Woody, Jessie e Buzz vs. um tablet. Conversamos com alguns dos responsáveis pelo filme para entender a dinâmica do novo capítulo da franquia, já em cartaz.

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Em 1983, a Disney demitiu um jovem animador chamado John Lasseter, que insistia que os computadores revolucionariam o jeito de fazer desenhos. Uma visão que alguns executivos da empresa não compartilhavam.

Lasseter foi trabalhar na Lucasfilm, a empresa de efeitos visuais de George Lucas, o criador de Star Wars. Em 1986, parte do departamento gráfico da empresa, do qual Lasseter fazia parte, foi vendida a Steve Jobs e virou uma companhia independente: a Pixar (o nome vem de um computador desenvolvido pela equipe quando ainda estavam na Lucasfilm).

A Pixar passou quase uma década fazendo curtas animados para comerciais e para demonstrar o potencial dos seus computadores. Foi assim que conseguiram um contrato com a Disney para modernizar algumas etapas dos filmes da empresa, que ainda eram feitos majoritariamente à mão. Mesmo assim, a conta não fechava, e o estúdio quase faliu.

A cartada final da empresa foi um outro acordo com o Mickey. A Pixar se comprometeu a lançar três longas-metragens de animação feitos no computador (algo inédito), que seriam distribuídos pela Pixar. Com um orçamento enxuto e meia dúzia de animadores que viraram noites na frente do PC, o estúdio lançou em 1995 o primeiro filme do contrato: Toy Story, dirigido por Lasseter.

O resto você já sabe.

A Pixar não seria nada sem tecnologia, e as suas inovações revolucionaram o mercado. Mas agora, mais de 30 anos depois, já se sabe que a moeda dos computadores, dos celulares e de toda essa conectividade tem um outro lado. Chegou a hora de discutir esse assunto. E a Pixar fez isso na telona.

 Toy Story 5 estreou nos cinemas no dia 18 de junho. No longa, o público reencontra os brinquedos icônicos da franquia, como o cowboy Woody, a cowgirl Jessie e seu cavalo Bala no Alvo, além do patrulheiro espacial Buzz Lightyear. Desta vez, a turma enfrenta um desafio muito mais próximo da realidade: a tecnologia.

O “vilão” do filme é Lilypad, um tablet em formato de sapo que rouba toda a atenção das crianças e faz com que os brinquedos sejam deixados de lado. Os personagens também se deparam com alguns aparelhos tecnológicos um pouco mais retrôs, como câmeras e até um dispositivo em formato de rolo de papel higiênico, chamado Amigo Rolinho, usado para ensinar crianças a ir ao banheiro.

Em todos os filmes anteriores, o foco era claro: a relação entre as crianças e seus brinquedos, um ótimo gancho para se conectar com o público. Mas e quando as crianças do mundo real não brincam mais? Foi justamente essa a pergunta que os produtores da Disney Pixar se fizeram ao decidir embarcar em mais um filme de Toy Story.

Mais do que uma decisão criativa, inserir dispositivos digitais foi quase uma necessidade para viabilizar o filme.

“De certa forma, pensamos que talvez fosse tarde demais, porque obviamente o tempo de tela e os dispositivos eletrônicos fazem parte da vida das crianças há bastante tempo. Mas isso também está ficando cada vez mais frequente e pior. Então, não sentimos que estávamos necessariamente perdendo o barco”, conta Lindsay Collins, produtora de Toy Story 5, em entrevista à Superinteressante.

Quando Toy Story 4 foi produzido (o lançamento aconteceu em 2019, mas o filme começou a ser desenvolvido anos antes), o uso da tecnologia na infância ainda não estava em seu auge. Hoje, muitas crianças já crescem com tablets e outros dispositivos eletrônicos para jogar, assistir a vídeos e conversar com os amigos na palma da mão. 

Por isso, um novo Toy Story focado apenas nos brinquedos tradicionais dificilmente conseguiria se conectar com o público infantil atual da mesma forma. Era preciso dialogar com a realidade.

“Quando começamos a fazer o filme – já faz uns três anos e meio desde que começamos a escrever Toy Story 5 – sentimos que era o óbvio a se fazer.”, diz Collins. “Do contrário, estaríamos ignorando completamente a realidade. A questão era: ‘Ok, se vamos fazer outro Toy Story, qual seria a realidade de um quarto de criança hoje em dia?’ E é claro que haveria dispositivos eletrônicos e tecnologia.”

Mas essa não foi a única discussão nos bastidores de Toy Story 5. Ainda era preciso decidir como a tecnologia seria retratada.

“Nós não queríamos ser tão específicos sobre qual era a tecnologia em si, para não parecer que estávamos datando o filme”, diz Collins. “A ideia era escolher um personagem que pudéssemos explorar a fundo e que representasse o que os eletrônicos significam para os brinquedos e para a Bonnie. Foi daí que veio a diversão: encontrar um personagem que representasse um dispositivo tecnológico puramente baseado em algoritmos e dados, capaz de questionar instantaneamente tudo o que os brinquedos consideravam verdade. Foi por aí que começamos.”

Foi assim que surgiu Lilypad. No filme, Bonnie é uma das poucas crianças de seu bairro que ainda brinca com brinquedos “raiz”, sem acesso a aparelhos tecnológicos. Por isso, fica isolada e com dificuldade de fazer amigos – e, por isso, acaba ganhando um tablet de presente dos pais. 

Preocupados com a solidão da menina, os brinquedos e o tablet tentam ajudá-la, cada um à sua maneira: de um lado, os brinquedos procuram um amigo para brincar com Bonnie; do outro, Lilypad cria conexões virtuais. 

Em um evento para a imprensa, Collins contou que a equipe da Pixar quis explorar a tensão entre os brinquedos e Lilypad sem transmitir ao público a sensação de que estava recebendo uma lição de moral sobre tecnologia. O principal conflito do filme acontece entre Jessie, movida pela experiência, e o tablet, guiado por dados e algoritmos. As duas acreditam que estão fazendo o melhor para Bonnie, e a jornada de Jessie em busca de um amigo é o maior arco-narrativo.