Investidor externo acumula R$ 7,25 bilhões em compras na B3 em setembro; decisões de Copom e Fed podem mudar a conta entre juros, dólar e Bolsa brasileira The post Estrangeiro voltou à Bolsa; Selic menor e Fed mais duro podem frear o rali? appeared first on I…

O investidor estrangeiro voltou a comprar ações brasileiras em setembro. O movimento ganhou força justamente antes de uma Super Quarta que mudou a configuração dos juros no Brasil e nos Estados Unidos.

O Banco Central do Brasil reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano. Horas antes, o Federal Reserve (Fed) havia seguido na direção contrária e elevado os juros americanos para a faixa de 3,75% a 4,00%, pela primeira vez desde 2023 e sinalizando novas altas.

Com isso, o diferencial entre as taxas básicas dos dois países diminuiu. O efeito dessa mudança sobre o fluxo para a Bolsa, porém, não é automático e depende também de fatores como câmbio, preços das ações, perspectivas de lucros, commodities e percepção de risco.

Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, destaca justamente o estreitamento desse diferencial. Na avaliação dele, a alta dos juros americanos reduz a distância entre as taxas de Brasil e Estados Unidos e limita o espaço de atuação do Banco Central brasileiro.

Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, também chama atenção para essa combinação. “Cortar juros enquanto o mundo sobe estreita o diferencial e deixa o real mais vulnerável”, afirma.

Corte dos juros mexe com crédito, custo de capital e atividade de formas diferentes; IMOB, ICON e IFNC mostram cenários técnicos distintos

Enquanto isso, Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, pondera que a Selic continua elevada e mantém a renda fixa brasileira atrativa. Ao mesmo tempo, avalia que o cenário americano aumenta a importância da diversificação internacional.

“A retomada do aperto monetário americano, o dólar forte e a maior volatilidade internacional tornam a construção de carteira global uma ferramenta de gestão de risco, e não apenas uma busca por retorno”, afirma.

A questão para a Bolsa passa, portanto, pela forma como o investidor estrangeiro vai reavaliar essa combinação de juros, câmbio e preços dos ativos brasileiros.

Os dados mais recentes mostram que o retorno do capital externo à B3 ganhou força ao longo de setembro.

Até o dia 15, último dado disponível, investidores estrangeiros acumulavam entrada líquida de R$ 7,25 bilhões no mês. No ano, o saldo positivo chegava a R$ 25,54 bilhões.

O movimento aprofunda a mudança que ocorreu após agosto, quando o investidor estrangeiro voltou às compras depois das fortes retiradas observadas semanas antes. Mais de R$ 5 bilhões líquidos ingressaram na reta final do mês passado.

A diferença agora é que os próximos dados de fluxo já começarão a refletir um ambiente com Selic mais baixa no Brasil e juros mais altos nos Estados Unidos.

O impacto de uma eventual mudança no fluxo estrangeiro não precisa ser uniforme entre as ações.

Investidores institucionais que movimentam grandes volumes normalmente precisam de ativos com liquidez suficiente para montar e desmontar posições. Por essa razão, as grandes empresas do Ibovespa costumam ter peso relevante nos fluxos direcionados à Bolsa brasileira.

Ao mesmo tempo, o corte da Selic pode produzir efeitos diferentes entre setores e empresas.

Gustavo Assis, CEO do Asset, observa que mudanças nas expectativas de juros costumam aparecer primeiro nas curvas, nas emissões de dívida, no crédito privado e nos ativos de maior duração, antes de chegar ao consumo e ao investimento produtivo.

Essa leitura sugere que o comportamento das ações após o Copom não depende apenas da Selic atual, mas também da trajetória esperada para os juros de mercado.

Sem uma leitura específica sobre papéis individuais, a distinção mais segura é entre grandes ações líquidas, como as blue chips, mais presentes nos fluxos institucionais, e companhias mais sensíveis ao custo de capital doméstico, como companhias de consumo.

A queda da Selic altera uma das variáveis consideradas pelo investidor internacional, mas não determina sozinha a decisão de alocação.