Peças removidas são relacionadas a diversidade sexual e processo de paz, entre outros temas; disputa vai à Justiça

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O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, deu início à sua prometida guerra cultural ao ordenar a retirada de 30 peças do Museu Nacional, em Bogotá, relacionadas à diversidade sexual, ao feminismo e aos processos de paz. A decisão desencadeou protestos da sociedade civil, mobilizou instituições culturais, e levou a Justiça a determinar que as obras sejam preservadas enquanto o caso é analisado.

A intervenção transformou um dos principais espaços de memória histórica colombiana em palco de disputa política. No fim de semana, manifestantes se reuniram na frente do museu, o mais antigo do país, com cartazes em defesa da diversidade e acusando o governo de censura.

"Não é uma batalha cultural, é uma batalha contra a cultura", dizia uma das placas, em referência à ofensiva do presidente. Espriella tomou posse em agosto com um discurso linha-dura, promessas de combate ao crime organizado e defesa de ideais conservadores.

As peças foram retiradas de uma exposição permanente no fim da semana passada. Entre os itens estavam objetos ligados a figuras de esquerda e aos estudantes que impulsionaram a Constituição de 1991. Entre as peças removidas está o chapéu de Carlos Pizarro, ex-comandante da guerrilha M-19 que assinou um acordo de paz em 1989 e foi assassinado meses depois, quando concorria à Presidência.

Na última sexta-feira (16), visitantes encontraram paredes vazias, e a sala onde ficavam as peças foi fechada para uma suposta reforma. A instituição ainda está sem um diretor titular nomeado.

A ministra da Cultura, Paola Holguín, defendeu a medida nas redes sociais, afirmando que o museu não deve servir como instrumento de "doutrinação política". Ela não explicou os critérios utilizados para selecionar as peças nem por que a retirada foi feita de maneira repentina.

No mesmo dia, Espriella discursou na sede do Ministério da Cultura e atacou o que chama de "cultura woke", expressão usada por setores conservadores para criticar pautas progressistas relacionadas a gênero, raça e desigualdade social.

"O Estado tem o incontornável dever moral e político de impedir que os espaços culturais sejam capturados pelo social-comunismo ateu, inimigo dos valores", declarou o presidente, ao lado da ministra, a quem chamou de sua "general". Ele classificou a "cultura woke" como um dos grandes "cânceres" que ameaçam a unidade nacional.

Os protestos começaram no sábado (17) e reuniram artistas, professores, estudantes, integrantes da comunidade LGBTQIA+ e ativistas feministas. O ato terminou com confrontos com a polícia, que usou gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e jatos d'água.

As forças de segurança também destruíram uma instalação improvisada montada pelos manifestantes, composta por torres de tijolos e fotografias das 30 peças retiradas do museu. Na segunda-feira (19), as manifestações continuavam em frente à instituição cultural, que foi cercada por policiais.

Instituições culturais da Colômbia, incluindo museus de Medellín e de Cartagena, manifestaram preocupação e pediram ao Ministério da Cultura que garantisse a autonomia das instituições artísticas do país.

As críticas não se limitaram à esquerda e à classe cultural. Federico Hoyos, ex-deputado do partido Centro Democrático, condenou a retirada de peças. Juan Manuel Galán, presidente do partido Novo Liberalismo, criticou a intervenção do governo Espriella na memória pública.

"Um museu não é um palanque. Se um governo reorganiza as salas para que o passado lhe dê razão, isso não é memória: é propaganda em vitrine", afirmou ele, que é filho primogênito de Luis Carlos Galán, líder liberal assassinado em plena campanha presidencial de 1989.

A disputa em torno da retirada das peças chegou à Justiça depois que organizações culturais e parlamentares de esquerda apresentaram uma ação contra a decisão do governo. Os autores afirmaram que a medida constitui censura e viola o direito à igualdade e a proibição de discriminação por orientação sexual e identidade de gênero.