Luís Tomé destaca a guerra de narrativas entre EUA e Irão com falsas informações de ambos os lados. Fala num Irão sem controlo do Estreito de Ormuz, mas capaz de deixar Donald Trump mais frustrado
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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa na Rádio Observador em que damos especial destaque às principais questões geopolíticas que estão a marcar a atualidade. Hoje conto com a análise do professor catedrático, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa, Luís Tomé. Muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar precisamente com a situação no Médio Oriente. O Irão nega ter rejeitado uma nova proposta de cessar-fogo dos Estados Unidos. A minha pergunta, Luís Tomé, em que ponto é que está esta questão, com narrativas divergentes entre as duas forças em oposição, e até que ponto é que se pode manter este impasse?
Olá, boa tarde. Esta negação de ter rejeitado essa proposta surge a seguir a notícias de que teria rejeitado uma proposta de cessar-fogo dos Estados Unidos, que teria sido veiculada ou entregue pela mão do primeiro-ministro iraquiano, que se encontrou com o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Araghchi. É muito difícil, porque estamos em plena fase de informação e contrainformação e nem o lado iraniano, nem o lado verdadeiramente americano nos merecem confiança, porque já mentiram descaradamente várias vezes. Mas esta informação, por um lado, que teria rejeitado e, por outro lado, que afinal não rejeitou essa proposta de cessar-fogo, pode querer dizer também que se calhar o Irão está cada vez mais publicamente a falar a duas vozes em virtude de divisões internas. Porque as informações dão um lado em que o ministro dos Negócios Estrangeiros ou o presidente do Irão estão frequentemente numa linha e designadamente ou alguém porta-voz do líder supremo ou do corpo da guarda revolucionária apresenta uma linha diferente. Mas também, nessa incerteza, podemos estar perante uma estratégia iraniana, apesar de tudo calibrada para causar ainda mais frustração em Donald Trump e imprevisibilidade naquilo que é o rumo, por um lado, das negociações indiretas, através de mediadores, e por outro, da própria escalada. Eu recordo que, apesar de tudo, o Irão está hoje numa situação vocal porque está o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano numa cimeira ou numa reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da Organização Cooperação de Xangai no Quirguistão e até está a reunir paralelamente o ministro iraniano com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo por um lado e com o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês por outro, que são dois dos seus parceiros. A questão aqui é que o Irão quer manter o controle e claramente perturba a navegação no Estreito de Ormuz, mas não controla inteiramente a escalada. O presidente Trump está frustrado porque não consegue controlar os acontecimentos, nem o comportamento iraniano, nem recuperar o controle do estreito, nem reprimir os ataques iranianos. E na realidade, nós continuamos aqui a ver um alastrar da conflitualidade a outras áreas e, por exemplo, quer na Cisjordânia, quer em particular no Iémen, com o risco de incidente sobre o estreito de Bab-el-Mandeb, as coisas estão a degradar-se a olhos vistos. É muito difícil o ponto de situação, porque as ramificações já vão para o lado daquilo que é a disputa sobre o estreito de Ormuz e do confronto meramente Estados Unidos-Irão.
Vamos avançar, Luís Tomé, até porque o Irão terá enviado comandantes da guarda revolucionária e equipamento militar para o Iémen para apoiar os Houthis, um grupo rebelde. Isto é sinal de que há uma fraqueza no grupo rebelde perante a missão que lhes foi incumbida pelo governo de Teerão?
Os Houthis são proxy há muito tempo do regime iraniano. Aliás, há uma dramática e trágica guerra civil no Iémen desde 2014. Houve o alastrar para um confronto direto com a Arábia Saudita, que liderou uma coligação de países árabes sunitas contra os Houthis, e isso tinha sido mitigado, mas depois do 7 de outubro nós vimos os Houthis atacarem Israel sem sucesso e condicionarem a navegação no mar Vermelho e no próprio estreito de Bab-el-Mandeb. E agora esse é o problema, porque nós começámos a ver notícias de que o Irão estava novamente a fazer chegar não apenas conselheiros e comandantes do corpo da guarda revolucionária, mas também equipamento militar. Foi isso que levou ao bombardeamento do aeroporto da capital controlada pelos Houthis de Sana, que voltou a fazer perigar a navegação no mar Vermelho e no estreito de Bab-el-Mandeb e que levou os Houthis a declarar o bloqueio do estreito de Bab-el-Mandeb aos navios da Arábia Saudita. E há algumas notícias de ataques Houthis a navios e nós estamos sob o sério risco de não apenas o bloqueio no estreito de Ormuz. Ontem, por exemplo, passou apenas um único navio no estreito de Ormuz, mas o mesmo a ser replicado no estreito de Bab-el-Mandeb. Inclusivamente, os Houthis até declararam formalmente que os navios chineses têm permissão para passar sem ser atacados no estreito de Bab-el-Mandeb. Falávamos há pouco no alastrar, é o típico exemplo de contágio a que estamos a assistir, uma situação que começa a ficar relativamente descontrolada e a coesão não vem apenas de uma parte do Irão ou dos Estados Unidos, começam as ramificações e o risco é que depois esta escalada fique descontrolada. E este é o caso típico do que estamos a assistir, porque a situação no Iémen se agrava, agrava-se no estreito de Bab-el-Mandeb e o contexto regional é cada vez mais caótico.
Luís Tomé, mais uma notícia que importa analisar neste gabinete de guerra, até porque os Estados Unidos estão a investigar um possível apoio russo em ataques iranianos contra instalações da CIA no Médio Oriente e a Rússia classifica os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão como uma agressão ilegal. Há aqui algum tipo de possível potenciar da escalada de tensão no Médio Oriente? A Rússia pode ser um problema a acrescentar à lista de problemas que já existem no Médio Oriente?
Eu creio que do lado da Rússia não, mas o que estamos a ver aqui é a retórica conectando vários tipos de agendas e de palcos de conflitualidade. Ninguém tem dúvida de que algum apoio da Rússia há ao seu parceiro estratégico, Irão, que recordemos, desde o início da agressão russa à Ucrânia, tem iniciado a Rússia, designadamente com drones, mas também com alguns mísseis. E portanto, além daquelas informações que a Rússia partilha, imagens de satélite, certamente que algum tipo de tecnologia vem sendo dada ao Irão. Esta notícia é sempre difícil de nós sabermos se é verdadeira ou não, de uma alegada investigação americana a este apoio russo a ataques iranianos contra instalações da CIA é difícil, mas se aceitarmos como muito provável que a Rússia forneça algumas imagens intelligence ao Irão, designadamente alvos de bases americanas, é evidente que também instalações da CIA no Médio Oriente estarão no pacote dessas informações cedidas. Portanto, não parece nada bizarro. O que eu acho é que a agenda, a articulação entre o regime de Putin e a administração Trump vai muito para lá do Médio Oriente, vai muito para lá da guerra na Ucrânia. E isto não me parece que por si só possa ter impacto maior nem num conflito, nem no outro, nem, do meu ponto de vista, sequer, nas relações e nas conversas bilaterais entre os dois países. A declaração russa classificando os ataques americanos e israelitas contra o Irão como uma agressão ilegal já não é nova. E como disse há pouco, isto ainda por cima no contexto de uma reunião importante.
Mas reforçar nesta altura não nos dá nenhum indicador, Luís Tomé?
Não, porque isto acontece em contextos específicos e o caso da Rússia, neste momento, sabe que vai haver




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