussão e saxofone. Todos dividem as vozes. A banda também conta com Raí Accioly em algumas apresentações.