A estética trumpista procura representar soluções simples para problemas complexos: designar organizações criminosas como terroristas é uma delas

Priorizar nos meus resultados Google A abertura da Assembleia-Geral da ONU, nesta terça-feira, 22, expôs duas visões divergentes sobre como enfrentar o crime organizado nas Américas. O presidente americano Donald Trump disse ter colocado as forças dos Estados Unidos em ação contra cartéis, comparou essas organizações ao grupo terrorista Estado Islâmico e prometeu empregar, se necessário, o “poderio militar sem igual” de seu país no Hemisfério Ocidental. Pouco antes, em seu discurso, Luiz Inácio Lula da Silva deu uma cutucada implícita em Trump: “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas”. O Brasil, disse Lula, aprovou uma Lei Antifacção com punições até maiores do que as previstas para terrorismo e quer cooperação para interromper os fluxos internacionais de armas e dinheiro, mas não terceirizará a defesa de suas fronteiras.

No mesmo dia, Trump reuniu-se com os líderes de catorze países que compõem o Escudo das Américas, uma aliança de governos conservadores do continente. Além dos Estados Unidos, a aliança inclui Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago. São governos que aceitaram aproximar sua política de segurança da formulação de Washington.

Ao fim do encontro em Nova York, os países manifestaram a intenção de aplicar congelamento de ativos, restrições migratórias e de vistos e punições por apoio material ou logístico a 25 organizações, entre elas as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). Além disso, segundo o jornal americano The New York Times, o governo americano negocia para que, ainda esta semana, os países que compõem o Escudo das Américas anunciem a classificação dessas organizações criminosas como grupos terroristas, a exemplo do que fez Trump recentemente com PCC e CV. O Brasil não aceita essa classificação.

Ao fundo da foto do encontro, chamou a atenção um grande emblema que se parece com o escudo da Patrulha Canina, o desenho animado infantil do canal Nickelodeon. Faz sentido: a estética trumpista sempre procura representar soluções simples para problemas complexos. O combate à imigração é representado por um muro alto, sólido e “bonito”, na definição de Trump. O tarifaço foi apresentado em abril do ano passado em uma grande cartolina, como um rudimentar e chamativo trabalho de escola.

Sendo assim, nada melhor do que um escudo digno de desenho animado para simbolizar a união de países “do bem” na torre de comando da Patrulha, que assumem a missão de acabar com o crime organizado, renomeado terrorismo, em sintonia com o líder Trump (uma versão menos simpática do pastor alemão Chase da série?), que distribui as tarefas: “Argentina, bloqueie os bens; Paraguai, vigie a fronteira; Panamá, cuide das rotas; Colômbia, localize os alvos”! Parodiando o bordão da série: “Nenhum cartel é grande demais, nenhum aliado é pequeno demais.” Como na Patrulha Canina, todos confiam no líder, as missões terminam bem e ninguém questiona a jurisdição dos filhotes.

Mas a realidade é diferente. Brasil e México, por exemplo, veem riscos nessa abordagem. A designação das organizações criminosas como grupos terroristas atrapalha a cooperação que já existe entre as forças policiais dos países e levanta o questionamento da possibilidade de operações militares dos Estados Unidos em território alheio. A adesão de catorze governos ajuda Trump a apresentar uma agenda americana como demanda coletiva das Américas. Além disso, oferece vocabulário e procedimentos para declarar que as facções ameaçam a paz continental. Os países governados por aliados de Washington podem consentir em operações americanas em seus territórios, criando precedentes e infraestrutura militar no entorno geopolítico do Brasil. A normalização de ataques contra alvos classificados como “narcoterroristas” enfraqueceria, na prática, a fronteira entre segurança pública e guerra.

Trump declarou na ONU que seu governo realizou dezenas de ataques e que integrantes dessas organizações deveriam ser mortos, expulsos ou detidos como combatentes inimigos. Desde março, quando o Escudo das Américas foi lançado, ele também vem pressionando os parceiros a identificar alvos para a atuação militar dos Estados Unidos.

Brasília dispõe de um argumento jurídico consistente para rejeitar a equiparação. A Lei Antiterrorismo brasileira define terrorismo a partir de atos cometidos por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito racial, étnico ou religioso, com a finalidade de provocar terror social ou generalizado. O governo sustenta que organizações como PCC e CV buscam vantagem econômica e, por isso, enquadram-se no regime jurídico do crime organizado.

Mas o fortalecimento do tal Escudo das Américas mostra que a nova realidade geopolítica é de claro isolamento do Brasil nessa questão do combate ao crime organizado. Em caso de reeleição de Lula, esse será um dos grandes desafios da sua política externa. Se a eleição for vencida por Flávio Bolsonaro ou algum dos outros candidatos de direita, haverá um novo integrante com uniforme verde e amarelo na torre de comando da Patrulha Canina de Trump.