Incorporada ao SUS em 2025, a vacina materna contra o VSR reduziu em mais de 52% os casos graves de bronquiolite em bebês de até 6 meses

Treze anos separam as duas últimas gestações de Daisy Cristina Bandeira, mas a distância entre elas é medida pelo avanço da ciência no Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2013, quando deu à luz Luiz Henrique, a técnica de enfermagem de 36 anos viveu o maior pesadelo de uma mãe: com apenas 16 dias de vida, o recém-nascido foi intubado devido a uma bronquiolite grave causada pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR), enfrentando 21 dias intubado na UTI. Naquela época, não havia vacina preventiva disponível no sistema público.

Em 2026, anos após o susto com o filho mais velho, o pré-natal das gêmeas Maria Clara e Maria Júlia no Hospital Universitário de Brasília (HUB) trouxe a promessa de um começo de vida protegido. Ao completar 31 semanas de gestação, a técnica de enfermagem estendeu o braço para receber a dose única da vacina contra o VSR.

Incorporado ao Calendário Nacional de Vacinação da Gestante em dezembro de 2025, o imunizante permite que a mãe transfira anticorpos para os bebês ainda durante a gestação, oferecendo um escudo contra o vírus nos primeiros meses de vida da criança. Por se tratar de uma proteção transplacentária para cada filho, a dose deve ser repetida a cada nova gestação.

Antes de ser incorporada ao SUS, a vacina contra o VSR estava disponível exclusivamente na rede particular, com preços que podiam chegar a R$ 1,8 mil por dose. A oferta gratuita pelo sistema público ampliou o acesso a uma tecnologia de ponta e reduziu uma importante barreira financeira, permitindo que gestantes, independentemente da condição socioeconômica, tenham a oportunidade de proteger seus bebês ainda durante a gestação, antes mesmo do primeiro respiro.

“Quando minha médica disse que a vacina já estava disponível no SUS, fiquei muito tranquila e tomei. Hoje garanto que minhas filhas nasçam protegidas. Às vezes, quem está de fora da área da saúde, não entende a importância da imunização, tanto para a gestante quanto para a criança. Não é 100% garantido que não venha ter uma bronquiolite futuramente, mas evita que seja grave”, conta a técnica de enfermagem.

As infecções do trato respiratório inferior (ITRI) estão entre as principais causas de adoecimento e mortalidade de crianças e adultos em todo o mundo. Entre as crianças menores de 2 anos, o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) é apontado como a principal causa desse tipo de infecção e pode responder por cerca de 75% dos casos de bronquiolite viral aguda e 40% das pneumonias durante os períodos de sazonalidade, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria.

O VSR pode infectar pessoas de todas as faixas etárias, mas os lactentes, especialmente os menores de 6 meses, estão entre os mais vulneráveis às formas graves da infecção. Nesse grupo, o vírus é uma das principais causas de internação, com maior risco de complicações e morte entre prematuros e crianças com cardiopatias congênitas, Síndrome de Down, anomalias congênitas respiratórias, imunodeficiência, fibrose cística e doença neuromuscular.

Hoje, o SUS conta com duas estratégias seguras e eficazes para proteger os bebês contra as formas graves do VSR: a vacinação durante a gestação e os anticorpos monoclonais, como palivizumabe e nirsevimabe, aplicados diretamente nos bebês.

A vacinação materna é uma das principais formas de prevenção, enquanto os anticorpos são indicados para grupos específicos de crianças com maior risco de agravamento, como prematuros de até 36 semanas e 6 dias e crianças de até 23 meses com determinadas comorbidades. Em alguns casos, as duas formas de proteção podem ser complementares, conforme a indicação médica.

A estratégia de vacinar a gestante baseia-se no conceito de imunização passiva. Segundo a médica Susana Aidé, presidente da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a aplicação da vacina bivalente recombinante no terceiro trimestre estimula o organismo materno a produzir imunoglobulinas (IgG) específicas contra a proteína F do VSR. Esses anticorpos atravessam a placenta e chegam ao bebê ainda durante a gestação, proporcionando proteção nos primeiros seis meses de vida.

“Esses anticorpos atravessam a placenta por meio de receptores específicos chamados FcRn, cuja expressão atinge o pico a partir da 28ª semana de gestação. No cordão umbilical, a concentração de anticorpos protetores chega a ser de 1,4 a 2,1 vezes maior do que no sangue da própria mãe, criando um escudo que blinda o recém-nascido, justamente na fase de maior imaturidade imunológica”, explica Susana.

A eficácia dessa estratégia foi demonstrada no estudo MATISSE (Estudo de Segurança e Eficácia da Imunização Materna), um ensaio clínico de fase 3, realizado em 18 países com 7.358 gestantes. As participantes receberam a vacina bivalente RSVpreF entre 24 e 36 semanas de gestação. O imunizante reduziu em 81,8% o risco de doença grave do trato respiratório inferior associada ao VSR entre os bebês nos primeiros 90 dias de vida. A proteção permaneceu significativa até os 180 dias, com redução de 69,4% dos casos. O estudo também apontou um perfil de segurança favorável tanto para as gestantes quanto para os bebês acompanhados desde o nascimento até os 2 anos.

A vacinação contra o VSR integra um calendário vacinal estabelecido para as gestantes pelo Ministério da Saúde, que contempla outros cinco imunizantes que podem ser recomendados durante o pré-natal:

No Brasil, a vacina contra o VSR é recomendada a partir da 28ª semana de gestação e pode ser administrada na mesma consulta que outros imunizantes durante a gravidez. Segundo a médica da Febrasgo, as vacinas podem ser aplicadas em locais diferentes do corpo, sem necessidade de intervalo entre as doses. “A coadministração com outras vacinas é segura e recomendada”, garante.

Susana destaca também que a proteção contra o VSR não substitui os demais imunizantes indicados durante a gestação. Para ela, cabe aos profissionais de saúde oferecer informações baseadas em evidências sobre os riscos das doenças, a segurança das vacinas e os benefícios da imunização para mãe e bebê.

A ginecologista e obstetra do HUB, Rita de Cássia Corrêa de Oliveira Nishiyama, lembra que a vacina exige um tempo mínimo de incubação no organismo materno. O imunizante contra o VSR é recomendado para gestantes entre a 28ª e a 36ª semana de gravidez. Embora possa ser administrado a partir da 24ª semana em situações específicas, a orientação é que a maioria das gestantes seja vacinada dentro do período recomendado.

“É necessário um intervalo de pelo menos 14 dias entre a aplicação e o parto para que a transferência de anticorpos via placenta seja concluída com sucesso. Caso o bebê nasça antes desse prazo, o recém-nascido precisará receber o anticorpo monoclonal para garantir a proteção”, explica Rita.

De acordo com a especialista, a principal contraindicação à vacina contra o VSR é ter apresentado reação alérgica aguda após uma dose anterior do próprio imunizante. Nesses casos, a vacinação em uma nova gestação não deve ser realizada novamente.

Felizmente, para a maioria das gestantes, as reações são leves e temporárias. Entre os efeitos mais comuns estão dor, vermelhidão e sensibilidade no local da aplicação, além de dor de cabeça e dor no corpo. Segundo Rita, esses sintomas geralmente desaparecem em até 72 horas.

A médica acompanha, durante o pré-natal, gestantes classificadas como de alto risco. Segundo ela, embora a vacina já estivesse disponível na rede privada, a chegada do imunizante ao SUS era aguardada pelas pacientes, especialmente por aquelas que já tinham vivenciado casos graves de bronquiolite em filhos anteriores.