(Toda semana, Diogo Cortiz e Helton Simões Gomes conversam sobre tecnologia no podcast Deu Tilt. O programa vai ao ar às terças-feiras no YouTube do UOL, no Spotify, no Deezer e no Apple Podcasts. Nesta semana: Miguel Nicolelis: IA sem consciência devo

Ouvir1×0.5×0.75×1×1.25×1.5×1.75×2×(Toda semana, Diogo Cortiz e Helton Simões Gomes conversam sobre tecnologia no podcast Deu Tilt. O programa vai ao ar às terças-feiras no YouTube do UOL, no Spotify, no Deezer e no Apple Podcasts. Nesta semana: Miguel Nicolelis: IA sem consciência devora humanos; China adota o que o Brasil esnoba; Elon Musk)

A inteligência artificial generativa virou parte da economia da atenção e, ao mesmo tempo, um sistema que aprende com as nossas perguntas.

Diante do treinamento dos modelos de IA requererem não só milhões de dados, mas passarem a incorporar também a interação das pessoas, o neurocientista Miguel Nicolelis sustenta que a relação não é só de uso. A tecnologia passa a "absorver" o comportamento humano e a capturar nossa produção intelectual, diz em entrevista a Deu Tilt, podcast do UOL para humanos por trás das máquinas.

O cérebro humano chegou até aqui porque incorporava como parte dele as ferramentas que ele criava, ou seja, as tecnologias. Então, toda a história da humanidade se reduz à produção de tecnologias que foram assimiladas para expandir, de acordo com o cérebro, a mente humana, o footprint humano no mundo. É a primeira vez que nós criamos uma tecnologia que está revertendo o processo. Nós estamos sendo assimilados.Miguel Nicolelis

Pai da tecnologia das interfaces cérebro-máquina, Miguel Nicolelis é reconhecido internacionalmente por pesquisar há quase 40 anos como as áreas da robótica, inteligência artificial e neurociência podem convergir para restituir a capacidade de movimentos de pessoas com paralisias neurológicas.

Na avaliação do neurocientista, o modelo de negócio das empresas de IA depende de usar "de graça" a produção intelectual da humanidade. Fora isso, cada interação —perguntas, prompts e dúvidas— vira matéria-prima para treinar ou refinar os sistemas.

Qual é o modelo de negócio dos caras? O 'business plan' é o seguinte: você passa o rastelo e usa toda a produção intelectual da humanidade de graça. É uma mina de ouro. Se você tivesse a concessão de um país ou do mundo para explorar de graça todas as minas de ouro, porque os dados são ouro do século 21, sua matéria-prima não custa nada. Aí você fala: 'não, mas a matéria-prima é só parte da equação do business plan'. Sim, vindo de graça, ainda tem que minerar. Quem são os mineradores? Nós.Miguel Nicolelis

A IA também é treinada com dados protegidos por direito autoral, e Nicolelis revela ter tido seus livros usados pela Anthropic. Ele só soube da violação ao ser notificado pelo juiz do processo judicial nos Estados Unidos, que acaba de ser encerrado após a dona do Claude fechar um acordo topar pagar US$ 1,4 bilhão aos autores cujos direitos foram infringidos.

Eu nunca fui notificado pela empresa, nunca fui notificado por ninguém. E aí o juiz falou: 'olha, o seu nome apareceu, você tem o livro X'. Todos os meus livros, sei lá, oito livros estavam lá. 'E você tem até não sei que dia pra assinar essa petição dizendo que você é parte do processo, porque daí você vai ser reembolsado'. Eu não recebi um tostão até hoje.Miguel Nicolelis

Atribuir consciência humana a modelos de inteligência artificial não passa de estratégia para gerar medo entre as pessoas e ampliar o valor de mercado das empresas por trás desses serviços, afirma o neurocientista Miguel Nicolelis.

Desde o início da área, os proponentes da inteligência artificial inventam, mentem, usam o hype. Eles usam isso por duas razões básicas. Uma é para instalar o medo. Porque o medo faz com que você ganhe poder. Quem diz que detém um objeto, uma máquina, um instrumento consciente -que ninguém sabe definir, nem eles, nem ninguém-- detém um poder enorme. E segundo: isso aumenta o 'valuation' da sua empresa. Quanto mais lorota você contar, e como o mundo hoje acredita em todos os maiores loroteiros da história, o seu 'valuation' aumentaMiguel Nicolelis

A gente sabe, desde 2024, que existem aproximadamente 3,4 bilhões de pessoas sofrendo de pelo menos uma das 37 mais prevalentes doenças neurológicas do mundo. E a China provavelmente tem próximo de 450 milhões de pessoas com problemas neurológicos e eles sabem que não há sistema de saúde público nem privado no mundo capaz de lidar com isso. Eles estão à procura de novas abordagens terapêuticas para tratar esses pacientes.Miguel Nicolelis

A China incluiu as interfaces cérebro-máquina como prioridade no 15º plano quinquenal, que define as prioridades econômicas do país para os próximos cinco anos. Equipamentos desse tipo captam ou estimulam sinais cerebrais para conectá-los a equipamentos que ajudem pessoas paralisadas a reaver os movimentos.

A Neuralink pode "sumir do mapa" em poucos anos por não conseguir competir com a China, além de esbarrar em limitações biológicas, financeiras e de viabilidade, afirma o neurocientista Miguel Nicolelis.

Se estivermos aqui, daqui a três, cinco anos, e você me perguntar, 'por que a Neuralink faliu?', eu vou falar, 'bom, era óbvio, todo mundo que é do ramo sabe'. Não tem como competir. Não interessa o que o Elon Musk faça com a Neuralink. Se a China decidir realmente, e eu acho que eles já decidiram, jogar o peso tecnológico do país e o investimento -que são bilhões de dólares-- a Neuralink não vai nem estar aqui. Ela pode ser viável politicamente, como você falou. Só que ela não é viável economicamente.Miguel Nicolelis

Pai da tecnologia das interfaces cérebro-máquina, Miguel Nicolelis é reconhecido internacionalmente por pesquisar há quase 40 anos como as áreas da robótica, inteligência artificial e neurociência podem convergir para restituir a capacidade de movimentos de pessoas com paralisias neurológicas.

Toda semana, Diogo Cortiz e Helton Simões Gomes conversam sobre as tecnologias que movimentam os humanos por trás das máquinas. O programa é publicado às terças-feiras no YouTube do UOL e nas plataformas de áudio. Assista ao episódio da semana completo.