Pesquisa de Oxford analisa 427 interações e identifica comportamentos que podem ajudar a explicar a origem dos animais de estimação.

Interações entre espéciesEstudo de Oxford encontra pistas sobre a origem do vínculo com animais de estimação entre primatasPor Ana Paula Pickler

Especial para a Gazeta do Povo

Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleInterações entre primatas e outras espécies ajudam a investigar a origem dos vínculos com animais de estimação. (Foto: Wikimedia Commons)Ouça este conteúdo

Manter um animal de outra espécie por perto, alimentá-lo, protegê-lo e desenvolver com ele uma relação de companhia parece, à primeira vista, uma característica tipicamente humana. Mas uma revisão conduzida por pesquisadores liderados pela Universidade de Oxford encontrou um conjunto de comportamentos entre primatas que coloca essa ideia em perspectiva.

Ao analisar 427 registros de interações entre primatas e outras espécies, os cientistas encontraram episódios de brincadeira, catação, contato físico, compartilhamento de alimentos, carregamento e cuidado. Em alguns casos, a proximidade foi tão intensa que se aproximou de uma espécie de adoção.

Os resultados levantam uma questão sobre a origem dos animais de estimação: alguns dos comportamentos que hoje sustentam os vínculos entre humanos e pets podem ter raízes mais antigas na evolução dos primatas.

O estudo, publicado na revista Primates, é a primeira revisão sistemática dedicada às interações sociais entre primatas não humanos e animais de outras espécies. A análise reuniu registros provenientes de artigos científicos, fotografias e vídeos e relatos de pesquisadores especializados. Foram incluídas 88 espécies de primatas e 127 espécies parceiras, entre outros primatas e animais como aves, répteis, cães e gatos.

A descoberta não significa que macacos tenham animais de estimação no mesmo sentido que seres humanos. Os próprios autores fazem essa ressalva: a maioria das interações observadas foi breve, enquanto a relação humana com um animal de companhia normalmente pressupõe convivência prolongada.

O interesse da pesquisa está justamente em identificar os comportamentos que poderiam funcionar como possíveis “ingredientes” evolutivos desse tipo de vínculo.

Fraude no Império Romano: pedras de 1,5 mil anos revelam esquema fiscal e punição fatalEstudiosa judia assume presidência de associação bíblica católica pela primeira vezAstrônomos identificam fusão de galáxia que ajudou a formar a Via LácteaAnimais de estimação e a evolução do vínculoA relação humana com outras espécies não começou com cães e gatos dentro de casa. Durante milhares de anos, animais foram incorporados à vida humana por razões práticas, como caça, proteção, transporte e alimentação. Em algum momento, porém, algumas dessas relações passaram a envolver também companhia e apego, dando origem ao que hoje reconhecemos como animais de estimação.

Quando exatamente isso aconteceu permanece uma questão difícil de responder. Registros arqueológicos mostram que humanos já mantinham relações próximas com cães há pelo menos milhares de anos, mas a própria pesquisa parte da possibilidade de que certos comportamentos necessários para esse tipo de vínculo sejam muito mais antigos.

É nesse ponto que os primatas se tornam importantes para a investigação. Como nossos parentes evolutivos mais próximos, eles podem oferecer uma espécie de janela para comportamentos que antecederam a história propriamente humana.

O levantamento procurou justamente essas pistas. Para construir a base de dados, os pesquisadores fizeram buscas em literatura científica, analisaram imagens e vídeos disponíveis publicamente e enviaram um questionário a cerca de 250 pesquisadores.

Ao final, 37 especialistas responderam. Dos 427 registros reunidos, 303 vieram de publicações científicas, 58 de fotografias e vídeos e 66 de respostas ao questionário.

Brincadeiras foram o comportamento mais frequente entre os 427 registros de interações analisados pelos pesquisadores. (Foto: Wikimedia Commons)Os casos foram registrados tanto em ambientes naturais quanto em cativeiro. A maior parte ocorreu na natureza: 311 registros, contra 111 em ambientes sob cuidados humanos. Entre as interações observadas em áreas selvagens, algumas envolveram espécies domesticadas próximas a locais de ocupação humana, principalmente cães, além de gatos e porcos.

Os pesquisadores classificaram os comportamentos em 17 categorias. Brincadeiras foram as mais frequentes, com 139 registros, seguidas pela catação, com 136. Também apareceram contato corporal, proximidade, abraços, carregamento, compartilhamento de alimentos e amamentação.

Outro dado chamou atenção: quando foi possível determinar quem iniciou a interação, os primatas foram responsáveis por 66% dos casos. Em 144 das 219 situações com informação sobre a direção do contato, o próprio primata tomou a iniciativa. Apenas três interações foram iniciadas pelo outro animal.

A idade e o sexo também influenciaram o tipo de comportamento. Filhotes e indivíduos jovens apareceram mais associados a brincadeiras, enquanto as fêmeas adultas demonstraram maior tendência a comportamentos afiliativos, especialmente a catação. Machos adultos, por sua vez, foram menos afiliativos no conjunto analisado.

Alguns episódios foram especialmente relevantes para a hipótese sobre os animais de estimação. Um dos exemplos mais marcantes ocorreu no Brasil.

Um filhote de sagui foi adotado por um grupo de macacos-prego e permaneceu com eles por pelo menos dez meses. Duas fêmeas assumiram sucessivamente comportamentos maternos em relação ao filhote, enquanto os demais integrantes do grupo demonstraram tolerância à presença dele.