Golpe mira homens com menos de 40 anos, que vivem em países mais pobres e são atraídos pela 'promessa de um emprego'

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A Anistia Internacional denunciou que a Rússia engana estrangeiros, incluindo brasileiros, para lutar na Ucrânia. O relatório revela que falsas promessas de emprego e coerção são usadas para recrutar vítimas de países mais pobres, que têm passaportes confiscados e são enviados à frente de batalha com pouco treinamento. O grupo classifica a ação como “tráfico de pessoas”.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

A Anistia Internacional, uma das maiores ONGs do mundo, denunciou em relatório divulgado nesta quinta-feira, 10, que Moscou engana estrangeiros para lutar por seu Exército na guerra na Ucrânia. Com base em entrevistas com prisioneiros de guerra, a organização revelou que o esquema vitimou cidadãos de países como Colômbia, Cuba, Sri Lanka, África do Sul — e Brasil.

Segundo a investigação, alguns foram atraídos para a Rússia por anúncios de emprego falsos e obrigados a se alistar após chegar ao país. Os mais visados são homens com menos de 40 anos, que vivem em países mais pobres e são atraídos pelas supostas oportunidades trabalhistas. Em junho, uma investigação da agência de notícias AFP já havia demonstrado que o país de Vladimir Putin recorria a promessas de empregos bem remunerados no setor civil para recrutar quenianos que acabavam sendo enviados para o front.

Até o momento, as autoridades russas não se pronunciaram publicamente sobre as acusações. Anteriormente, o Kremlin já rejeitou em outras ocasiões as alegações de que obriga estrangeiros a se alistar em seu Exército.

A Ucrânia estimou em abril que mais de 28 mil estrangeiros de 136 países combatiam no Exército russo. A eles se somam, segundo as autoridades ucranianas, cerca de 14 mil soldados norte-coreanos que lutaram contra as forças de Kiev durante a ofensiva ucraniana na região russa de Kursk, em 2024.

Entre os principais métodos usados pelos recrutadores para atrair estrangeiros estão anúncios de emprego publicados na internet, muitas vezes para vagas inexistentes, segundo a organização.

“E então começa a coerção. Seus passaportes são confiscados. Eles são obrigados a assinar documentos que não entendem. São submetidos a treinamentos que não entendem”, explicou Callamard, para, enfim, serem enviados à linha de frente.

Um caminhoneiro sul-africano, por exemplo, foi convidado a viajar a Moscou para trabalhar como motorista e, assim que chegou, “confiscaram tudo” o que ele tinha, segundo o relatório.

Recrutas do Brasil, segundo o relatório, contaram que tiveram seus passaportes e celulares confiscados durante o treinamento ou antes de serem enviados para a linha de frente. Outros afirmaram que não podiam deixar as instalações para onde foram levados após assinarem a documentação, sendo todo o transporte realizado de forma sigilosa e sob rigoroso controle.

Pedro, um profissional brasileiro de TI recrutado após assinar o que acreditava ser um contrato para um emprego bem remunerado na área de tecnologia na Rússia, disse que pediu ao seu comandante para ir embora, mas ouviu a seguinte resposta: “Se você tentar escapar, ou vai para a cadeia ou nós o mataremos”.

Falta de experiência militar não parece ser um obstáculo ao recrutamento, de acordo com a Anistia Internacional, uma vez que a maioria dos alistados é enviada para zonas de combate ativo após apenas duas semanas de treinamento. Muitos relataram preparo insuficiente, escassez de equipamentos e comunicação limitada com os comandantes devido a barreiras linguísticas.

“Isso sugere que o recrutamento de estrangeiros é motivado pelo desejo de aumentar o efetivo das forças de linha de frente da Rússia, com pouca ou nenhuma preocupação com a prontidão para o combate e um aparente descaso pela vida humana”, avalia o relatório.

As entrevistas com as vítimas do esquema foram realizadas em dois campos de prisioneiros de guerra ucranianos entre 2024 e 2026, incluindo conversas com cidadãos estrangeiros que atualmente servem nas forças russas e seus familiares, bem como com advogados, ativistas de direitos humanos e jornalistas.

Os recrutadores também têm como alvo estrangeiros que vivem de forma irregular na Rússia, aos quais prometem autorização de residência ou passaporte em troca do alistamento, afirma a organização.

Callamard afirmou que o crime se caracteriza pelo “deslocamento de pessoas”, pelo uso de “meios coercitivos, falsas promessas e violência” e por uma “situação de exploração”.

A secretária-geral da Anistia Internacional pediu à Ucrânia e aos governos dos países cujos cidadãos foram alvo desse sistema de recrutamento que apresentem provas desse “tráfico de pessoas” para que os responsáveis sejam processados, sublinhando que “muitas pessoas que trabalham para o Estado russo são cúmplices desse fenômeno e deveriam prestar contas”.

Embora tenha reconhecido que provavelmente essas investigações não serão uma prioridade para a Ucrânia, ela recomendou que Kiev as conduza.

“Além disso, isso demonstraria que a Ucrânia tem valores e uma abordagem muito diferentes dos da Rússia”, afirmou.

(Com informações da AFP)