Sinto-me no dever de discordar do colega colunista Joel Pinheiro da Fonseca : não há motivo real nenhum que justifique sequer um centésimo do escarcéu em torno dos comentários privados do médico americano Anthony Fauci sobre a pandemia de Covid-19 quando ele era um dos principais assessores oficiais do governo Trump. O barulho é o proverbial pastel de vento ou, como talvez prefiram os gringos, um "nothingburger" ?um sanduíche recheado com o nada. Leia mais (08/08/2026 - 07h00)
Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499: O Brasil Antes de Cabral"
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Sinto-me no dever de discordar do colega colunista Joel Pinheiro da Fonseca: não há motivo real nenhum que justifique sequer um centésimo do escarcéu em torno dos comentários privados do médico americano Anthony Fauci sobre a pandemia de Covid-19 quando ele era um dos principais assessores oficiais do governo Trump. O barulho é o proverbial pastel de vento ou, como talvez prefiram os gringos, um "nothingburger" –um sanduíche recheado com o nada.
Digo isso, em primeiro lugar, por conta das questões mais palpáveis de substância científica. Quem está querendo condenar Fauci por não ter deixado publicamente na mesa a hipótese de uma origem laboratorial do vírus Sars-CoV-2, causador da pandemia, esquece que os apontamentos feitos por ele mencionando conversas sobre essa possibilidade são de janeiro de 2020.
Ora, isso significa que era tão cedo na cronologia pandêmica que o primeiro caso brasileiro da doença só seria confirmado cerca de um mês depois, por exemplo. Por mais desmemoriadas que estejam as pessoas –ou pior, fingindo amnésia–, não é possível que não se recordem da horrenda "névoa da guerra" que circundou aqueles primeiros tempos.
Em janeiro de 2020, era difícil afirmar qualquer coisa com certeza, mas havia vários precedentes claros para vírus pandêmicos –o chamado "spillover" ou transbordamento de espécies de animais para humanos– e absolutamente zero exemplos de pandemias surgidas em laboratório, de forma acidental ou, pior ainda, deliberada.
Convém notar ainda que Fauci, em suas anotações, nunca se diz convencido pela hipótese do escape laboratorial: ele aposta no "spillover", mas tem dúvidas sobre o mercado de Wuhan; e que o primeiro estudo detalhado sobre essa hipótese, dando mais peso à ideia, é de abril de 2020. Levando tudo isso em conta, seria irresponsável da parte dele dar peso à hipótese laboratorial na comunicação pública da doença.
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Aliás, todos os melhores dados disponíveis hoje, incluindo estudos detalhados da dinâmica de transmissão, continuam apontando para o "spillover" de animais em Wuhan como a fonte da pandemia. É claro que ainda há pesquisadores sérios que não se convenceram, e essa conclusão pode se alterar no futuro, mas o ônus da prova continua cabendo a quem afirma que uma pandemia começou de um jeito que nunca tinha começado antes.
Outras acusações que não param de pé, ao menos com base nos textos de Fauci, é a afirmação de que experimentos financiados com o aval dele aumentaram o risco de criar um coronavírus pandêmico em laboratório, ou que o médico teria ajudado a suprimir dados que mostravam a eficácia das boas e velhas cloroquina e ivermectina contra a Covid-19.
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Por fim, quanto às regras sobre distanciamento e uso de máscaras, o princípio da precaução indica fortemente que eles eram as únicas armas disponíveis enquanto não existissem vacinas. De novo, é muito fácil pensar em soluções mirabolantes quando não se está imerso na "névoa da guerra".




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