26º42'S, 15º13'LKolmanskopNaminus, Karas, NamíbiaEm 1908, os alemães estavam concluindo aquele que é considerado o primeiro genocídio do século 20. O pou...
26º42'S, 15º13'LKolmanskopNaminus, Karas, Namíbia
Em 1908, os alemães estavam concluindo aquele que é considerado o primeiro genocídio do século 20. O pouco lembrado massacre dos hereros e dos namas deixou cerca de 75 mil mortes e teria servido como um treino para o Holocausto.
O Império Alemão controlava o Sudoeste Africano Alemão, colônia que hoje corresponde à Namíbia, desde 1892. Em quatro anos, os germânicos exterminaram 80% dos hereros em marchas da morte e outras atrocidades.
Somente no campo de concentração da Ilha do Tubarão, cerca de 3 mil pessoas foram mortas. Não à toa, o local também era conhecido como Ilha da Morte.
Pouco após o fechamento do campo, a apenas 10 quilômetros, um trabalhador namibiano deu início a um novo capítulo da colonização alemã no país. É uma história sem os traumas do genocídio, mas também efêmera e pouco conhecida, perdida nas areias do deserto. Começou com base na tremenda sorte, e também no talento, desse homem misterioso.
Zacharias Lewala trabalhava na companhia ferroviária que atendia a região. Em um dia qualquer, varrendo os trilhos e afastando a areia incessante que cobria os dormentes, ele visualizou umas pedrinhas incomuns.
Lewala tinha experiência. Havia trabalhado em uma mina de diamantes na Colônia do Cabo (na moderna África do Sul), então ele suspeitava que aquilo era relevante.
Ele mostrou ao patrão, o alemão August Stauch, que também entendia um pouco do assunto. Stauch disse aos outros trabalhadores para ficarem de olho no chão e não perdeu tempo: tratou de comprar os direitos de mineração na área.
Infelizmente, pouco se sabe a respeito de Lewala. Sumiu no horizonte, talvez com alguns diamantes no bolso.
Um mês depois, a febre dos diamantes já era realidade. A região atraía homens atrás das pedras, e uma nova cidade brotou.
Kolmanskop cresceu assim, graças ao trabalho de pessoas que rastejavam lentamente, com panos cobrindo o rosto, à procura da sorte grande. Eles caçavam diamantes deitados sobre a terra, pois nem era preciso cavar: uma sucessão de eventos geológicos fez com que a mina ficasse logo abaixo da superfície, e não a centenas de metros de profundidade.
Os trabalhadores seguiam um contrato de dois anos. A cidade tinha clínica, escola, delegacia de polícia, restaurante, serviço telefônico, hidrantes, abastecimento de água e outros serviços básicos.
Era preciso oferecer o necessário, pois ninguém podia sair da Sperrgebiet ("área proibida"), criada para restringir a exploração a apenas cinco empresas. Ao final do contrato, o trabalhador tinha que encarar uma novidade tecnológica, o aparelho de raio X. Caso os supervisores encontrassem algo suspeito, o sujeito era convidado a tomar um laxante, a fim de liberar possíveis pedrinhas escondidas.
Essa era uma das demonstrações de opulência do local. Os engenheiros alemães tinham à disposição praticamente tudo que o dinheiro permitia para viverem no deserto mais antigo do mundo — inclusive um arcaico ar-condicionado.
Todas as manhãs, uma merceeira passava distribuindo pães, limonada, água e blocos de gelo, que eram colocados em compartimentos refrigerados. Um sistema de dutos soprava o ar sobre esse compartimento e o transportava aos cômodos vizinhos.
A lista de produtos dessa merceeira mostrava que ela não administrava um simples armazém de secos e molhados. Vendia também champanhe, caviar e produtos típicos alemães — e era paga, às vezes, em diamantes.
Kolmanskop tinha entretenimento de sobra. Cassino, boliche, academia de ginástica, salões de champanhe para as damas e de charutos para os cavalheiros, espetáculos circenses e de ópera. Tudo em salões art nouveau extravagantes.
A maioria dos negócios pertencia ao próprio Stauch. Sua companhia construiu até uma usina elétrica em Lüderitz, onde hoje funciona o Museu Marítimo da Namíbia, o maior do tipo na África.
Para alimentar a usina, a empresa importava carvão do Reino Unido. Praticamente tudo, na verdade, era importado. Os materiais para a construção das casas, do piso às portas, eram italianos. Água potável vinha da Cidade do Cabo.
A cidade podia ficar no meio do deserto, mas até a areia era alemã. Não era frescura, mas uma particularidade da construção civil: como a areia local tinha mais sais, as paredes feitas com ela tendiam a ser mais quebradiças, segundo o jornalista de viagem e historiador David Bowan.




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